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Ruth

@ruthferreiras · desde 2019

As estrelas se atrasaram essa noite e por muito tempo fui só breu.

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Contando até dez

Sempre que ouço música clássica eu choro, copiosamente. Assemelha-se, pra mim, a narração de uma história familiar só que sem as palavras, apenas com sentimentos suspensos. Sempre que eu olho pro céu não vejo apenas as nuvens... eu exploro o azul, as nuances, e ele conta só pra mim que o vento logo vai soprar. E quando sopra, eu me sinto amada. Sempre que eu toco as macias cobertas da cama eu sinto o aconchego, como um abraço carinhoso. Sempre que provo algo doce sinto de imediato um afeto, parece uma palavra leve dita com tamanha força que aquece o coração. Sempre que eu sinto o cheiro de chuva, eu lembro de mingau, e lembro a infância. Existia o pique-esconde, contávamos sempre até dez, era um preparo, um ritual, pra iniciar a brincadeira. E, por acaso, agora, lembrei que já não fazemos mais isso. Não contamos até dez em dias difíceis, não preparamos mais o nosso coração nem os dos outros para a grande aventura de viver. Então, me finco aqui, no final desse poema, que não tem a intenção de ser belo, apenas sincero. Vou recostar-me à parede, fechar os olhos, e contar do início... 1... 2... 3... 4... 5... 6... 7... 8... 9... 10!

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Deriva

Notas imersas em álcool tão tristes quanto o agora.

Mania de perseguição

Tenho pra mim que o sol me persegue... Sempre que o tempo está nublado me aproximo para observar, eis que um facho de luz aparece, depois o sol, dissipando as nuvens. Quando o tempo está ameno aproveito para ir ao mercado não consigo chegar sequer à esquina o tempo logo se abre. O caso mais grave e descarado foi quando estava chovendo, peguei o guarda-chuva e entrei no mercado, quando eu saí estava um sol vibrante como se sempre estivesse ali. Ele bem sabe, que eu não sou inclinada a ter seus raios atravessando minha pele, mas ele não liga, me persegue. Talvez haja um pouco de sol em mim por isso ele sempre me aparece.

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You say, “Goodbye”, and I say, “Hello”.

Enquanto eu dizia olá, você já estava fechando a porta. Eu fiquei parada no meio da sala, impassível por um segundo, não consegui balbuciar uma única palavra que pudesse te fazer ficar. A grande verdade é que tínhamos medo e o medo é um grande imã, atraímos a ira de algum Deus. Ficou o silêncio na sala, mas no rádio tocava Beatles, eu sei, você detesta. A música era um prelúdio do presente. You say, “Goodbye”, and I say, “Hello”.

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Bartleby

Este não é o mesmo da obra de Herman Melville, nem poderia ser. Este é Bartleby, o cão. O Bartleby de Melville diz: Prefiro não! Esse diz: Porque não?! Quando a manhã ainda é fria surge ele de supetão, correndo afoito joga-se no mar sem pensar. Depois roça o corpo encharcado na areia. Tal ato o faz parecer um cão empanado. Ele repete o processo de correr, se jogar e se empanar. Bartleby geralmente está sozinho, mas divertir-se não é tarefa difícil... Outro dia, ele roubou a bolinha da turma do Beach tênis. Levou-a para o mar e brincou feliz. Depois sumiu. É sempre assim. Quando olho para ele é inevitável não enxergar a liberdade à qual se entrega a vida. Bartleby é um evento. Algumas vezes ele faz uma pequena "sugesta" que vai dar um mordidela em alguém, mas é pura graça. Ele continua a correr sem destino. Hoje ele corria encharcado espalhando areia em todo mundo, a única reação possível era sorrir, uma pausa para observar a vida, e convenhamos, ele a vivia lindamente. Hoje ele tinha companhia, brincou e brincou no mar, mas mesmo quando não tem a alegria segue a mesma. Por que citar Bartleby aqui? Eu o vejo como uma alma inocente e desprendida, que desempenha a tarefa mais árdua, que é de fato viver. Tem leveza para viver o presente da forma que ele se apresenta. Era um cão abandonado, não sei ao certo... Ele é um mistério. Mas quem dera poder ter um espírito livre assim e que dança sorrindo na ciranda dos dias. Sempre que o vejo eu inevitavelmente sorrio.

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Binho Brasileiro

Um uníssono NÃO. Foi o que Binho brasileiro ouviu, ao se aproximar da cama de seus tutores, ele parecia não aceitar o fato de que era cão, e como tal deveria dormir no chão. Binho brasileiro, esperou o tempo passar, na surdina ele arriscou, levou um outro NÃO. Voltou ele pro relento. De tempo em tempo, tentava uma aproximação, afinal, uma cama quentinha combinava com um cão. Binho brasileiro adormeceu...e acordou no meio da noite, infiltrou-se no meio dos panos, conseguiu sua posição. Entre reviradas noturnas, foi percebido, perdeu seu "lote" entristecido. Quando o dia clareou, o tutor notou, na ponta da cama um cachorro espremido, Binho brasileiro, afinal, havia conseguido.

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Nix

A noite o céu se apaga para preces imperfeitas.

Esteio

Onde colocar as palavras que não devem conhecer o mundo? Os sentimentos absolutos e absurdos que desarvoram no olhar? As ferozes dores que disfarçamos? O silencioso tumulto que desnuda o peito? Onde ser humano pode ser aceitável? Onde errar pode ser saudável? Onde se esconder pode ser subsistir do que apenas fugir? Onde a alma pode embriagar-se e depois abrigar-se? Se houver resposta, me diga: se as pernas sustentam o corpo, o que sustenta o coração?

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