Tudo é tão
incerto,
que eu, de
tão farto
disto,
Me pus
No encalço
das certezas
Noite afora
Aceitando a prosa
De profetas
ébrios nos bares,
que eu tanto evitava.
Notei neles
uma coisa
que até poderia ser invejada:
seus destinos
já acertados.
As bebidas,
As cirroses,
Os postes...
Similar
é o caminho
De qualquer viciado
Dizemos que estão perdidos,
sem norte...
Mas eles, em geral, já estão
cara a cara com a morte
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José Roberto dos Santos | @_robsings
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O eco enfraquecia,
Não que antes tivesse alcançado algo.
A pressão da água nos tímpanos
Sentencia: é o fim.
“Eco! Se afogue junto comigo!”
Narciso poderia dizer;
Se não fosse Narciso.
Ainda assim, Eco se afogou.
Já não sabia mais o que ecoar,
Já vinha esmaecendo pouco a pouco
Nessa sua doação inglória
Para o outro, sempre o outro.
Agora,
Ficou sem o outro para se basear,
Morreu desvalida.
...
Em matas densas,
Ainda é possível ouvi-la.
A mais célebre alma penada,
Reverberando a voz dos aventureiros,
Sempre indigente.
Até mesmo após a morte.
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José Roberto dos Santos | _robsings
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Martírio
Era só questão de sumir
até a poeira abaixar,
deixar o tempo consumir,
devorar-se a si mesmo
e ainda lhe ajudar a arremessar
toda a sua carga do penhasco.
Melhor que uma carta de remissão:
a fuga, mais o tempo, mais o anonimato
precederiam um bom recomeço —
barba, cabelos compridos
e mais um chapéu para sua ocultação.
Você poderia estar agora
vivendo tranquilamente
na fronteira, no país vizinho,
ou em qualquer cidade pequena
que lhe servisse de refúgio e esconderijo,
casado, criando seus filhos,
cuidando do campo, do gado…
Mas aqui está você.
Como vai você, neste velho e eterno martírio?
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Acho que é melhor eu começar
a pensar seriamente em...
Não sei...
Em que pé está
essa experiência que esgotei...
A paixão que se queimou.
Queimou até onde tinha algo para queimar.
Será que havia ali
algo mais que eu pudesse aproveitar?
Quem sabe? E o que importa?
Será que
tudo o que havia para se aprender
foi aprendido?
Se sim, está restando
encerrar este ciclo...
Resolver racionalmente
não é o bastante.
Não sei...
Às vezes, a
âncora não ancora.
Às vezes,
é tão forte
essa tendência a divergir
que você pensa:
"Devo mesmo me preocupar em mudar
minha natureza?"
E, bem, isso é perigoso.
Para muitos,
aqui nasce
a desculpa perfeita para
simplesmente deixar estar,
simplesmente se permitir ser:
a fina linha entre um cinismo radical
e a pura aceitação de si.
Digo,
talvez certas pessoas nasceram mesmo para serem "casos perdidos".
Não se dão e não se dariam bem em circunstâncias mais endireitadas, definidas ou bem estabelecidas.
Habitam as linhas tortas de Deus.
Deviam, portanto, se adaptar.
Se adaptar...
Fazer o melhor que se pode
com o que se tem.
Que coisa!
Parece que tudo afluiu
em autoajuda.
Um ajuste de parâmetros para o sucesso,
uma definição mais clara de prioridades.
Só que agora,
com um respeito radical para com suas próprias
circunstâncias.
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Hoje,
A tela em branco,
Aqui, diante de mim,
Me causa, como nunca,
Um desconforto que há muito
Tinha esquecido.
Que relação desproporcional a nossa é!
Só eu que me gasto,
Só eu que me dou, que me doo.
E ela? Só sabe aguardar mais de mim,
Parada ali, imóvel.
Me garante lá uma satisfaçãozinha, um prazerzinho de nada,
Algo que nunca me sacia completamente
E me mantém no limbo.
Gozo que passa rápido demais,
O suficiente só para me manter como escravo.
É certo que até gosto dessa escravidão.
Me sinto incrível, vigoroso, poderoso
Quando nela me derramo, mas também miserável
Quando sinto que aquele momento não bastou,
Quando sinto não ter sido suficiente.
Nessas horas, eu me invoco com ela.
Por vezes, eu a cubro com a manta preta da vergonha
E me recuso a ficar no mesmo espaço que ela.
Mas quanto tempo isso dura?
Uma semana foi o meu máximo.
No fim, eu volto.
Artistas sempre voltam.
Paro diante dela outra vez.
Parece que quem esteve de castigo era eu.
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José Roberto dos santos | _robsings
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Convencionamos
O ano 1 P.C. entre nós.
Esse C é de cataclisma
E o P é de "pós", tomando o lugar do D
da sigla referente à era passada.
Isso, apenas para que
As próximas gerações
não confundissem
ainda mais a história
que, naquela altura,
fora perdida.
Todo controle que julgávamos ter nos traíra,
e toda sorte de calamidades
tomava escalas.
Só tínhamos um deserto enorme para desbravar
sem um guia preciso como suporte.
Relógios desencontrados,
calendários desparametrizados...
GPSs, então? Inúteis.
Perdemos toda ancoragem que tínhamos.
Em nossa poluta exosfera, satélites obsoletos ainda orbitam.
