Flor Noturna @sonho_inacabado
Ritual

Filhas da Noite

A noite se abre como uma flor obscura, exalando segredos de um tempo em que o verbo era sopro e o destino, barro entre dedos.  Ela está ali, não uma, mas todas.  A mulher, as mulheres, seus pés descalços riscam o chão com linhas que não se apagam, dançando em torno da fogueira como quem traça um feitiço com o próprio corpo. O fogo crepita e canta com elas.  A chama reconhece suas criadoras. Acima, a lua cheia não apenas observa, ela desce, se curva, se oferece. A luz prateada se derrama sobre os ombros nus, sobre os cabelos soltos como raízes voltando à terra. Elas não oram, elas lembram. O que o mundo chama de feitiço, elas chamam de memória. Memória das que vieram antes, das que arderam por saber demais, das que pariram em silêncio, das que sangraram em nome do nome de ninguém. Cada gesto carrega um símbolo, cada giro do corpo desenha espirais de poder antigo, indomado. Elas não pedem, elas invocam. Não imploram, reivindicam. O sagrado que foi lhes tomado. A voz abafada pelo sino. O saber escondido sob a fumaça da cruz. A dança não é alegria, é liturgia, é linguagem esquecida do ventre. É fogo que não queima, desperta. É terra que pulsa sob os pés, lembrando: o feminino é abismo e ponte.  É sombra e seiva, é lua, faca e semente. E quando a fogueira se apaga, o calor permanece, não no chão, mas dentro delas. Porque uma mulher que dançou ao luar em torno do próprio poder, não volta jamais a ser só carne.

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