Ella @rfm
Poesia

A criatura escondida no peito - II

. Cumpriam-na levantando cedo, envelhecendo depressa, engordando de tanto engolir palavras, adiando viagens, enterrando desejos, sempre para depois, até que o depois se tornou um lugar onde ninguém mais conseguia chegar. Então, certa manhã, alguém percebeu que já não tinha tanto tempo. Não foi uma descoberta extraordinária. O sol nasceu como sempre, o café foi posto sobre a mesa e os pássaros continuaram cometendo a imprudência de cantar. Mas doeu. Doeu porque finalmente compreendera que a vida não lhe devia os anos que havia entregado. Doeu porque percebeu que passara tanto tempo preparando-se para viver que talvez tivesse confundido a preparação com a própria vida. Então ouviu-se uma voz por trás das costelas: — Quando nos permitem fazer alguma coisa para nós? Ninguém respondeu. Naquela noite, a pequena criatura escondida atrás do coração saiu de seu esconderijo. Estava velha, encurvada, mas ainda respirava. Olhou para o mundo com a desconfiança de quem fora castigado por desejar e disse: — Ainda quero. Foi então que esse alguém compreendeu que a parte mais terrível da obediência não era fazer aquilo que os outros mandavam. Era esquecer, pouco a pouco, aquilo que teria feito se ninguém tivesse mandado coisa alguma. E talvez fosse essa a verdadeira pena: não morrer. Chegar vivo demais ao fim e descobrir que uma parte de si passou a vida inteira esperando permissão para existir.

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