A teia que nos prende também liberta,
Aquilo que te corrompe, lhe deixa uma porta aberta.
O fio do saber desliza entre os dedos,
Mas segurar demais é perder os seus segredos.
Saber tudo também é perder tudo,
Pois o peso do mundo se esconde na mente,
O olhar que enxerga além da neblina,
Se perde no medo de estar consciente.
Criar também é apagar,
Como a aranha que refaz a sua trama.
Ergue um fio, desmancha outro,
Reescreve o que o tempo derrama.
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Catacrese é o jeito da língua pedir favor,
Quando falta palavra, a gente usa o que sobrou.
Se a "boca" da garrafa não fala, e o "braço" da cadeira não abraça,
É porque o mundo nem sempre dá nome pra tudo que passa.
A "perna" da mesa não anda, o "dente" da serra não dói,
Mas quem sente na pele o peso da falta não esquece do nó.
O pobre que carrega o "ferro" no rosto
Sabe que o "pé" do morro segura o desprezo a contragosto.
Catacrese é chamar o que não se nomeia,
Mas o que eu vejo não aceita brincadeira:
O menino morre no beco, e chamam de "destino" —
Catacrese errada que finge que é divino.
O policial que esmaga o peito, e dizem "força da lei" —
Mas a força é brutal, e o nome não faz jus à dor que criei.
"Corrente de escravidão" virou "trabalho análogo",
Troca bonita que esconde a chibata, mas o chicote ainda é estrago.
Não empresta palavra quando o grito tem nome certo,
Chama fome de fome, não de "ausência no deserto".
Não me fala em "excesso", chama logo de matança,
Porque a bala perdida sempre acha criança.
Catacrese não é desculpa pra omitir a verdade,
Não põe "prisão temporária" no lugar de "atrocidade".
Quando faltar palavra, inventa, mas não distorce,
Porque aqui, a rima é real, e a vida só conhece o corte.
Então em seus braços, encontro minha laia,
Acreditar no mundo é mentira, viver com você é metáfora.
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Grito no escuro
Eco ressoa no muro —
Meu Narciso puro.
Você sabe o que é a... Metonímia?
Vou te explicar pra não ter confusão,
É quando a parte toma o lugar do todo na construção.
"Li Machado" não é devorar o autor,
É só um jeito de trocar o nome da obra por amor.
"Vou tomar um copo d'água" — mas o vidro fica inteiro,
E o suor que escorre da testa é o esforço do pedreiro.
Mas tem coisa que não troca, nem por arte ou poesia,
Violência não é "amor severo", estupro não é "carícia".
Não chama "culpa da bebida" quando ela não pôde escolher,
Culpar a vítima não é metonímia — é sistema podre pra te prender.
O sangue no asfalto é manchete, "crime em área de risco",
Mas a favela conhece o peso de cada tiro e cada grito.
A gente diz "a empresa explora", mas não sente o calor,
De quem respira veneno enquanto o lucro veste gravata e flor.
O corpo de preto estendido é "suspeito neutralizado",
Mas quem atirou não é criminoso, é "agente fardado".
A dor da mãe vira estatística, e a justiça, só um contrato,
Chamam de "erro" o que é sistema, o abismo construído passo a passo.
Não vem trocar "medo" por "precaução" ou "violência" por "descuido",
A verdade não se veste de metáfora quando o ódio mata um desconhecido.
Palavra bonita não apaga sangue, não estanca ferida aberta,
E o que chamam de "ordem" só silencia quem luta na linha certa.
Então, se te explicam a dor como metáfora pra vida,
Lembra que nem toda figura é troca, e algumas são só mentira.
Porque poesia conhece a contradição,
E o nome disso aqui é catacrese, meu irmão.
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Na pelada de futebol, na música a tocar
O Brasil que sinto me coloca no lugar.
É no riso, na festa, na fé do viver,
Que a alma brasileira aprende a florescer.
No sertão, a poeira, a batalha sem fim,
Onde a seca e o suor desenham o destino assim.
Mas o povo resiste, sonha e cultiva,
Numa terra que, seca, também é viva.
