Foto de Ella

Ella

@rfm · desde 2019

Poesias autorais ✍️ Filosofia 🕯️ Psicologia 🔱 Existencialismo 🪞 Agnóstica ❔ Manauara 🏹🛶 Amazonas. 💚🇧🇷

467 poemas 206 seguidores 203 seguindo

Seguir
Poesia

Setecentos estádios

. Neste ano, a floresta começou a arder sem que ninguém conseguisse dizer como o fogo havia feito o caminho das casas. Primeiro foi uma árvore. Depois outra. Depois tantas. O homem parece não lembrar que a mata também tem um corpo e que corpos, quando queimam, não sabem para onde fugir. Disseram que arderam o equivalente a setecentos estádios de futebol. Mas ninguém contou os animais, a sombra perdida das sumaúmas, nem calculou quantos quilômetros tinha o último voo de uma garça procurando água. A fumaça chegou a Manaus como um parente indesejado. Entrou pelas janelas, pelas roupas nos varais, pelos pulmões das crianças, pelos olhos de quem atravessava a rua com a cidade desaparecida. Durante alguns dias, o sol nasceu furioso. O rio Negro, acostumado a carregar o céu, carregou apenas uma mancha parda. E Manaus respirou como respiram os condenados: por necessidade. "O pior lugar do mundo para respirar." "Nona cidade mais hostil ao corpo humano no mundo." Mas o corpo humano, esse animal teimoso, continuou levantando cedo e fingindo que o fim do mundo não tinha começado num dia qualquer. Nosso maior engano é acreditar que catástrofe precisa chegar com trombetas. Às vezes ela chega em partículas. Devagar. Instala-se nos pulmões. Há muito tempo os homens inventaram fronteiras para separar países, ruas para separar cidades, muros para separar casas. A floresta nunca aprendeu nenhuma dessas coisas. A árvore que queimamos aqui pode ter alimentado uma nuvem que choveria sobre outro continente. O rio que envenenamos não termina onde termina o nosso mapa. O pássaro que desaparece leva consigo uma pequena engrenagem da Terra. É assim que as máquinas morrem. Primeiro perdem uma peça. Depois outra. Eu quero tempo. Não para salvar uma natureza distante, como se a Amazônia fosse uma foto num livro de História. Mas para que compreendam que a floresta não está fora de nós. A Amazônia não é o pulmão do mundo. Ela é parte do corpo do mundo. E nós também.

Continuar lendo
Poesia

Trava Bet

. Tantos tigres tristes, sem trégua, sem tigrinho, sem prato de trigo na mão. Tombaram as Bets, terminou o joguinho. Tigres tristes tropeçam, sem prêmio, sem tostão: Fim dos tigres — e do jogo da ilusão.

Continuar lendo
Poesia

Sem razão

. O futuro queima diante dos meus olhos. Cinzas sobre vivos corpos. Cristãos e pagãos sob a mesma manta gris. O que era verde hoje é carvoeiro. Nas cidades, as pessoas desligam a televisão como se pudessem evitar o fim do mundo. Mas ele já está dentro de todas as casas. Na água, na comida. Dorme nas camas das crianças e, pela manhã, ninguém percebe sua presença. Os velhos têm saudade do passado. Os jovens dizem que não há tempo para ter medo. E os pássaros, que durante séculos souberam para onde voltar, passaram a voar sem destino. Foi assim que descobrimos que o mundo não terminaria de uma vez. Primeiro, ele deixaria de ser reconhecido.

Continuar lendo
Poesia

A criatura escondida no peito - II

. Cumpriam-na levantando cedo, envelhecendo depressa, engordando de tanto engolir palavras, adiando viagens, enterrando desejos, sempre para depois, até que o depois se tornou um lugar onde ninguém mais conseguia chegar. Então, certa manhã, alguém percebeu que já não tinha tanto tempo. Não foi uma descoberta extraordinária. O sol nasceu como sempre, o café foi posto sobre a mesa e os pássaros continuaram cometendo a imprudência de cantar. Mas doeu. Doeu porque finalmente compreendera que a vida não lhe devia os anos que havia entregado. Doeu porque percebeu que passara tanto tempo preparando-se para viver que talvez tivesse confundido a preparação com a própria vida. Então ouviu-se uma voz por trás das costelas: — Quando nos permitem fazer alguma coisa para nós? Ninguém respondeu. Naquela noite, a pequena criatura escondida atrás do coração saiu de seu esconderijo. Estava velha, encurvada, mas ainda respirava. Olhou para o mundo com a desconfiança de quem fora castigado por desejar e disse: — Ainda quero. Foi então que esse alguém compreendeu que a parte mais terrível da obediência não era fazer aquilo que os outros mandavam. Era esquecer, pouco a pouco, aquilo que teria feito se ninguém tivesse mandado coisa alguma. E talvez fosse essa a verdadeira pena: não morrer. Chegar vivo demais ao fim e descobrir que uma parte de si passou a vida inteira esperando permissão para existir.

