Não se escreva isto por folgança,
nem por desenfado vão;
não é cousa de forno ou mesa,
mas de peito e inclinação.
Não leva açúcar contado,
nem farinha por porção;
leva verdade dita inteira
e querer sem dissimulação.
Tome-se o tempo por mestre,
que a pressura tudo desfaz;
não se meta em fogo vivo
o que em calma cresce em paz.
Misturem-se olhar e palavra,
sem juramento nem prisão;
quem promete antes do dia
perde o peso da tenção.
Se crescer, seja guardada;
se minguar, não haja dor.
Boa receita é a que se faz
com a alma e não com temor.
E se ao partir-se o intento
vier silêncio e calor,
saber-se-á, sem mais escritos,
que ali houve verdadeiro sabor.
Continuar lendo
Vivemos conectados
e absurdamente sós.
Cheios de opções,
vazios de coragem.
Com medo de sentir demais
num mundo que sente de menos.
Mas ainda tem pulso.
Ainda tem quem prefira o risco
à indiferença.
Quem escreva devagar
num tempo apressado.
Quem fique
quando o normal é ir.
Continuar lendo
Ele me fitava em silêncio,
qual sentinela à porta de um segredo.
Seus olhos pousavam sobre mim
com ternura que não ousava nome.
E eu sentia.
Sentia cada segundo como sol na pele,
sentia-lhe o olhar como brisa mansa
a tocar-me a face
como chama discreta.
Mas fingia não ver.
Desviava o semblante,
compunha os cabelos,
ocupava as mãos com ninharias,
tudo pra não sustentar
a verdade que nos espreitava.
Se por um só instante
lhe firmasse os olhos,
temia que meu coração — aflito,
se denunciasse.
E assim ficávamos:
ele, a contemplar-me como quem suplica;
eu, a fugir como quem teme.
Continuar lendo
Disse que não pensei em você hoje.
Mentira.
Seu nome passou na minha mente com a delicadeza de quem já sabe o caminho.
Falei que seu sorriso não me afetava.
Mentira.
Ele bagunça meu ar, meu tempo e até o ritmo do meu peito.
Jurei que não sinto saudade.
Mentira.
Só o seu abraço encaixa certo nesse vazio que ninguém vê.
Prometi que tanto faz se você fica ou vai.
Mentira.
Meu mundo muda de cor quando você chega perto.
E então, cansada das desculpas,
das fugas, do medo e do orgulho,
deixei a verdade escorrer inteira:
Eu te amo.
E é a única coisa que nunca tive coragem de negar.
Continuar lendo
Minha alma tem lembranças,
Que o tempo não levou.
Nos campos onde fui criança,
O sonho primeiro ficou.
Lá, o céu tinha um azul inteiro,
E o sol nascia sem pressa.
Aqui, o horizonte é cinza,
E o peito, cheio de pressas.
Oh pátria minha, és brisa e abrigo,
Mesmo distante, teu nome me chama,
E carrego comigo, o verde, o canto,
o lar amigo.
Não há mais palmeiras altas,
Nem canto de sabiá,
Só vozes que o vento espalha,
E um silêncio a me acompanhar.
Minha terra é só memória,
Um retrato que se apagou.
O mundo gira, a vida passa,
E o canto do sabiá... não voltou.
Oh, vida, em ti me exilo,
Procurando o que não há —
Um pouco de paz antiga,
E o eco do meu sabiá.
E se um dia eu me calar,
E o vento soprar devagar,
Que ele leve o meu lamento,
Pra terra onde canta o meu sabiá.
Continuar lendo
Prefiro partir do que tentar,
porque toda tentativa em mim sangra.
Prometo recomeços que não sustento,
carrego culpas que não cabem nas mãos.
Me perco nos labirintos que invento,
me prendo nas lembranças que não morrem,
e quando o silêncio vem,
ele me cobra o amor que deixei sem resposta.
Fico olhando o que restou de nós
como quem observa um incêndio tardio —
as cinzas ainda quentes,
mas sem chama suficiente pra voltar.
E mesmo assim, eu volto por dentro,
revivo o que tentei esquecer,
até entender que partir
foi o único jeito de ficar inteira.
Sabemos que quem parte não esquece,
só aprende a suportar
a ausência de quem tanto ama.
Continuar lendo
Tenho chorado todas as noites,
como quem tenta lavar a alma
e só espalha mais sujeira por dentro.
Minhas lágrimas dançam sob minha pele,
queima o sal, o silêncio,
e o lençol se torna cúmplice
do que escondo quando o dia nasce.
Tento parar,
respiro fundo, invento calma,
mas o peito insiste em sangrar lembranças.
Machuca,
machuca ser o próprio peso,
machuca falhar em existir,
ser fraca demais pra sustentar
a vida que carrego nas mãos trêmulas.
E no fim,
me afogo em mim mesma,
sem saber se ainda vivo
ou apenas insisto.
Continuar lendo
Disse que não pensei em você hoje.
Mentira.
Seu nome passou na minha mente com a delicadeza de quem já sabe o caminho.
Falei que seu sorriso não me afetava.
Mentira.
Ele bagunça meu ar, meu tempo e até o ritmo do meu peito.
Jurei que não sinto saudade.
Mentira.
Só o seu abraço encaixa certo nesse vazio que ninguém vê.
Prometi que tanto faz se você fica ou vai.
Mentira.
Meu mundo muda de cor quando você chega perto.
E então, cansada das desculpas,
das fugas, do medo e do orgulho,
deixei a verdade escorrer inteira:
Eu te amo.
E é a única coisa que nunca tive coragem de negar.
Continuar lendo
Como você ousa
jogar esse resto de sentimento
na minha porta,
como se eu fosse aceitar migalhas
e chamar de amor?
Passei anos esperando um príncipe,
e o universo, cansado,
me manda você,
a piada mal contada
do meu destino.
Sou grande demais
pra caber no seu mundo pequeno,
sou luz demais
pra morrer na sua sombra.
Você não soma,
não muda,
não marca.
VOCÊ ATRASA!
Por que eu te daria minha paz?
Pra você destruir também?
Nem pensar.
Não espere retorno:
eu não retribuo lixo,
não coleciono fracassos,
não guardo gente
que pesa mais do que vale.
Meu coração não se vende
pra quem nunca soube amar.
Crueldade?
A verdadeira crueldade
é perceber que você achou
que eu aceitaria tão pouco.
Continuar lendo
Hoje, o dia amanheceu sem pedir licença.
O relógio correu mais rápido que meus sonhos,
e o café tentou, em vão, me dar esperança.
O mundo seguiu no automático,
mas meu coração continua no modo lento.
Carregando silêncios, planos tortos
e uma vontade tímida de recomeço por dentro.
Segunda-feira tem esse dom estranho:
ela não pergunta se a gente está pronto,
apenas chega,
com sua agenda cheia
e sua pressa desajeitada.
Teve vontade de sumir por cinco minutos,
ou talvez de ficar para sempre.
Teve coragem disfarçada de rotina
e força vestida de normalidade.
Algumas palavras ficaram presas na garganta,
outros sentimentos aprenderam a cochichar.
Nem tudo doeu,
mas nada passou ileso.
Continuar lendo