#13 — Metonímia
Você sabe o que é a... Metonímia? Vou te explicar pra não ter confusão, É quando a parte toma o lugar do todo na construção. "Li Machado" não é devorar o autor, É só um jeito de trocar o nome da obra por amor. "Vou tomar um copo d'água" — mas o vidro fica inteiro, E o suor que escorre da testa é o esforço do pedreiro. Mas tem coisa que não troca, nem por arte ou poesia, Violência não é "amor severo", estupro não é "carícia". Não chama "culpa da bebida" quando ela não pôde escolher, Culpar a vítima não é metonímia — é sistema podre pra te prender. O sangue no asfalto é manchete, "crime em área de risco", Mas a favela conhece o peso de cada tiro e cada grito. A gente diz "a empresa explora", mas não sente o calor, De quem respira veneno enquanto o lucro veste gravata e flor. O corpo de preto estendido é "suspeito neutralizado", Mas quem atirou não é criminoso, é "agente fardado". A dor da mãe vira estatística, e a justiça, só um contrato, Chamam de "erro" o que é sistema, o abismo construído passo a passo. Não vem trocar "medo" por "precaução" ou "violência" por "descuido", A verdade não se veste de metáfora quando o ódio mata um desconhecido. Palavra bonita não apaga sangue, não estanca ferida aberta, E o que chamam de "ordem" só silencia quem luta na linha certa. Então, se te explicam a dor como metáfora pra vida, Lembra que nem toda figura é troca, e algumas são só mentira. Porque poesia conhece a contradição, E o nome disso aqui é catacrese, meu irmão.
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