A criatura escondida no peito - I
. Nasceram para servir, disseram-lhes, e durante muitos anos ninguém perguntou a quem. Serviram ao pai, à mãe, ao pão, à pátria, ao medo, às contas, às fotografias. Serviram até aos mortos, que continuavam exigindo dos vivos uma fidelidade que não haviam solicitado enquanto respiravam. Quando eram crianças, disseram-lhes que crescer era aprender a obedecer. Só muito mais tarde descobriram que havia uma pequena criatura dentro deles que não obedecia a ninguém. Ela permanecia escondida atrás do coração, encolhida como um animal que aprendera a não fazer barulho para não ser expulso de casa. Às vezes acordava durante a noite e perguntava, sem esperança: — E quando é que vamos viver? Mas ninguém respondia. Porque ao raiar do dia todos estavam ocupados demais vivendo para alguma coisa. Há quem servisse ao dinheiro, há quem servisse ao amor, embora ninguém soubesse dizer quando o serviço terminava e quando começava a solidão. Havia os que serviam aos filhos até esquecerem que também tinham sido crianças. Os que serviam a Deus com tanta devoção que já não lhes sobrava tempo para perguntar se Deus precisava daquele sacrifício. A humanidade inventara milhares de nomes para não chamar as coisas pelo são. Deu outro nome ao medo, à renúncia, à exaustão. Chamou destino àquilo que simplesmente acontecera muitas vezes. E assim os anos foram passando. Ninguém parecia ter sido condenado por juiz algum, mas todos cumpriam uma pena sem perguntar o porquê.
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