O GAVIÃO E A SERPENTE
No solo úmido e sombrio, rasteja a traição, Com olhos de fel e línguas de engano, A serpente espreita, disfarça intenção, Na toca dos fracos, trama o insano. Mas eis que no alto, onde o vento é rei, O gavião vigia, sem medo, sem dó, Não luta na lama, pois sabe que a lei Dos que alçam voo é o céu maior. Num rasante certeiro, sem hesitação, Crava garras firmes na vil rastejante, Ergue-a consigo, sem hesitação, Leva-a ao abismo do céu deslumbrante. Lá em cima, o ar lhe pesa o peito, A serpente frágil já não tem astúcia, Perde o veneno, perde o direito, Cai sem defesa, entregue à justiça. E enquanto despenca, traidora e vã, O gavião desce, triunfante e feroz, Pois no chão onde antes urdia o afã, Agora jaz muda, sem mais sua voz. Que saibam os fracos, de mente rasteira, Que o solo lhes serve, mas nunca o além, Pois os que voam, de força altaneira, Sabem que a luta se vence no além.
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