A Amazônia que grita, pedindo atenção,
Com sua floresta, pulmão da nação.
Os rios choram, mas quem vai cuidar?
O Brasil que sinto precisa acordar.
Acordei com uma notícia que afundou o meu coração,
Que o fogo ardente pode acabar com o Pantanal.
Das queimadas criminosas, uma semente pode então
Fazer que a poluição diminua, no final.
Nas favelas, a força, a luta, a união,
Gente que vence na vida, no meio da superação.
Criatividade nasce em desespero meio ao sufoco,
Mas acreditarmos no futuro que mora o nosso novo.
Do pão de queijo ao acarajé de feira,
Nossa culinária é bandeira verdadeira.
Mas nas panelas vazias de fome e espera,
O Brasil que sinto já não prospera.
Mestiço de tudo, de gente e de cor,
O Brasil que sinto é um sonho de amor.
Mas só com respeito, com inclusão,
O futuro se faz de outra geração.
Estamos em época de eleição, o que posso fazer?
Estudar os candidatos sobre o querem ter.
Ver se vão lutar por um povo limpo e justo para vencer
E ter um lugar melhor para se viver.
Pois o Brasil que sinto veio de você.
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Na escola, disseram: "Estuda que a vida muda"
Mas a vida nunca mudou, e o tempo me fez refém da mesma rua
Professor falava de fórmula e gravidade,
Mas a fome no estômago não era equação, era verdade.
Caderno cheio de regra e problema de primeiro grau,
Mas me ensinaram pouco sobre ser preto num sistema desigual.
História plastificada, só branco na lousa do Estado,
Mas nunca ensinaram que colonizador foi ladrão mascarado.
Mas calma...
Isso aqui não é só sobre aula ou livro que eu rasguei,
É sobre o silêncio que grita em cada "nada vi, nada sei."
Porque a rua não dá diploma, mas ensina o peso da dor,
E eu aprendi na esquina que a justiça aqui se veste de cor.
Chamaram de erro o corpo dela, mas nunca a mão que violenta,
Na cultura do estupro, é a vítima que se ausenta.
É roupa que machuca ou homem sem educação?
Pergunta no peito, resposta enterrada na contradição.
E o racismo? Sistema, não falha do coração,
A carne mais barata tem etiqueta preta, oferta na televisão.
Se você me pergunta: "Por que poesia e professor são sempre petista?"
Deve ser porque nós estudamos enquanto você chama tudo isso de "utopia socialista".
Eu não culpo teu celular,
Mas uma educação que sempre falhou em ensinar
Que conhecimento é arma,
E nós morremos desarmados enquanto o ódio arma sua própria sala.
O ensino que desprezei foi aquele que não me deu voz,
Mas nas esquinas aprendi a gritar com as letras, por nós.
O amanhã não nasce em folha de rascunho rasgado,
É no grito rimado que o silenciado é armado.
Então, a escola foi pouco? Não, foi muito,
Foi lá que vi o sistema falhar, e a dor ganhar assunto.
É culpa do governo que te quer calado e quieto,
Mas poesia sobrevive onde o grito é concreto.
Não morre no beco, nem morre no gesto —
Ela renasce no ato, no grito ou no protesto.
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O meu corpo é tempestade. Sinto que não consigo me controlar.
Meus poderes, minhas marcas, meus sentimentos, minhas lembranças
São coisas fúteis ou banais?
Eu vou machucar alguém se não conseguir me controlar. Meu corpo d’água é sensível ao toque do fogo de suas mentiras. Agora, sofro internamente.
Se você enfiasse uma faca em mim,
Seria covardia ou um ato de coragem?
Se me atacasse, raios tirariam paz e tremor de uma cidade invadida por inocentes.
Pois a minha pele de vento, é perturbada pelas ondas de suas falsidades. Agora, eu me debato internamente.
Se você lançasse um golpe contra mim,
Seria medo ou um ato de bravura?
Se me prejudicasse, trovões trariam terror e desordem para uma cidade cheia de desavisados.
Sou só um humano.
Preciso de espaço.
Além do horizonte, um dia brilhante vem ao encontro.
