A brisa sopra, traiçoeira e mansa,
E traz no ar um sopro do passado.
Acorda em mim a velha lembrança
Do teu perfume que ficou guardado.
É o sândalo que invade todo o espaço,
Forte e denso, feito tua presença.
Resgata a falta que faz o teu abraço
E aquela dor que nunca descansa.
As lágrimas caem, teimosamente,
Brotando do peito em pleno desatino,
Desfazendo o esforço de ser indiferente
E de fingir que mudei meu destino.
Todas as memórias que um dia enterrei,
O peso dos planos que o tempo desfez,
Tudo o que fomos e o que não serei,
Volta à tona de uma só vez.
Mas a brisa passa, o encanto se esvai,
O aroma se perde na dor que me invade.
O cheiro dissipou, assim como você se foi,
E o vento levou o que restava de nós.
Continuar lendo
Janelas abertas para a noite,
Sombra que espreita na esquina da rua.
O seu perfume é um veneno,
Um vício que dança e inebria.
Você é o mistério que eu não devo desejar,
A luz de néon que cega e seduz.
Eu sou o fantasma a te observar,
Perdida nas sombras do seu rastro de luz.
Não é um romance, é um feitiço,
Um beijo no pescoço, um pulso acelerado.
Duas almas presas num ritmo,
Amando o perigo de um amor condenado.
É a dor que arde, mas me faz sentir viva,
Um jogo de espelhos onde a mente se perde.
Se te amar é um crime, sou a ré e o motivo,
Desta fatal obsessão.
Continuar lendo
Essa lua que te sonha
e te revela tudo de mim.
Esses versos em que te chamo,
em que te invoco,
em que te amo.
Essa boca que imagino,
ansiando o melhor dos teus beijos.
Esse sonho que me desperta
e me faz buscar-te
nas horas mais improváveis.
As noites em que te contemplo
dentro dos meus próprios olhos.
Os versos onde te encontro,
um fragmento meu,
uma fantasia,
um conto.
As letras sangram
sempre que pronunciam teu nome.
Porque há amores
que a memória se recusa
a esquecer.
Este querer que me desperta
na hora perdida,
no instante incerto.
Livros.
Cenas.
Canções.
Banhos demorados.
Amor.
Silêncio.
Coração.
Tudo acaba sendo você.
Dói
tudo aquilo que nunca tivemos.
Dói
o que jamais chegou a existir.
Versos.
Sonhos.
Idealizações.
Amor...
e o peso das decepções.
Doem os instantes
que nunca me pertenceram.
Dói a vida que imaginei contigo,
a história que julguei minha
e desapareceu
antes mesmo de ter nascido.
Nunca consegui encontrar-te.
Mas o sentimento...
esse sempre esteve lá,
esperando por alguém
que não eras tu.
Tu nunca foste meu encontro.
Eu apenas caminhava perdida,
convencida de que eras
o destino
que daria sentido a minha vida.
Quis tanto ser tua.
E, para ti,
tudo não passava de exagero,
de ilusão.
Quis morar no teu coração,
fazer dele a minha casa.
Mas fui apenas
uma viajante
tentando construir morada
num lugar
que nunca me pertenceu.
Continuar lendo
Apaga a luz.
Deixa que a casa
regresse ao seu antigo ofício
de guardar o silêncio.
Há uma claridade
que pertence às mãos
e outra,
mais secreta,
que nasce quando os olhos
desistem de possuir o mundo.
É essa que procuro.
Não a do rosto revelado,
mas a do teu corpo
respirando tão perto
que a noite parece inclinar-se
para ouvir-nos.
Nenhuma estrela
interroga o mar.
Limita-se a permanecer
sobre a sua infinita inquietação.
Que os teus dedos
me encontrem
como a água encontra a areia,
sem pressa,
repetindo um gesto
que nunca termina.
E que o silêncio
nos cubra lentamente,
como as marés
cobrem as pedras
sem jamais lhes roubar
o nome.
Apaga a luz.
Talvez seja apenas no escuro
que as coisas regressam
à sua verdade.
E talvez o amor
não seja outra coisa
senão esta delicada maneira
de permanecer
um diante do outro
como o mar
permanece amante da noite.
