O canto adágio do extenso vento lateja à gorja,
No espírito cru da noite, desvela-se da pele
A crispada macilenta. Então, do arvoredo notívago,
Uma valsa bêbada das árvores chilreia em refluxo.
Mas quem sou eu ante a valsa bêbada das árvores,
Senão uma crisálida evanescente?
Enrolei o peito nos galhos, enroscando minh'alma
— Trôpega que tirita do sopro glacial da crua noite.
Pelo fulvo da manhã hei de romper, enfim,
Como um casulo que jamais alçou o voejo.
Meu hálito letárgico, que deflora do pulmão,
Semeia nos pés da crua noite.
Amanhece aos poucos, do ouro escuro,
O sol, que desacorda de seu leito como ladrão.
O albor guerreia contra o cobalto soturno,
Até enfim tingir os céus d'um degradê.
O bafo da caligem entrelaça o pescoço,
Como se fosse tal uma agulha ululante.
O luar lutuoso se desfaz como uma mão
De barganha. Estrangula a consciência
Desbotando-me do peso.
E, de súbito,
a lacrimosa crua noite
Asfixia-me o espectro.
— Lara Rebeca Andrade.
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O fumo colérico das nuvens toma posse
Dos céus inquietos e faz oxidar chuva,
E após o primeiro badalar da fulgura,
Desponta cegamente o orvalho precoce
Aquém, momento algum se escapole.
O tempo como uma amargosa viúva
Que então, friamente a terra oscula,
Notando aquele limbo, seu cinzeo foge
Lara Rebeca A.
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O cintilar carecido da vela
Como os cegos olhos da noite
Embala com suaves açoites
A dúbia mudez paralela
O cambalear prata da lua
Derriba sobre o beco
Como o escasso bêbado
Enferrujado pela rua.
Vagarosamente
Luto do sol.
Lara Rebeca A.
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Yonder repose the waltz eventide
Whither footfalls shrivelled one day,
Whither paramours disjoined away
And the kismet forevermore collided
The old musk mellifluous of thy
neck brimming kisses, stand
Scurrying shrouded on the woodland
And my craving remain hither to die
The grove longs for my muse
Since the pasturage viridescent
Began to leaden gray descends
Therefore the orchard felt bruised
Lara Rebeca A.
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Hei de tolher a corola instante a luz abatida
E despontar do ventre da terra a semente,
Como quem morre no materno ventre,
E nasce da estreita, soturna e mortífera vida.
O ribeiro que trespassa cabisbaixo sua ida,
Breve perde-se pela dourada nascente,
Que, com os olhos cegos, falece silente.
Portanto, outra vez o ribeiro se fartará de vida.
Vaga-lumes em eclipse, outros pósteros brasentes.
Um pássaro abre soada, outro finda sua cantiga.
O fio de ouro da gramínea cai na terra abatida.
Portanto, outra vez renascerá o sol candente.
Lara Rebeca Andrade
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Antevejo camélias e limo resguardando um esqueleto
Abatido, mas manso. Seu lábio amargoso em escultura
E suas mãos repousadas em seiva de carmim pelo peito,
Manifestam em pesar e apego, sua decorrida candura.
A beirada da cova, neblina fúnebre da sepultura.
Um espírito falto à carcaça e distante de seu leito,
Parece fugazmente velar meus olhos em despeito.
Tal como quem carece da vida e de sua brandura.
É espelho desbotado da minha alma em desaproveito,
Como galhos turvos ao vento na perdurável secura.
E então, um distante cantar de sinos se apura,
E antes que eu possa piscar, acordo-me no esqueleto.
Lara Rebeca Andrade
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Uma rainha de barganhas escuta do pavio do trovão: serás vil até morrer?
A rainha, desamparada em suas próprias palavras e banhada em cédulas de sua própria imagem, responde: não morrerei eu, vil, nem audaz. Mas há de permanecer minha desonra pela vida.
Como se estivessem teias pendidas em seu peito, a rainha, tomada pela angústia, vomita um fluxo de névoa.
– Ai de você, pobre miserável. Perduram-se anos num deleite de espinhos. O que buscas senão a própria trégua? O que é seu poder imparável senão seu próprio cativeiro, tecido de panos de algodão? — Acentuou o trovão, que agora se faz mais plácido que antes.
— Ah, compreendo, compreendo. Ai de mim, barganhei entre muitos, o meu reflexo de genuinidade. Mas oh, paguei desde os primórdios pelo meu desamor. — Lamenta a rainha, que faz um lago com suas lágrimas de sangue.
— Pare, pare de encobrir-te em finos lençóis, em campos de altas relvas para poder se perder ou deitar-te num solo ligeiramente morno, para não sentir falta d’uma manta — disse o trovão — Uma armadilha sutil, deves concordar. — Continua —
— O céu de ímpeto está a ir com a chuva, e tu também. — Disse a rainha, que ansiava o trovão vedar a voz tão verídica a seu juízo.
O trovão dissipa aos poucos pelo céu fundo que se tornava límpido. E então, antes do silêncio de constrangimento que futuramente cobriria o ar, o trovão deixou suas póstumas palavras.
— Não se engane, rainha. Jamais irei, pois vim do âmago da tua alma. —
Lara Rebeca Andrade
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O licor que afaga teus lábios provém do teu peito!
Nem álcool, ou sequer as raízes perfumadas.
Todavia, o saudoso amargor do teu deleito,
Que porventura, não purifica o teu miasma.
Entre a vigília noturna da lua
E o espírito gangreno e vago,
A alma — cortejou o mísero trago.
Portanto, caiu-te na decadência nua.
Lara Rebeca Andrade
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Divaga apressado o anuviamento cinéreo
Cobrindo o céu cândido com safira.
E as aves num canto manso
Que num revoar lento se escapa.
Pousam folhas como a quietude serena
De quem percebe os galhos nus das árvores,
E o brando sussurro do vento que os perpassa,
Deslaçando seu fôlego de alento nos contornos.
L.R
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Oh! és o sol velejando ao mar frio!
— O crepúsculo soslaio é tua alma,
Tal como quem carrega o fardo do vazio
E descansa enfim num deleite de calma.
L.R.