E agora, sem a lua presente,
Sem a escuridão me atacando
E com um raio de sol me iluminando,
Agora consigo brilhar.
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Você sabia que só virei escritor,
Porque não tive coragem de confessar?
Vi em meus versos, um talento doído,
Mas também, uma forma de escapar.
Tatuei em meus braços:
"A vida é cruel, você que morra!"
Arranquei a minha cabeça como forma de coragem
para agradar gente escrota.
A vida? Horrível.
Não posso deixar o meu segredo guardado a sete chaves;
Ser escritor é complicado, mas não parece.
Querem que eu escreva palavras até que me mate.
Então me guardo até que alguém preste.
Não é porque eu sou escritor,
Que vou fazer tudo para te agradar.
Claro, estou te ajudando nos momentos de dor
Não sou escravo, tenho que me cuidar!
A vida? Triste.
Já chorei olhando para cima,
Com medo de ser rejeitado.
Já teve horas que queria morrer,
E outras que queria viver.
Versos são o que me seguram,
Poesia é o que me guarda.
A lágrima que escorre daqueles que amam,
Sou aquele que acalma.
A vida? Poética.
Finja que sou seu brinquedo favorito
E me destrua.
Bate na minha cara porque sou lindo;
a inveja machuca.
Eu escuto Taylor Swift porque gosto.
Tenho ideias diferentes, por isso de mim mesmo gozo.
Se eu quiser fazer o “L”, o que vai fazer?
Humano, nas horas vagas, poeta. Prazer.
A vida? Normal.
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Em um espelho quebrado, vejo o meu rosto,
Reflexos de um ser que nunca foi exposto.
Egoísmo, rancor, minha sombra constante,
Um Narciso sombrio, na escuridão distante.
As rimas são imperfeitas, como minha existência,
Marcadas por erros, por uma tênue resistência.
Meus versos são fragmentos de uma vida em pedaços,
Tentativas desesperadas de encontrar meus laços.
Não sou Drumond, nem Oscar Wilde.
Sou apenas um poeta perdido, sem estilo ou vaidade.
Não há beleza nos meus escritos, apenas dor e verdade,
Reflexos de um ser que busca a própria identidade.
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Tinha um garoto na minha rua,
Que se chamava Quatro, era a única verdade nua.
Seu nome vinha do acaso ou do destino,
Mas o peso era um fardo, marcado desde menino.
Nasceu no dia 4, às quatro da manhã.
Quatro semanas de hospital, sem colo, sem ver a mãe,
Que por sua vez descobriu a gravidez tarde demais.
Quarta tentativa, o aborto não veio, mas o amor ficou atrás.
No quarto aniversário, não houve festa,
Só portas fechadas, silêncio e uma fresta.
Ele ouviu os gritos, e no peito guardou,
Cada palavra que cortava, mas nunca gritou.
Quatro partes tocadas — um corpo, quatro feridas:
A boca, o peito, a barriga, até suas partes escondidas.
O tio o marcou com dedos que não deviam,
E os gritos dele? Eram ecos que ninguém ouvia.
“Quatro é esquisito!”, zombavam sem parar,
Quatro crianças com risos para machucar.
“Olha o viadinho”, apontavam sem dó,
E os tapas da mãe só deixavam pior.
“Homem não chora!”, berrava com as mãos,
Enquanto Quatro afundava em desilusões e vãos.
Fugiu uma vez, duas, três e mais uma,
Mas na última, a casa já não tinha nenhuma
Mão para segurar, voz para chamar:
“Vai embora, moleque, ninguém gosta de te aguentar!”
Agora, olhem para ele, olhem bem:
Todo machucado, sozinho, um ninguém.
Rosto sujo, corpo magro, alma quebrada,
Quatro passos até a sarjeta — vida jogada.
Quatro risos ecoam ao passar,
Quatro olhos desviam para não encarar.
Quatro moedas que nunca chegam à mão,
Quatro batidas antes da última pulsação.
E o nome dele, tão cheio de dor,
É só um número, só mais um rumor.
Mas a cidade não sente, não sabe, não vê,
E o menino que foi Quatro… agora, não é nem três.
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