Continuar lendo
Quisera chegar a ti sem minhas sombras,
é a mim que nego quando finjo não sofrer.
É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma.
Como esconder o inverno que me assola,
ou impedir meus olhos de dizer
que queria chegar a ti sem minhas sombras?
Invento primaveras, calo as horas,
finjo que a noite já não me faz arder.
É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma.
Sorrio enquanto a alma se desdobra,
como se a dor pudesse emudecer.
Quisera chegar a ti sem minhas sombras.
Digo que a felicidade enfim me mora,
que não preciso do silêncio para sobreviver.
É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma.
Mas a verdade rompe qualquer obra,
e toda máscara desfaz-se.
Quisera chegar a ti sem minhas sombras,
sem perder-me de mim mesma.
Continuar lendo
Na sala oculta, as sombras vão dançar,
Teu beijo é lâmina que minha boca anua.
Um canto fúnebre começa a ecoar,
Tua voz chama a minha carne nua.
Teus olhos brilham, imbuídos de um desejo que envenena,
Sangrando sonhos, bebo de desejo alucinógeno.
No corpo arde a luxúria plena,
E a dor se faz num gozo obsceno.
Quem és, demônio?
Um santo disfarçado,
Ou fera oculta em beijos carmesins?
Teu toque é fogo, abismo enfeitiçado,
Que arrasta os ossos para os meus jardins.
Se fores monstro, eu quero me perder,
Pois teu inferno é doce de morrer.
Continuar lendo
Nas sombras frias da minh’alma exausta,
Ecoa um pranto que ninguém escuta...
A vida, uma ilusão tão breve e adusta,
Passou por mim qual ladino que assalta.
Já sonhei com um mundo etéreo,
Mas murchou cedo no meu jardim interno.
Agora sou um vulto, pálido e sério,
Errante neste vale eterno.
Oh! a dor me faz irmã do abismo,
Onde os risos morrem sem ter nascido...
E o amor? Um espectro em cruel lirismo,
Que beija e fere, e deixa o peito ardido.
Por que nasci? Que sentido há no fado?
Ser para o nada, eis o meu cruel destino!
A existência é um cárcere mal selado,
Com grades de ouro e carma divino...
Quis crer na luz... mas tudo era mentira!
O bem, o belo, ilusões de uma poetisa.
Só resta agora esta mórbida lira
E a saudade de um Deus que já não habita.
Se a morte é leito de silêncio e calma,
Que venha, enfim, com seu manto sem cor...
Pois já não cabe mais dentro da alma
O peso vil de viver sem sentido, sem esplendor.
Continuar lendo
A noite se abre como uma flor obscura, exalando segredos de um tempo em que o verbo era sopro e o destino, barro entre dedos.
Ela está ali, não uma, mas todas.
A mulher, as mulheres, seus pés descalços riscam o chão com linhas que não se apagam, dançando em torno da fogueira como quem traça um feitiço com o próprio corpo.
O fogo crepita e canta com elas.
A chama reconhece suas criadoras.
Acima, a lua cheia não apenas observa, ela desce, se curva, se oferece.
A luz prateada se derrama sobre os ombros nus, sobre os cabelos soltos como raízes voltando à terra.
Elas não oram, elas lembram.
O que o mundo chama de feitiço, elas chamam de memória.
Memória das que vieram antes, das que arderam por saber demais, das que pariram em silêncio, das que sangraram em nome do nome de ninguém.
Cada gesto carrega um símbolo, cada giro do corpo desenha espirais de poder antigo, indomado.
Elas não pedem, elas invocam.
Não imploram, reivindicam.
O sagrado que foi lhes tomado.
A voz abafada pelo sino.
O saber escondido sob a fumaça da cruz.
A dança não é alegria, é liturgia,
é linguagem esquecida do ventre.
É fogo que não queima, desperta.
É terra que pulsa sob os pés, lembrando:
o feminino é abismo e ponte.
É sombra e seiva, é lua, faca e semente.
E quando a fogueira se apaga, o calor permanece,
não no chão, mas dentro delas.
Porque uma mulher que dançou ao luar em torno do próprio poder,
não volta jamais a ser só carne.
Continuar lendo