Setecentos estádios
. Neste ano, a floresta começou a arder sem que ninguém conseguisse dizer como o fogo havia feito o caminho das casas. Primeiro foi uma árvore. Depois outra. Depois tantas. O homem parece não lembrar que a mata também tem um corpo e que corpos, quando queimam, não sabem para onde fugir. Disseram que arderam o equivalente a setecentos estádios de futebol. Mas ninguém contou os animais, a sombra perdida das sumaúmas, nem calculou quantos quilômetros tinha o último voo de uma garça procurando água. A fumaça chegou a Manaus como um parente indesejado. Entrou pelas janelas, pelas roupas nos varais, pelos pulmões das crianças, pelos olhos de quem atravessava a rua com a cidade desaparecida. Durante alguns dias, o sol nasceu furioso. O rio Negro, acostumado a carregar o céu, carregou apenas uma mancha parda. E Manaus respirou como respiram os condenados: por necessidade. "O pior lugar do mundo para respirar." "Nona cidade mais hostil ao corpo humano no mundo." Mas o corpo humano, esse animal teimoso, continuou levantando cedo e fingindo que o fim do mundo não tinha começado num dia qualquer. Nosso maior engano é acreditar que catástrofe precisa chegar com trombetas. Às vezes ela chega em partículas. Devagar. Instala-se nos pulmões. Há muito tempo os homens inventaram fronteiras para separar países, ruas para separar cidades, muros para separar casas. A floresta nunca aprendeu nenhuma dessas coisas. A árvore que queimamos aqui pode ter alimentado uma nuvem que choveria sobre outro continente. O rio que envenenamos não termina onde termina o nosso mapa. O pássaro que desaparece leva consigo uma pequena engrenagem da Terra. É assim que as máquinas morrem. Primeiro perdem uma peça. Depois outra. Eu quero tempo. Não para salvar uma natureza distante, como se a Amazônia fosse uma foto num livro de História. Mas para que compreendam que a floresta não está fora de nós. A Amazônia não é o pulmão do mundo. Ela é parte do corpo do mundo. E nós também.
RosaNegra
Amiga, me doeu aqui... E vai doer em todos nós e nas futuras gerações, todo esse descaso. Você é tão necessária, seu coração é lindo.
Ella
Obrigada minha querida. Espero que esse caos seja resolvido. 😮💨🌷🩷
Nilza Poetisa
Muito profundo o poema. Sim Uma queimada aí É como um vulcão que estoura aqui. E os humanos insistem em não ver. Até quando eu diria... Até quando eu pediria... 😪😪
Ella
Sim Nilza. São várias queimadas em diversas áreas do Amazonas, inclusive na cidade. Obrigada 🌷🌷
Nilza Poetisa
Deus há de enviar alguém muito forte que evite essa destruição. Nosso celeiro de matas não pode continuar queimando.😪
Samuel A.Oluwatobi
Muito bom, moça.
Ella
Obrigada. 🌷