Continuar lendo
Poesia

A criatura escondida no peito - I

. Nasceram para servir, disseram-lhes, e durante muitos anos ninguém perguntou a quem. Serviram ao pai, à mãe, ao pão, à pátria, ao medo, às contas, às fotografias. Serviram até aos mortos, que continuavam exigindo dos vivos uma fidelidade que não haviam solicitado enquanto respiravam. Quando eram crianças, disseram-lhes que crescer era aprender a obedecer. Só muito mais tarde descobriram que havia uma pequena criatura dentro deles que não obedecia a ninguém. Ela permanecia escondida atrás do coração, encolhida como um animal que aprendera a não fazer barulho para não ser expulso de casa. Às vezes acordava durante a noite e perguntava, sem esperança: — E quando é que vamos viver? Mas ninguém respondia. Porque ao raiar do dia todos estavam ocupados demais vivendo para alguma coisa. Há quem servisse ao dinheiro, há quem servisse ao amor, embora ninguém soubesse dizer quando o serviço terminava e quando começava a solidão. Havia os que serviam aos filhos até esquecerem que também tinham sido crianças. Os que serviam a Deus com tanta devoção que já não lhes sobrava tempo para perguntar se Deus precisava daquele sacrifício. A humanidade inventara milhares de nomes para não chamar as coisas pelo são. Deu outro nome ao medo, à renúncia, à exaustão. Chamou destino àquilo que simplesmente acontecera muitas vezes. E assim os anos foram passando. Ninguém parecia ter sido condenado por juiz algum, mas todos cumpriam uma pena sem perguntar o porquê.

Continuar lendo
Poesia

Pátria

. Que sortilégio nos encontra ao nascer do amor? Tímida flama d'alma que ao encontrar o linho provoca incêndio. Assim cresce o homem? Ternuras e agruras caminham entrelaçadas — também. Que passos são estes? Marcha-dor rumo ao desencontro com solas de açúcar. Tropeça o homem, sul-americano. Sacia-se a sede com melancolia fria, orvalho que pousa sobre a aspereza da língua. Sortilégio e pena — ternuras sim, entre o sal dos olhos. São oceanos. Marés entre os tempos que findam e nascem.

Continuar lendo
Poesia

Alguma coisa viva

. Planta uma árvore. Não te ressintas com as folhas, mesmo as caídas em vão. Não sabes que tudo que vai ao céu também desce ao chão? Planta uma árvore. Que ela seja detentora de tua memória e legado, para que receba o sol dos dias fatigados. Planta uma árvore! Não importa a espécie, nem nome, nem idade; seja grande ou pequena, frondosa ou singela. Se a vida é tão breve, que deixe no mundo alguma coisa viva depois dela. Planta uma árvore! E quando teus dias chegarem ao termo, quando a tua sombra deixar de existir, que outra sombra acolha os que vêm depois, e então teu breve viver há de florir.

Continuar lendo
Poesia

Substância

. O que sou: Eu em mim, Eu em Você. Delato sem ressalvas, sem pequenices: óleo e água. Ora vinho. Tinto seco. Branco suave. Ambas pisadas, espremidas, fermentadas. Você em mim, Você em você, a nos servir. Em que somos ora óleo, ora água.

Continuar lendo
Poesia

1980

. Quão bom seria se voltasse o tempo que se foi, se essa tarde quente ainda trouxesse o mesmo dia, se a voz que se perdeu entre as horas pudesse regressar à minha vida. Mas passa o tempo e não retorna nunca. Passa, e consigo leva o que amei; fica somente a dor, que, longe e muda, cresce na mesma distância em que falhei. O abacateiro frondoso. O abiu a colar o lábio. O sono tranquilo ao som da chuva no telhado de zinco. A folha seca a bailar no pátio. Onde estão os meus dias? As tardes em que a vida parecia não ter fim? Que mãos guardaram o que eu fui outrora? Que céu cobriu o céu que havia em mim? Não volta o tempo. Não voltam as vozes, nem os passos que o barro recebeu. E a saudade, que primeiro era lembrança, fez-se dor e a dor também se rendeu. Tão longe está aquilo que desejo, tão longe está o que não voltará, que já não sei se choro porque me lembro ou se lembro somente porque doerá. Tempo meu, que foste sem retorno. Vida, que não sabes regressar. Deixa-me ao menos esta pobre mágoa: se não posso voltar, posso lembrar.

Continuar lendo
Poesia

Canto

. Cultivei desgosto pelos cantos, pelas bordas, pelas margens. Elas pressionam no escuro, são começos ou fins. Aprendi o limite. Tardes empoeiradas, poleiros de mágoa. No canto esquecido em que canto baixinho uma canção já perdida. Murmuro-a. Já a rezei ajoelhada no milho, sonhando o paraíso. Costumava pensar as nuvens. Já não lembro. Ficou pelos cantos, pelas bordas, pelas margens. Eu já não canto mais.

Continuar lendo