Quando todos se forem,
e a noite me encontrar,
quem há de ouvir meu pranto
se já não posso te chamar?
Há tanta saudade em mim,
e nenhum caminho até você.
Que destino cruel é este?
Ter tanto a dizer
a quem já não pode responder.
E amanhã, quando o sol nascer,
o mundo seguirá como se nada houvesse.
Mas eu, que te perdi,
como hei de ser a mesma
se uma parte minha morreu contigo?
E assim acontece o luto,
continuo a existir,
mesmo quando tudo o que amo
já não está aqui.
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Deste feixe de luz do sol
que atravessa as folhas,
à brisa leve que as move
sem lhes pedir licença,
os pássaros cantam
e eu paro para ouvi-los.
Pergunto-me, às vezes,
por que buscamos tanto
aquilo que já passou por nós?
O dia nasce
e depois deixa de ser dia.
A flor abre-se pela manhã
sem saber quanto durará.
E eu, que sei que vou morrer,
passo tanto tempo perguntando
como devo viver.
Possivelmente não existam respostas.
Talvez seja apenas a vida acontecendo,
o vento tocando as árvores,
um pássaro cantando ao longe,
e eu aqui,
sem compreender o mundo,
mas sentindo, por um instante,
que não preciso compreendê-lo.
Então deixo a tarde acontecer.
E em meu coração,
sem que eu a procure,
a paz se abriga.
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Quisera eu ter a delicadeza como adjetivo.
Mas sou o avesso disso,
sou intensidade.
Sou mar profundo,
revolto,
escuro.
Habito os extremos.
Amo a ponto de me lançar ao abismo,
morro em cada entrega.
Choro até transbordar,
me afogo em cada lágrima.
Exaurida,
me desfaço no próprio excesso.
Ah, se eu pudesse ter a delicadeza como predicado…
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Se um dia o mundo me negar abrigo,
e o amor se fizer cinza em minha mão,
ainda hei de guardar-te, meu castigo,
mesmo se tu fores minha própria perdição.
Não te amo pela paz que me ofereces,
nem pela doce promessa de ficar;
amo-te pelas dores que conheces,
por tudo o que em mim fizeste despertar.
Há qualquer coisa em ti, tão desmedida,
que me despoja a alma e a faz querer
a breve eternidade desta vida,
se for contigo o pouco que houver.
E se eu tiver de errar por toda a estrada,
que seja o teu amor meu desatino.
Prefiro a minha alma condenada
a nunca ter-te atado ao meu destino.
Porque, entre tantos rostos passageiros,
se o mundo inteiro em mim deixar de existir,
hei de reconhecer-te entre os derradeiros
como a última verdade a que escolhi.
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Deus,
se é que ainda Te serve esse nome,
venho perguntar-Te uma coisa pequena.
Por que fizeste a mim, tão íntima do abismo e tão incapaz de desejar a luz?
Eu tenho o corpo.
Tenho a boca.
Tenho esse estranho animal dentro do peito a repetir, noite após noite,
que ainda existe qualquer coisa.
Mas o que é?
Não me respondas com eternidade.
A eternidade é uma palavra excessiva
para quem mal consegue suportar
a duração de uma tarde.
Dize-me apenas,
por que o coração continua
quando o desejo se ausenta?!
Porque eu já não sei desejar.
E não falo da grande paixão
que os homens inventam
para suportar o próprio vazio.
Falo de qualquer coisa.
Falo daquele breve incêndio
que fazia o mundo parecer digno
de ser tocado.
Onde puseste isso em mim?
Ou foste Tu quem o retirou?
Às vezes penso que há uma crueldade
na arquitetura da alma.
Fazem-nos capazes de compreender
a beleza e depois nos deixam sem mãos
para alcançá-la.
Assim caminho.
Não triste.
Ah, não!
A tristeza seria quase um privilégio.
A tristeza ainda se oferece inteira,
derrama-se,
faz-se lágrima,
faz-se grito,
faz-se poema.
Eu tenho outra coisa.
Uma espécie de deserto,
onde até a sede perdeu o nome.
E quando alguém me pergunta
“estás bem?”,
como explicar que não?
Como dizer,
não estou ferida;
é pior…
não encontro em mim
o lugar exato onde a vida deveria doer ou a alegria existir…
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Há um perigo doce quando você se aproxima,
um calor que começa antes do toque,
quando seus olhos demoram nos meus
e o meu corpo entende aquilo o que a boca não diz.
Gosto desse instante entre nós,
quando a distância parece uma provocação,
quando sua mão quase encontra a minha
e eu já sinto meu coração perder o compasso.
Você tem esse jeito de me olhar
como se soubesse exatamente onde me desarmar.
E eu, que tantas vezes fui cautelosa,
me descubro querendo ficar.
Quero sua voz perto do meu ouvido,
seu perfume preso na minha pele,
a sua presença ocupando devagar
cada espaço que antes era só meu.
E quando você me toca,
mesmo que seja apenas por um segundo,
há um arrepio que atravessa meu corpo
como se o desejo tivesse aprendido meu nome.
Não preciso que você prometa o amanhã.
Gosto demais da verdade deste momento,
seus olhos nos meus,
minha respiração mudando,
e essa vontade quase impossível
de diminuir ainda mais o espaço entre nós.
Talvez seja isso que me prende,
com você, eu não quero fugir.
Quero sentir o frio na barriga,
o calor da proximidade,
a expectativa daquele beijo
que ambos fingimos não estar esperando.
E quando finalmente nossos lábios se encontram,
o mundo perde um pouco da importância.
