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RosaNegra

@black_rose · desde 2020

Escrevendo para silenciar a mente e aliviar o coração.

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Luto

Quando todos se forem, e a noite me encontrar, quem há de ouvir meu pranto se já não posso te chamar? Há tanta saudade em mim, e nenhum caminho até você. Que destino cruel é este? Ter tanto a dizer a quem já não pode responder. E amanhã, quando o sol nascer, o mundo seguirá como se nada houvesse. Mas eu, que te perdi, como hei de ser a mesma se uma parte minha morreu contigo? E assim acontece o luto, continuo a existir, mesmo quando tudo o que amo já não está aqui.

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Enquanto a tarde passa.

Deste feixe de luz do sol que atravessa as folhas, à brisa leve que as move sem lhes pedir licença, os pássaros cantam e eu paro para ouvi-los. Pergunto-me, às vezes, por que buscamos tanto aquilo que já passou por nós? O dia nasce e depois deixa de ser dia. A flor abre-se pela manhã sem saber quanto durará. E eu, que sei que vou morrer, passo tanto tempo perguntando como devo viver. Possivelmente não existam respostas. Talvez seja apenas a vida acontecendo, o vento tocando as árvores, um pássaro cantando ao longe, e eu aqui, sem compreender o mundo, mas sentindo, por um instante, que não preciso compreendê-lo. Então deixo a tarde acontecer. E em meu coração, sem que eu a procure, a paz se abriga.

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Intensa

Quisera eu ter a delicadeza como adjetivo. Mas sou o avesso disso, sou intensidade. Sou mar profundo, revolto, escuro. Habito os extremos. Amo a ponto de me lançar ao abismo, morro em cada entrega. Choro até transbordar, me afogo em cada lágrima. Exaurida, me desfaço no próprio excesso. Ah, se eu pudesse ter a delicadeza como predicado…

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Amor

A última verdade.

Se um dia o mundo me negar abrigo, e o amor se fizer cinza em minha mão, ainda hei de guardar-te, meu castigo, mesmo se tu fores minha própria perdição. Não te amo pela paz que me ofereces, nem pela doce promessa de ficar; amo-te pelas dores que conheces, por tudo o que em mim fizeste despertar. Há qualquer coisa em ti, tão desmedida, que me despoja a alma e a faz querer a breve eternidade desta vida, se for contigo o pouco que houver. E se eu tiver de errar por toda a estrada, que seja o teu amor meu desatino. Prefiro a minha alma condenada a nunca ter-te atado ao meu destino. Porque, entre tantos rostos passageiros, se o mundo inteiro em mim deixar de existir, hei de reconhecer-te entre os derradeiros como a última verdade a que escolhi.

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O sentir que não me visita

Deus, se é que ainda Te serve esse nome, venho perguntar-Te uma coisa pequena. Por que fizeste a mim, tão íntima do abismo e tão incapaz de desejar a luz? Eu tenho o corpo. Tenho a boca. Tenho esse estranho animal dentro do peito a repetir, noite após noite, que ainda existe qualquer coisa. Mas o que é? Não me respondas com eternidade. A eternidade é uma palavra excessiva para quem mal consegue suportar a duração de uma tarde. Dize-me apenas, por que o coração continua quando o desejo se ausenta?! Porque eu já não sei desejar. E não falo da grande paixão que os homens inventam para suportar o próprio vazio. Falo de qualquer coisa. Falo daquele breve incêndio que fazia o mundo parecer digno de ser tocado. Onde puseste isso em mim? Ou foste Tu quem o retirou? Às vezes penso que há uma crueldade na arquitetura da alma. Fazem-nos capazes de compreender a beleza e depois nos deixam sem mãos para alcançá-la. Assim caminho. Não triste. Ah, não! A tristeza seria quase um privilégio. A tristeza ainda se oferece inteira, derrama-se, faz-se lágrima, faz-se grito, faz-se poema. Eu tenho outra coisa. Uma espécie de deserto, onde até a sede perdeu o nome. E quando alguém me pergunta “estás bem?”, como explicar que não? Como dizer, não estou ferida; é pior… não encontro em mim o lugar exato onde a vida deveria doer ou a alegria existir…

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Fascínio

Há um perigo doce quando você se aproxima, um calor que começa antes do toque, quando seus olhos demoram nos meus e o meu corpo entende aquilo o que a boca não diz. Gosto desse instante entre nós, quando a distância parece uma provocação, quando sua mão quase encontra a minha e eu já sinto meu coração perder o compasso. Você tem esse jeito de me olhar como se soubesse exatamente onde me desarmar. E eu, que tantas vezes fui cautelosa, me descubro querendo ficar. Quero sua voz perto do meu ouvido, seu perfume preso na minha pele, a sua presença ocupando devagar cada espaço que antes era só meu. E quando você me toca, mesmo que seja apenas por um segundo, há um arrepio que atravessa meu corpo como se o desejo tivesse aprendido meu nome. Não preciso que você prometa o amanhã. Gosto demais da verdade deste momento, seus olhos nos meus, minha respiração mudando, e essa vontade quase impossível de diminuir ainda mais o espaço entre nós. Talvez seja isso que me prende, com você, eu não quero fugir. Quero sentir o frio na barriga, o calor da proximidade, a expectativa daquele beijo que ambos fingimos não estar esperando. E quando finalmente nossos lábios se encontram, o mundo perde um pouco da importância. Fico ali, entre seu abraço e meu suspiro, descobrindo que há formas de intimidade que começam muito antes da pele. Porque você não apenas me faz desejá-lo, faz despertar em mim uma mulher que gosta de ser olhada assim, tocada com cuidado, desejada sem pressa. E talvez seja por isso que eu sempre queira mais um instante, mais um olhar, mais um beijo, mais um pouco de nós dois neste lugar onde o desejo parece sempre saber o caminho.

