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Flor Noturna

@sonho_inacabado · desde 2025

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O perfume da tua Ausência

A brisa sopra, traiçoeira e mansa, E traz no ar um sopro do passado. Acorda em mim a velha lembrança Do teu perfume que ficou guardado. É o sândalo que invade todo o espaço, Forte e denso, feito tua presença. Resgata a falta que faz o teu abraço E aquela dor que nunca descansa. As lágrimas caem, teimosamente, Brotando do peito em pleno desatino, Desfazendo o esforço de ser indiferente E de fingir que mudei meu destino. Todas as memórias que um dia enterrei, O peso dos planos que o tempo desfez, Tudo o que fomos e o que não serei, Volta à tona de uma só vez. Mas a brisa passa, o encanto se esvai, O aroma se perde na dor que me invade. O cheiro dissipou, assim como você se foi, E o vento levou o que restava de nós.

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Fatal Obsessão

Janelas abertas para a noite, Sombra que espreita na esquina da rua. O seu perfume é um veneno, Um vício que dança e inebria. Você é o mistério que eu não devo desejar, A luz de néon que cega e seduz. Eu sou o fantasma a te observar, Perdida nas sombras do seu rastro de luz. Não é um romance, é um feitiço, Um beijo no pescoço, um pulso acelerado. Duas almas presas num ritmo, Amando o perigo de um amor condenado. É a dor que arde, mas me faz sentir viva, Um jogo de espelhos onde a mente se perde. Se te amar é um crime, sou a ré e o motivo, Desta fatal obsessão.

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Amor

Uma fantasia

Essa lua que te sonha e te revela tudo de mim. Esses versos em que te chamo, em que te invoco, em que te amo. Essa boca que imagino, ansiando o melhor dos teus beijos. Esse sonho que me desperta e me faz buscar-te nas horas mais improváveis. As noites em que te contemplo dentro dos meus próprios olhos. Os versos onde te encontro, um fragmento meu, uma fantasia, um conto. As letras sangram sempre que pronunciam teu nome. Porque há amores que a memória se recusa a esquecer. Este querer que me desperta na hora perdida, no instante incerto. Livros. Cenas. Canções. Banhos demorados. Amor. Silêncio. Coração. Tudo acaba sendo você. Dói tudo aquilo que nunca tivemos. Dói o que jamais chegou a existir. Versos. Sonhos. Idealizações. Amor... e o peso das decepções. Doem os instantes que nunca me pertenceram. Dói a vida que imaginei contigo, a história que julguei minha e desapareceu antes mesmo de ter nascido. Nunca consegui encontrar-te. Mas o sentimento... esse sempre esteve lá, esperando por alguém que não eras tu. Tu nunca foste meu encontro. Eu apenas caminhava perdida, convencida de que eras o destino que daria sentido a minha vida. Quis tanto ser tua. E, para ti, tudo não passava de exagero, de ilusão. Quis morar no teu coração, fazer dele a minha casa. Mas fui apenas uma viajante tentando construir morada num lugar que nunca me pertenceu.

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Amor

A noite aprendeu teu nome

Apaga a luz. Deixa que a casa regresse ao seu antigo ofício de guardar o silêncio. Há uma claridade que pertence às mãos e outra, mais secreta, que nasce quando os olhos desistem de possuir o mundo. É essa que procuro. Não a do rosto revelado, mas a do teu corpo respirando tão perto que a noite parece inclinar-se para ouvir-nos. Nenhuma estrela interroga o mar. Limita-se a permanecer sobre a sua infinita inquietação. Que os teus dedos me encontrem como a água encontra a areia, sem pressa, repetindo um gesto que nunca termina. E que o silêncio nos cubra lentamente, como as marés cobrem as pedras sem jamais lhes roubar o nome. Apaga a luz. Talvez seja apenas no escuro que as coisas regressam à sua verdade. E talvez o amor não seja outra coisa senão esta delicada maneira de permanecer um diante do outro como o mar permanece amante da noite.