Na terra, buscamos retirar leite de pedra
coletando o lixo que cai do espaço ou
consertando as geringonças que ainda nos restaram.
Não há sinais vindos do alto. Se estes ainda existem, não os captamos.
Tudo o que à nossa volta há
é um amontoado de hardwares sem alma alguma.
Nada até aqui causou incômodo o suficiente ao grande alinhador do cosmos.
Não sei se alguém nos assiste definhar de camarote, mas se há...
José Roberto dos Santos | _robsings
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Quando aquele coquetel neuroquímico
de dopamina, ocitocina, noradrenalina...
sequestra a razão,
ele se esquece que está preso a uma coleira.
A corda é grande o bastante
para sua completa locomoção,
mas isso apenas
dentro do seu cativeiro.
Ele nada pode
contra quem está do lado de fora do portão.
Bota o focinho entre as grades,
é o que lhe resta,
e espera que quem quer que seja
do lado de fora
tenha a audácia de estender a mão.
O pobre coitado pode
nem se empolgar muito.
Sua ruína são seus instintos e emoções,
mas ele nunca poderá agir
de qualquer outra maneira.
Como poderia?
Então
desata a latir
e a expelir saliva para todo lado.
Expressa sua frustração
de modo escandaloso,
mas, mesmo assim,
ninguém entende sua língua.
Acham, na verdade,
ele uma fofura,
mesmo quando está puto da vida.
"Ah, que bom garoto!"
"Quer ossinho? Quer?"
"Quer a sobra? Quer?"
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A eterna luta entre o pênis e a razão
Você quer
Se regenerar
Ser redimido de algum modo
Ganhar um selo de restaurado
E dizer: “Graças ao NoFap, sou um homem mudado”
E tá tudo ok, continue na busca,
Todo homem tem que ter algo que o faça mover
Mas não há nada de santo
Em sua eterna luta
Todos notam que tu só quer uma honradinha pra fu…
Seu influencer te apresenta uma luz
Mas, junto dela, vem o ruído de um trem
Tudo soa aplicável e fácil
“Faça por merecer e tenha o seu harém”
“Seja como um monge,
O mais iluminado entre todos os seres
Não jorre leite
E ganhe superpoderes”
O que tu quer de fato é buceta, mermão
E não é capaz de obter de graça
Tá tudo bem, não precisa ficar sem graça
Muitos estão na mesma situação
O triste mesmo é
Se abnegar
E viver lutando com a libido
Na promessa de que isso
Lhe garantirá o paraíso
Se esse é o seu intuito, meu jovem,
Tudo tende a conspirar contra a sua intenção
É bom que seja forte na vontade
De seguir por essa direção
Já que, nessa abstinência toda,
As beldades que desfilam pelo seu bairro,
De cropped, legging, decotes…
Serão como súcubos querendo sua polução à luz do dia
E não tem jeito, não
É a camisa de Vênus ou a de força
É, não tem jeito, não
É o seu pênis ou a razão
É, não tem jeito, não
É molhar o biscoito
Ou ficar na mão.
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Cheguei a um ponto
de não retorno, babe.
E por trás do meu olhar,
parte de mim ainda quer
chegar
a um meio-termo;
negociar.
Sei que não há como, mas,
mesmo acordado,
ainda sonho
em
retroceder
ou reverter
o desmantelo de minhas
idealizações.
Minhas idealizações.
A vida neste cinza é
um tanto sem gosto,
mas, pela clareza do que
de fato é,
prefiro-a mil vezes.
E, se necessário for,
a ela eu retorno.
Hmm
Meus sonhos contigo
sempre foram quentes,
e isso me faz vacilar
e olhar pro retrovisor.
Mas prefiro manter meus pés no chão,
ao invés de me perder
por uma promessa de amor.
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É um domingo qualquer,
quente demais
para se atrever a sair a qualquer parte.
Me pergunto
por que é tão raro assim
um clima ameno?
É sempre 8 ou 80:
frio de matar sem-teto
ou calor pra infartar idoso.
Tudo que desejo,
em dias como esse,
é chuva.
Até para reivindicar
e justificar melhor — para mim mesmo —
o fim reflexivo, introspectivo.
Mas não importa
o quão horroroso
seja o clima em um domingo,
sempre sentimos
que estamos perdendo algo.
[...]
Quando dou por mim,
estou há horas
debruçado sobre uma folha sulfite
que, dividida em linhas perpendiculares,
me guia no escrutínio de minhas crenças.
Uma matriz de custo-benefício,
basicamente.
Funciona assim:
eu promovo um diálogo comigo mesmo
em quatro quadrantes —
o útil e o verdadeiro
versus
o falso e o prejudicial.
O lance
é se colocar face a face
com tudo que lhe pareça
disfuncional.
Vou te falar:
é bem comum eu bolar coisas assim,
maneiras de se depurar
aquilo que a maioria de nós
nunca vê valor.
Em geral,
sempre negligenciamos
nossa vida interior.
O custo-benefício de minhas crenças:
como me ajudaram
e como me foderam?
Quanto me influenciaram?
Quando me inflexionaram?
É necessário, às vezes,
buscar sarna para se coçar
ou pelo em ovo —
isso é,
se o seu objetivo for se livrar
de padrões que vivem a se repetir,
de novo
e de novo.
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