Fico ali, entre seu abraço e meu suspiro,
descobrindo que há formas de intimidade
que começam muito antes da pele.
Porque você não apenas me faz desejá-lo,
faz despertar em mim uma mulher
que gosta de ser olhada assim,
tocada com cuidado,
desejada sem pressa.
E talvez seja por isso
que eu sempre queira mais um instante,
mais um olhar,
mais um beijo,
mais um pouco de nós dois
neste lugar onde o desejo
parece sempre saber o caminho.
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Não sei viver senão por intermédio de mim mesma,
e, no entanto, sou a coisa de mim mais distante.
Assisto ao que faço, como se fosse
uma vida que, por acaso, lhe coube.
Levanto-me.
Visto-me.
Saio.
Há uma sequência lógica nas coisas,
e eu cumpro-a com a precisão de quem não participa.
Digo meu nome e ele me responde.
É um nome que me pertence por hábito,
como pertencem ao corpo os gestos
que já não precisam de vontade.
Há qualquer coisa de profundamente absurdo
em ser tão intimamente eu
e sentir-me, ao mesmo tempo,
uma desconhecida que me acompanha.
O mundo continua sendo excessivamente real;
as vozes, os rostos, a tarde,
o rumor indiferente das coisas acontecendo.
Talvez seja essa a crueldade,
nada desapareceu.
Fui eu que me tornei ausente.
E não há acontecimento que explique.
Não houve porta batida,
nem grande catástrofe,
nem instante digno de memória.
Apenas acordei um dia
e percebi que a vida tinha continuado
sem esperar que eu estivesse pronta para vivê-la.
Desde então, participo.
É isso o mais estranho.
Participo das conversas,
dos afetos, dos compromissos,
das pequenas urgências que fazem os dias parecerem necessários.
Respondo quando me chamam.
Sorrio quando é preciso.
Até finjo desejar algumas coisas.
Mas existe em tudo uma transparência incômoda,
como se eu pudesse ver através do instante
e, vendo-o, deixasse de habitá-lo.
E então compreendo, sem consolo algum,
que talvez eu não esteja procurando sentido.
Talvez esteja apenas procurando
aquela mulher que um dia viveu
sem questionar, a cada gesto,
quem era a pessoa que o realizava.
Se ela ainda existe,
não sei onde procurá-la.
E talvez seja essa a minha mais estranha solidão:
não estar só no mundo,
mas estar comigo
e não conseguir chegar até mim.
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São duas da manhã.
Você fecha a porta
e as chaves caem no chão.
Quando se vira,
seu olhar encontra o meu
e aquele só seu sorriso
já diz o que nenhuma palavra diria.
Seu perfume ocupa o quarto
enquanto você se aproxima.
Não há pressa.
Apenas o espaço diminuindo
entre nós,
até que sua mão toca meu rosto
e permanece ali por um instante.
Eu seguro sua cintura.
Você inclina a cabeça,
e nossas testas se encostam.
Respiramos o mesmo ar
antes que seus lábios encontrem os meus.
O beijo começa leve,
mas logo carrega tudo
o que deixamos guardado.
Sua voz pronuncia meu nome
quase num sussurro,
e sinto o som atravessar meu corpo
como se soubesse exatamente
onde me encontrar.
Seu abraço se fecha ao meu redor.
Minhas mãos percorrem suas costas.
E aquilo que começou com um olhar
agora já não precisa de explicação.
O relógio continua avançando,
mas a noite parece suspensa.
Nada além de nós
importa naquele instante.
Há somente o calor do seu corpo,
a cadência da respiração,
a certeza de que, quando estamos assim,
o mundo perde a força
para nos alcançar.
Até que a madrugada clareia.
A primeira luz invade a janela
e anuncia o fim da noite.
Chega o momento de cada um sair para viver o que o cotidiano guarda.
Eu vou ficar...
com a lembrança do seu perfume
ainda preso a memória.
Mas sei que não será por muito tempo.
Porque quando a lua voltar ao céu,
quando a cidade silenciar novamente
você virá ao meu encontro,
E, quando você se virar,
eu estarei aqui.
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Saudade minha, hóspede cruel da alma,
Que em noite funda o coração devora,
Traz-me de novo o pranto que não cessa agora,
E o dócil sonho que já não me acalma
Recordo ainda o gesto, a voz, a palma
E o peito sufocado em seu próprio pulsar tenso, hora por hora,
Pois tudo o que era luz em mim outrora,
Hoje é penumbra onde o silêncio se espalha
E na dor me visto e me sustento,
Contemplo a vida em lânguido lamento,
Jogando ao vento palavras de amor que não se remata
Ah, se voltasse!
Meu ser inteiro arderia,
E esta tristeza permuta em súbita alegria,
Beijar-me-ia a boca a que só teu nome fala
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Há um abraço, meu bem,
que é mais morada do que gesto,
é quando a gente se encosta devagar
e o coração sossega no peito.
É abraço que ajunta os pedaços,
que costura as dores com a linha do tempo.
Que embala o cansaço da vida
num colo sem pressa e sem tempo.
Não precisa ser forte, nem longo
basta ser de verdade,
basta trazer esse jeito de casa
que só tem quem abraça com bondade.
É braço que aquece por dentro,
é palavra que nem se precisa dizer,
é caminho que, mesmo pequeno,
nos faz, por instantes, viver.
E eu, que sou feita de lutas e dores,
me deixo ficar…
porque há abraços que não apertam,
mas sabem, com calma, morar.
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