No solo úmido e sombrio, rasteja a traição,
Com olhos de fel e línguas de engano,
A serpente espreita, disfarça intenção,
Na toca dos fracos, trama o insano.
Mas eis que no alto, onde o vento é rei,
O gavião vigia, sem medo, sem dó,
Não luta na lama, pois sabe que a lei
Dos que alçam voo é o céu maior.
Num rasante certeiro, sem hesitação,
Crava garras firmes na vil rastejante,
Ergue-a consigo, sem hesitação,
Leva-a ao abismo do céu deslumbrante.
Lá em cima, o ar lhe pesa o peito,
A serpente frágil já não tem astúcia,
Perde o veneno, perde o direito,
Cai sem defesa, entregue à justiça.
E enquanto despenca, traidora e vã,
O gavião desce, triunfante e feroz,
Pois no chão onde antes urdia o afã,
Agora jaz muda, sem mais sua voz.
Que saibam os fracos, de mente rasteira,
Que o solo lhes serve, mas nunca o além,
Pois os que voam, de força altaneira,
Sabem que a luta se vence no além.
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Sibipiruna, árvore dourada
Nos caminhos da vida, entrelaçada.
Raízes firmes na terra,
Sabedoria em si
Guardando em sua memória
Muitas histórias daqui.
Seus galhos sustentam o céu
E na tua grande imponência
Ostenta teu áureo véu.
Suas flores quando caem
Formam um lençol dourado no chão
Pinta a terra da cor de ouro
inspira poesia e canção.
Suas folhas dançam ao vento leve
A tua sombra acalma
E o calor se faz breve.
Em seus galhos fazem ninhos
Pica-paus, bem-te-vis, maracanãs…
E me acordam com algazarras
Me encantando todas as manhãs
Sob o seu véu dourado
A Paz se faz morada
Sibipiruna majestosa
Minha rainha enraizada
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Sou Bartimeu, a poeira me vestia
a sarjeta era o meu chão,
a dor me revestia.
O mundo me enxergava
mas não queria me ver,
cego e esquecido,
sem nome, sem ser.
Eu era a sombra que passava
e ninguém reconhecia,
Era o fardo, o impuro,
a lepra que crescia
Diziam que eu pecava,
que a treva eu merecia
mas não sabem das lágrimas
que em silêncio oferecia
Até que um dia,
no pó do caminho,
senti um murmúrio,
um Santo Vizinho.
Diziam seu nome
– Jesus de Nazaré!
E meu peito gritou
sem temer e com fé
"Jesus, Filho de Davi,
tende de mim compaixão!"
Mas vozes se ergueram:
"Cale-se, cão!"
Tentaram calar-me,
mas bem alto eu clamei,
com toda a minh’alma,
seu nome invoquei!
Então Ele veio – seus passos ouvi –
e a doce pergunta
rasgou-me o existir:
"O que queres que Eu te faça, Bartimeu?"
E em pranto eu clamei:
"Que eu veja, meu Deus!"
E a Luz me tomou
em abraço ardente,
rompeu-se a treva,
vi tudo, vi gente!
Mas oh! Maior do que o mundo,
maior do que o céu,
era a luz que brilhava
no olhar d'Aquele que é fiel.
Sim, vi o dia, as cores, o chão,
mas nada brilhou como a redenção.
Pois a luz mais pura,
que em mim resplandece,
não é a do sol,
mas a Graça que me aquece.
Sou Bartimeu,
e hoje eu enxergo,
mas não pelo mundo,
e sim pelo Verbo.
Pois cego nas trevas
eu sempre vivi,
até que a Luz verdadeira
passou por aqui.
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Como foi, José?
Ser amado da tua Maria,
ver no olhar dela a luz e a paz,
ser o porto, a fortaleza,
o abraço que aliviava o cansaço,
a ternura que o Céu lhe deu por companhia?
Como foi, José?
Tomar nos braços o Filho Divino,
sentir o calor da pele tão pura,
o sopro suave de um Deus menino
que dormia em tua ternura?
Como foi, José?
Fugir do rei tirano,
atravessar desertos, noites escuras,
guiado por um anjo e pelo amor,
proteger o pequeno Emanuel,
com passos firmes e coração fiel?
Como foi, José?
Erguer os olhos ao alto e saber
que teus braços moldariam
o Salvador do mundo inteiro?
Que tuas mãos de carpinteiro
tocariam as mãos do Redentor?
Como foi, José?
Ensinar-lhe o peso da madeira,
o corte firme, o traço reto,
falar-lhe dos homens e suas dores,
sem imaginar que um dia Ele próprio
levaria a cruz sobre os ombros
Como foi, José?
Sentir o amor de Maria por ti,
como a brisa que acalma a alma,
como o sol que aquece o frio,
como a fé que nunca vacila?
E como foi, José?
Ser recompensado por Deus,
não com ouro, nem com tronos,
mas com a alegria infinita
de ter vivido sob o mesmo teto
do próprio Amor Encarnado?
