#15 — Catacrese
Catacrese é o jeito da língua pedir favor, Quando falta palavra, a gente usa o que sobrou. Se a "boca" da garrafa não fala, e o "braço" da cadeira não abraça, É porque o mundo nem sempre dá nome pra tudo que passa. A "perna" da mesa não anda, o "dente" da serra não dói, Mas quem sente na pele o peso da falta não esquece do nó. O pobre que carrega o "ferro" no rosto Sabe que o "pé" do morro segura o desprezo a contragosto. Catacrese é chamar o que não se nomeia, Mas o que eu vejo não aceita brincadeira: O menino morre no beco, e chamam de "destino" — Catacrese errada que finge que é divino. O policial que esmaga o peito, e dizem "força da lei" — Mas a força é brutal, e o nome não faz jus à dor que criei. "Corrente de escravidão" virou "trabalho análogo", Troca bonita que esconde a chibata, mas o chicote ainda é estrago. Não empresta palavra quando o grito tem nome certo, Chama fome de fome, não de "ausência no deserto". Não me fala em "excesso", chama logo de matança, Porque a bala perdida sempre acha criança. Catacrese não é desculpa pra omitir a verdade, Não põe "prisão temporária" no lugar de "atrocidade". Quando faltar palavra, inventa, mas não distorce, Porque aqui, a rima é real, e a vida só conhece o corte. Então em seus braços, encontro minha laia, Acreditar no mundo é mentira, viver com você é metáfora.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.