Anosos males me detêm cativa,
E a maré rara traz boas venturas;
O fosco lume de manhãs escuras,
Extende a minha fútil narrativa...
Os ares densos tecem risos breves,
Mas rechaçam os atrasos do enfado;
No reino azul, pudera eu ter entrado...
Eu não teria mesmo mágoas leves.
Os prantos vertem pela fina fresta...
Deles, não posso sequer servir-me,
E prevejo: nestes, morrerei afogada.
Findas são as dores, o inverno resta:
Anjo soturno surgido: eu devo ir-me,
E depois possa versar descansada.
Karen Salazar ☆ (Soneto II)
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Renuis um franco anseio rascante
De pronto, uma inquietude impera
Nublas as cercanias, em ira sincera
Nunca a mim te anuis feito amante
Dantes, um coração lasso e inerme
mantiveste, errando sempre cativo
Mas já negaste teu pendor emotivo
Nunca logro em teu apreço ater-me
Minh'alma enfermiça enamorou-se
dos vales áridos que orlam teu sentir
Mal os avistava, e cedo prostrou-se
Disseste-me: ímpio é como tu amas
E tuas vis malícias finam sem surtir,
como é o teu torvo amor em chamas
Karen Salazar ☆
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Estiolas-te, nefando nos quintos
Tu, flainando, rente aos plangentes
De vestes cinéreas, vês os famintos
E dás pancárpias às pravas nubentes
Retraído e pávido, em infinda lazeira
Iracundo e fátuo, por cá caminhavas
Lançando escritos das moças à lareira
E rias tu, outrora, mentres lanhavas
Tu, ficas, assim, na mácula, eternado
E uma escureza cinge a tua parvidade
Inda que disponte o Sol, tu não o verás
Nesse vasto confim, foste encarcerado
Para meramente venerar a vacuidade
Tão-só do mediocre e do mal te nutrirás
Karen ☆
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Falsas avenças à volta me puem
E a malacia no rossio me enerva
E inda que meus rios não sequem
Hei de fiar-me no que preserva
Karen Salazar ☆ (Quadra I)
Este romeiro mui falto de esmero
Memora uma eviterna trova escrita
Repara no amor temporal insincero
Esparso à aragem, numa rua estreita
Ele, mirando-me preterida nas ruelas
Racontou-me, breve: lia-te no perene
Tu excisarás as tuas atrozes mazelas
E, quiçá, após, o teu lamento serene
Mas a vida, deveras, sembra tão rasa
Mesmo os perfeitos céus parecem ruir
E meu íntimo está a queimar em brasa
E tu bem podes o choro me extorquir
Karen ☆
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Esta erma beira-mar, nomeei-a minha
Fico eu a fitar o marulho pela ventana
E a frieza raia, e tanto a alma me dana
Meu riso some: a noite, pois, já vinha
Entorno a ginjinha, na miséria noturnal
E uma estranha atimia retira-me a paz
Esperto-me e rezo, a fé muito me apraz
Sucumbe, portanto, o espírito abismal
Mesmo a penúria cessando à alvorada
À fímbria do outeiro habita a morte
Deus, continuai a apartá-la de mim
Teima em penar, minha pobre morada
E o marasmo me espia do extremo norte
Meu Deus, que possas isentar-me do fim
Karen ☆
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Me apraz partilhar convosco
Meu sentido e pobre coração
E meu carinho em prostração
Não tanto brilha, pois é fosco
Meu amor por ti, fosforescente
Mas cessa, e queda-se à míngua
Mas ficasse a sensação exígua...
Teu amor por mim é decadente
Conduzias tu as carícias em mim
Em razão disto, cá venho compor...
Para nunca acatar e preferir o fim
Os novos amores vêm se sobrepor
Preenchendo-me de ficções, enfim
Levando-me até os mares de dor
Karen ☆
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Narro um mero amor, e me contento
Mas todos os sentimentos se amarelam
Excelsa faísca que minhas paixões selam
Morosa é, e finda-se em puro lamento
Mui bendita me quedo, o Sol é risonho
Rente me é o céu, também assim é o mar
Mesmo céu que o meu amor vai dizimar
Mesmo mar que enxergo em meu sonho
Belos campos em que as rosas florescem
Da cor das paixões pretéritas: eu as deixei
Rezo a Deus, o Senhor, e os anjos descem
É que as paixões, por completo, enfaixei
E, mesmo assim, todas elas remanescem
O quê farei, Senhor, com as que fixei?
Karen ☆
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Em verdade, a tristura um dia se tornou firme em mim, frequentando os arredores de minha mente.
Nos tempos que correm, o desconsolo permanece contornando meu ser, fazendo nascer certo rio.
Mirai se o que de cá vos escrevo é de vosso agrado, pois este rio que desce pelo meu rosto é perfeito, e, cedo ou tarde, encontrará o mar
Karen ☆
Tua venusta luz cresta-me a vista
E me vêm as lembranças póstumas
Pois caiamos em névoas e brumas
Nesta breve aventura empirista
Me deixo levar, um riso maquiado
E falta-me tanta luz para ver além
Tanto quanto meus sonhos valem
É o custo do presente enunciado
Me é fascinante a incrível pureza
De uma mente mansa e insensata
É a consciência meninil que desata
Os elos criados pela triste nobreza
Karen ☆
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