RosaNegra @black_rose

Desconcerto

Não sei viver senão por intermédio de mim mesma, e, no entanto, sou a coisa de mim mais distante. Assisto ao que faço, como se fosse uma vida que, por acaso, lhe coube. Levanto-me. Visto-me. Saio. Há uma sequência lógica nas coisas, e eu cumpro-a com a precisão de quem não participa. Digo meu nome e ele me responde. É um nome que me pertence por hábito, como pertencem ao corpo os gestos que já não precisam de vontade. Há qualquer coisa de profundamente absurdo em ser tão intimamente eu e sentir-me, ao mesmo tempo, uma desconhecida que me acompanha. O mundo continua sendo excessivamente real; as vozes, os rostos, a tarde, o rumor indiferente das coisas acontecendo. Talvez seja essa a crueldade, nada desapareceu. Fui eu que me tornei ausente. E não há acontecimento que explique. Não houve porta batida, nem grande catástrofe, nem instante digno de memória. Apenas acordei um dia e percebi que a vida tinha continuado sem esperar que eu estivesse pronta para vivê-la. Desde então, participo. É isso o mais estranho. Participo das conversas, dos afetos, dos compromissos, das pequenas urgências que fazem os dias parecerem necessários. Respondo quando me chamam. Sorrio quando é preciso. Até finjo desejar algumas coisas. Mas existe em tudo uma transparência incômoda, como se eu pudesse ver através do instante e, vendo-o, deixasse de habitá-lo. E então compreendo, sem consolo algum, que talvez eu não esteja procurando sentido. Talvez esteja apenas procurando aquela mulher que um dia viveu sem questionar, a cada gesto, quem era a pessoa que o realizava. Se ela ainda existe, não sei onde procurá-la. E talvez seja essa a minha mais estranha solidão: não estar só no mundo, mas estar comigo e não conseguir chegar até mim.

Comentários · 4

  1. Beatriz

    entrelinhas entranhas do eu que talvez nunca compreenderei completamente

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    1. RosaNegra

      Obrigada pelas palavras, poetisa!

  2. ỌHAR

    bem profundo, parece ter uma crise de identidade constante nesse poema, como se ao redor as energias afetassem a sua própria essência , bem escrito 👌👏

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    1. RosaNegra

      Poeta, agradeço sua gentileza. Realmente, a crise de identidade, ou da falta dela é o núcleo central do poema. ☺️

  3. Nilza Poetisa

    Uma filosofia perfeita da vida Rosa. Sermos exatamente o que desejaríamos. Mas é difícil voltar e procurar o eu presente em cada um. A vida nos leva a isso. Adorei a poesia intimista. Pois nos força a pensar: Estou sendo eu verdadeira? Boa tarde amiga

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    1. RosaNegra

      Obrigada minha querida amiga! Uma ótima noite para você.

  4. Ella

    Quero comprar seus livros, minha querida. Apoio demais. 👏🌷

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    1. RosaNegra

      Aí amiga, nunca acho bom o que escrevo. Superar isso vai levar um tempo. Obrigada pelo carinho de sempre!