Conto: A Rainha de Barganhas
Uma rainha de barganhas escuta do pavio do trovão: serás vil até morrer? A rainha, desamparada em suas próprias palavras e banhada em cédulas de sua própria imagem, responde: não morrerei eu, vil, nem audaz. Mas há de permanecer minha desonra pela vida. Como se estivessem teias pendidas em seu peito, a rainha, tomada pela angústia, vomita um fluxo de névoa. – Ai de você, pobre miserável. Perduram-se anos num deleite de espinhos. O que buscas senão a própria trégua? O que é seu poder imparável senão seu próprio cativeiro, tecido de panos de algodão? — Acentuou o trovão, que agora se faz mais plácido que antes. — Ah, compreendo, compreendo. Ai de mim, barganhei entre muitos, o meu reflexo de genuinidade. Mas oh, paguei desde os primórdios pelo meu desamor. — Lamenta a rainha, que faz um lago com suas lágrimas de sangue. — Pare, pare de encobrir-te em finos lençóis, em campos de altas relvas para poder se perder ou deitar-te num solo ligeiramente morno, para não sentir falta d’uma manta — disse o trovão — Uma armadilha sutil, deves concordar. — Continua — — O céu de ímpeto está a ir com a chuva, e tu também. — Disse a rainha, que ansiava o trovão vedar a voz tão verídica a seu juízo. O trovão dissipa aos poucos pelo céu fundo que se tornava límpido. E então, antes do silêncio de constrangimento que futuramente cobriria o ar, o trovão deixou suas póstumas palavras. — Não se engane, rainha. Jamais irei, pois vim do âmago da tua alma. — Lara Rebeca Andrade
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