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Desconcerto

Não sei viver senão por intermédio de mim mesma, e, no entanto, sou a coisa de mim mais distante. Assisto ao que faço, como se fosse uma vida que, por acaso, lhe coube. Levanto-me. Visto-me. Saio. Há uma sequência lógica nas coisas, e eu cumpro-a com a precisão de quem não participa. Digo meu nome e ele me responde. É um nome que me pertence por hábito, como pertencem ao corpo os gestos que já não precisam de vontade. Há qualquer coisa de profundamente absurdo em ser tão intimamente eu e sentir-me, ao mesmo tempo, uma desconhecida que me acompanha. O mundo continua sendo excessivamente real; as vozes, os rostos, a tarde, o rumor indiferente das coisas acontecendo. Talvez seja essa a crueldade, nada desapareceu. Fui eu que me tornei ausente. E não há acontecimento que explique. Não houve porta batida, nem grande catástrofe, nem instante digno de memória. Apenas acordei um dia e percebi que a vida tinha continuado sem esperar que eu estivesse pronta para vivê-la. Desde então, participo. É isso o mais estranho. Participo das conversas, dos afetos, dos compromissos, das pequenas urgências que fazem os dias parecerem necessários. Respondo quando me chamam. Sorrio quando é preciso. Até finjo desejar algumas coisas. Mas existe em tudo uma transparência incômoda, como se eu pudesse ver através do instante e, vendo-o, deixasse de habitá-lo. E então compreendo, sem consolo algum, que talvez eu não esteja procurando sentido. Talvez esteja apenas procurando aquela mulher que um dia viveu sem questionar, a cada gesto, quem era a pessoa que o realizava. Se ela ainda existe, não sei onde procurá-la. E talvez seja essa a minha mais estranha solidão: não estar só no mundo, mas estar comigo e não conseguir chegar até mim.

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Amor

O que a noite guarda

São duas da manhã. Você fecha a porta e as chaves caem no chão. Quando se vira, seu olhar encontra o meu e aquele só seu sorriso já diz o que nenhuma palavra diria. Seu perfume ocupa o quarto enquanto você se aproxima. Não há pressa. Apenas o espaço diminuindo entre nós, até que sua mão toca meu rosto e permanece ali por um instante. Eu seguro sua cintura. Você inclina a cabeça, e nossas testas se encostam. Respiramos o mesmo ar antes que seus lábios encontrem os meus. O beijo começa leve, mas logo carrega tudo o que deixamos guardado. Sua voz pronuncia meu nome quase num sussurro, e sinto o som atravessar meu corpo como se soubesse exatamente onde me encontrar. Seu abraço se fecha ao meu redor. Minhas mãos percorrem suas costas. E aquilo que começou com um olhar agora já não precisa de explicação. O relógio continua avançando, mas a noite parece suspensa. Nada além de nós importa naquele instante. Há somente o calor do seu corpo, a cadência da respiração, a certeza de que, quando estamos assim, o mundo perde a força para nos alcançar. Até que a madrugada clareia. A primeira luz invade a janela e anuncia o fim da noite. Chega o momento de cada um sair para viver o que o cotidiano guarda. Eu vou ficar... com a lembrança do seu perfume ainda preso a memória. Mas sei que não será por muito tempo. Porque quando a lua voltar ao céu, quando a cidade silenciar novamente você virá ao meu encontro, E, quando você se virar, eu estarei aqui.

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Saudade Insone

Saudade minha, hóspede cruel da alma, Que em noite funda o coração devora, Traz-me de novo o pranto que não cessa agora, E o dócil sonho que já não me acalma Recordo ainda o gesto, a voz, a palma E o peito sufocado em seu próprio pulsar tenso, hora por hora, Pois tudo o que era luz em mim outrora, Hoje é penumbra onde o silêncio se espalha E na dor me visto e me sustento, Contemplo a vida em lânguido lamento, Jogando ao vento palavras de amor que não se remata Ah, se voltasse! Meu ser inteiro arderia, E esta tristeza permuta em súbita alegria, Beijar-me-ia a boca a que só teu nome fala

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Abraço Casa

Há um abraço, meu bem, que é mais morada do que gesto, é quando a gente se encosta devagar e o coração sossega no peito. É abraço que ajunta os pedaços, que costura as dores com a linha do tempo. Que embala o cansaço da vida num colo sem pressa e sem tempo. Não precisa ser forte, nem longo basta ser de verdade, basta trazer esse jeito de casa que só tem quem abraça com bondade. É braço que aquece por dentro, é palavra que nem se precisa dizer, é caminho que, mesmo pequeno, nos faz, por instantes, viver. E eu, que sou feita de lutas e dores, me deixo ficar… porque há abraços que não apertam, mas sabem, com calma, morar.

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