Ah, José…
Teu silêncio ecoa até hoje,
tua fé nos ensina o caminho,
teu exemplo nos fala em segredo,
pois aquele que soube amar tanto
soube viver o maior destino.
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CRUZ, MEU ETERNO ALTAR
(GÁLATAS 6,14)
Não me glorio no mundo vão,
Nem no brilho falso da ilusão,
Mas na cruz onde o Amor sofreu,
E, em sangue puro, me envolveu.
Ali despido do meu orgulho
morreu o velho eu, vazio entulho.
O mundo para mim se apagou,
E para o mundo, minha vida mudou.
Não são marcas do esforço meu,
Nem façanhas que o tempo teceu,
Mas os cravos que O prenderam ali,
Que selam a graça que recebi.
Na cruz tudo se torna claro
A glória humana é pó e escarro.
Só nela encontro a minha redenção,
O renascer de um novo coração.
Por isso vivo a proclamar
Que a Santa Cruz é o meu eterno altar
E nela, o Cristo, meu Salvador,
A vitória do Céu é o meu único louvor.
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Na esquina esquecida da vida, lá estão,
Velhinhos com histórias que poucos ouvirão.
São árvores antigas em campos desertos,
Com raízes profundas e galhos abertos.
Na curva do sorriso, há trilhas de dor,
Na calma do olhar, repousa o amor.
Caminharam estradas que o jovem não vê,
Guardando segredos que o tempo tece.
Mas passam, apressados, os passos ligeiros,
Ignoram os mestres, os velhos guerreiros.
O algodão nos cabelos, tão doce e tão puro,
É tratado como peso, como um muro escuro.
Se ao menos parassem, sentassem ao lado,
Ouvissem o eco de um tempo dourado.
Descobrissem na ruga, não um traço perdido,
Mas mapas de sonhos que nunca têm fim.
Ó juventude, não vire o rosto!
No riso que resta, há um céu de agosto.
Ouça as vozes que o tempo escondeu,
Pois um dia, ser velho também será seu.
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No fogo brando da vida,
mexia o tacho, mexia o verso.
Açúcar e palavra derretidos,
num tempo manso, mas intenso.
Fez da pedra seu papel,
escreveu no rio seu nome.
Velha? Nunca. Sempre moça,
alma nova que não some.
Goiás guardou-lhe os passos,
como a infância guarda um cheiro.
Doce de abóbora, verso de ouro,
simples, forte, verdadeiro.
Quem disse que há tempo certo
pra florir feito ipê?
Cora foi tardia aos olhos do mundo,
mas nunca tardia pra ser.
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Nasci de um sopro, luzente e risonho,
flutuei pelos ares num doce abandono.
O vento de Deus me guiava em seu giro,
dançando no céu feito sonho e suspiro.
Brilhava ao sol, translúcido e leve,
vestido de cores que o arco-íris tece.
Mas eis que um dia, sem aviso ou razão,
estouro no ar… desfeita ilusão.
Fui belo por breves instantes apenas,
mas frágil demais para as duras arenas.
Na brisa eu ia, sem medo, sem prumo,
mas quando o mundo soprou… desmoruno.
Ah, se eu fosse de argila ou de aço,
se resistisse ao tempo e ao embaraço,
talvez não voasse tão alto e ligeiro,
mas duraria nas mãos do Oleiro.
Pois ser levado é doce e encantado,
mas é na prova que se é moldado.
E um coração que se entrega ao chão,
tem mais que um voo… tem fundação.
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Ó poeta que foste tantos,
mas nunca deixaste de ser ninguém,
ecoando em versos tantos
os mundos que habitam o além.
Alberto, Ricardo, Álvaro,
fragmentos de um mesmo olhar,
vidas forjadas no mármore raro
da dor de tanto pensar.
Tua alma era um oceano
onde naufragavam os dias,
e em cada naufrágio insano
surgiam novas poesias.
Lisboa ainda te guarda
nas esquinas da solidão,
no vulto de quem se tarda
a decifrar tua imensidão.
Se foste tantos, foste um só,
e nesse um, cabemos todos.
Teus versos vivem sem dar nó
nos corações de tantos povos.
— Ao eterno Pessoa,
que fez da vida um mistério
e das palavras, eternidade.
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Se o mundo silenciasse os poetas
e restasse apenas eu,
não seria eu o último,
mas o único que ainda vê.
Escreveria ao vento e às águas,
aos galhos que dançam sem pressa,
pois a poesia não é só palavra,
é semente que o tempo não cessa.
Se ninguém mais lesse meus versos,
eu os soltaria no rio,
nas asas de um pássaro errante,
no suspiro de um arrepio.
Porque a poesia não pede aplausos,
não exige olhos humanos,
ela dorme nas curvas do tempo
e desperta em sonhos insanos.
Enquanto houver um coração que sente,
uma alma que busca sentido,
a poesia renasce, latente,
num sussurro desconhecido
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