Sempre que ouço música clássica
eu choro, copiosamente.
Assemelha-se, pra mim,
a narração de uma história familiar
só que sem as palavras,
apenas com sentimentos suspensos.
Sempre que eu olho pro céu
não vejo apenas as nuvens...
eu exploro o azul, as nuances,
e ele conta só pra mim
que o vento logo vai soprar.
E quando sopra, eu me sinto amada.
Sempre que eu toco
as macias cobertas da cama
eu sinto o aconchego,
como um abraço carinhoso.
Sempre que provo algo doce
sinto de imediato um afeto,
parece uma palavra leve
dita com tamanha força
que aquece o coração.
Sempre que eu sinto o cheiro de chuva,
eu lembro de mingau,
e lembro a infância.
Existia o pique-esconde,
contávamos sempre até dez,
era um preparo, um ritual,
pra iniciar a brincadeira.
E, por acaso, agora,
lembrei que já não fazemos mais isso.
Não contamos até dez
em dias difíceis,
não preparamos mais o nosso coração
nem os dos outros
para a grande aventura de viver.
Então, me finco aqui,
no final desse poema,
que não tem a intenção de ser belo,
apenas sincero.
Vou recostar-me à parede,
fechar os olhos,
e contar do início...
1...
2...
3...
4...
5...
6...
7...
8...
9...
10!
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Notas
imersas
em álcool
tão tristes
quanto o agora.
Tenho pra mim
que o sol me persegue...
Sempre que o tempo está nublado
me aproximo para observar,
eis que um facho de luz aparece,
depois o sol, dissipando as nuvens.
Quando o tempo está ameno
aproveito para ir ao mercado
não consigo chegar sequer à esquina
o tempo logo se abre.
O caso mais grave e descarado
foi quando estava chovendo,
peguei o guarda-chuva e entrei no mercado,
quando eu saí estava um sol vibrante
como se sempre estivesse ali.
Ele bem sabe,
que eu não sou inclinada a ter seus raios
atravessando minha pele,
mas ele não liga, me persegue.
Talvez haja um pouco de sol em mim
por isso ele sempre me aparece.
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Enquanto eu dizia olá,
você já estava fechando a porta.
Eu fiquei parada no meio da sala,
impassível por um segundo,
não consegui balbuciar uma única palavra
que pudesse te fazer ficar.
A grande verdade é que tínhamos medo
e o medo é um grande imã,
atraímos a ira de algum Deus.
Ficou o silêncio na sala,
mas no rádio tocava Beatles,
eu sei, você detesta.
A música
era um prelúdio do presente.
You say, “Goodbye”, and I say, “Hello”.
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Este não é o mesmo da obra de Herman Melville, nem poderia ser.
Este é Bartleby, o cão.
O Bartleby de Melville diz: Prefiro não!
Esse diz: Porque não?!
Quando a manhã ainda é fria
surge ele de supetão,
correndo afoito
joga-se no mar sem pensar.
Depois roça o corpo encharcado na areia.
Tal ato o faz parecer um cão empanado.
Ele repete o processo de correr,
se jogar e se empanar.
Bartleby geralmente está sozinho,
mas divertir-se não é tarefa difícil...
Outro dia, ele roubou a bolinha
da turma do Beach tênis.
Levou-a para o mar e brincou feliz.
Depois sumiu.
É sempre assim.
Quando olho para ele
é inevitável não enxergar a liberdade
à qual se entrega a vida.
Bartleby é um evento.
Algumas vezes
ele faz uma pequena "sugesta"
que vai dar um mordidela em alguém,
mas é pura graça.
Ele continua a correr sem destino.
Hoje ele corria encharcado
espalhando areia em todo mundo,
a única reação possível era sorrir,
uma pausa para observar a vida,
e convenhamos,
ele a vivia lindamente.
Hoje ele tinha companhia,
brincou e brincou no mar,
mas mesmo quando não tem
a alegria segue a mesma.
Por que citar Bartleby aqui?
Eu o vejo como uma alma
inocente e desprendida,
que desempenha a tarefa mais árdua,
que é de fato viver.
Tem leveza para viver o presente
da forma que ele se apresenta.
Era um cão abandonado, não sei ao certo...
Ele é um mistério.
Mas quem dera
poder ter um espírito livre assim
e que dança sorrindo na ciranda dos dias.
Sempre que o vejo
eu inevitavelmente sorrio.
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Um uníssono NÃO.
Foi o que Binho brasileiro ouviu,
ao se aproximar da cama de seus tutores,
ele parecia não aceitar o fato de que era cão,
e como tal deveria dormir no chão.
Binho brasileiro, esperou o tempo passar,
na surdina ele arriscou, levou um outro NÃO. Voltou ele pro relento.
De tempo em tempo, tentava uma aproximação, afinal, uma cama quentinha combinava com um cão.
Binho brasileiro adormeceu...e acordou no meio da noite, infiltrou-se no meio dos panos, conseguiu sua posição.
Entre reviradas noturnas, foi percebido,
perdeu seu "lote" entristecido.
Quando o dia clareou, o tutor notou,
na ponta da cama um cachorro espremido, Binho brasileiro, afinal, havia conseguido.
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Não existe sequer uma nota triste
que eu não consiga identificar por agora.
Derrubou a jarra
do suco de tangerina
pigmentou o céu.
A noite
o céu se apaga
para preces imperfeitas.
Onde colocar as palavras
que não devem conhecer o mundo?
Os sentimentos absolutos e absurdos
que desarvoram no olhar?
As ferozes dores que disfarçamos?
O silencioso tumulto que desnuda o peito?
Onde ser humano pode ser aceitável?
Onde errar pode ser saudável?
Onde se esconder pode ser subsistir
do que apenas fugir?
Onde a alma pode embriagar-se
e depois abrigar-se?
Se houver resposta, me diga:
se as pernas sustentam o corpo,
o que sustenta o coração?
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