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Sombras

Quisera chegar a ti sem minhas sombras, é a mim que nego quando finjo não sofrer. É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma. Como esconder o inverno que me assola, ou impedir meus olhos de dizer que queria chegar a ti sem minhas sombras? Invento primaveras, calo as horas, finjo que a noite já não me faz arder. É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma. Sorrio enquanto a alma se desdobra, como se a dor pudesse emudecer. Quisera chegar a ti sem minhas sombras. Digo que a felicidade enfim me mora, que não preciso do silêncio para sobreviver. É mais do que mentir-te, é perder-me de mim mesma. Mas a verdade rompe qualquer obra, e toda máscara desfaz-se. Quisera chegar a ti sem minhas sombras, sem perder-me de mim mesma.

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Monstro em meu Desejo

Na sala oculta, as sombras vão dançar, Teu beijo é lâmina que minha boca anua. Um canto fúnebre começa a ecoar, Tua voz chama a minha carne nua. Teus olhos brilham, imbuídos de um desejo que envenena, Sangrando sonhos, bebo de desejo alucinógeno. No corpo arde a luxúria plena, E a dor se faz num gozo obsceno. Quem és, demônio?  Um santo disfarçado, Ou fera oculta em beijos carmesins? Teu toque é fogo, abismo enfeitiçado, Que arrasta os ossos para os meus jardins. Se fores monstro, eu quero me perder, Pois teu inferno é doce de morrer.

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Alma Solo

Nas sombras frias da minh’alma exausta, Ecoa um pranto que ninguém escuta... A vida, uma ilusão tão breve e adusta, Passou por mim qual ladino que assalta. Já sonhei com um  mundo etéreo, Mas murchou cedo no meu jardim interno. Agora sou um vulto, pálido e sério, Errante neste vale eterno. Oh! a dor me faz irmã do abismo, Onde os risos morrem sem ter nascido... E o amor? Um espectro em cruel lirismo, Que beija e fere, e deixa o peito ardido. Por que nasci? Que sentido há no fado? Ser para o nada, eis o meu cruel destino! A existência é um cárcere mal selado, Com grades de ouro e carma divino... Quis crer na luz... mas tudo era mentira! O bem, o belo, ilusões de uma poetisa. Só resta agora esta mórbida lira E a saudade de um Deus que já não habita. Se a morte é leito de silêncio e calma, Que venha, enfim, com seu manto sem cor... Pois já não cabe mais dentro da alma O peso vil de viver sem sentido, sem esplendor.

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Ritual

Filhas da Noite

A noite se abre como uma flor obscura, exalando segredos de um tempo em que o verbo era sopro e o destino, barro entre dedos.  Ela está ali, não uma, mas todas.  A mulher, as mulheres, seus pés descalços riscam o chão com linhas que não se apagam, dançando em torno da fogueira como quem traça um feitiço com o próprio corpo. O fogo crepita e canta com elas.  A chama reconhece suas criadoras. Acima, a lua cheia não apenas observa, ela desce, se curva, se oferece. A luz prateada se derrama sobre os ombros nus, sobre os cabelos soltos como raízes voltando à terra. Elas não oram, elas lembram. O que o mundo chama de feitiço, elas chamam de memória. Memória das que vieram antes, das que arderam por saber demais, das que pariram em silêncio, das que sangraram em nome do nome de ninguém. Cada gesto carrega um símbolo, cada giro do corpo desenha espirais de poder antigo, indomado. Elas não pedem, elas invocam. Não imploram, reivindicam. O sagrado que foi lhes tomado. A voz abafada pelo sino. O saber escondido sob a fumaça da cruz. A dança não é alegria, é liturgia, é linguagem esquecida do ventre. É fogo que não queima, desperta. É terra que pulsa sob os pés, lembrando: o feminino é abismo e ponte.  É sombra e seiva, é lua, faca e semente. E quando a fogueira se apaga, o calor permanece, não no chão, mas dentro delas. Porque uma mulher que dançou ao luar em torno do próprio poder, não volta jamais a ser só carne.

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