Sabe, às vezes a gente fica deitado olhando para o céu. Ora a nuvem é dinossauro, ora passarinho. Mas, no meio dessa admiração, lembrei que tinha que ir à farmácia. Levantei. Acenei para o céu, como quem dá tchau para uma criança no portão.
No entanto, em todo o caminho até lá, a nuvem me acompanhou. Mesmo sem dizer uma palavra, eu sabia que ela estava ali. Às vezes, eu olhava para cima, só para ter certeza.
Quando entrei na farmácia, fui objetiva, como sempre. Fui direto nos sabonetes líquidos. Procurei a marca e a fragrância de que mais gosto, mas ela não estava ali. Perguntei à atendente:
— Oi, com licença, vocês não têm aquele de flor com romã?
Ela me respondeu com um sorriso gentil:
— Moça, faz umas semanas que a gente não recebe esse, mas talvez tu goste deste aqui. É a mesma marca, a mesma embalagem.
Sorri e agradeci. Peguei para testar. Cheguei em casa ansiosa. Era realmente muito cheiroso, tinha a mesma consistência, a mesma fixação. Contudo, ao longo dos dias, foi ficando enjoativo. Não era o meu cheiro, não era o que eu realmente queria. Não que fosse ruim, sem graça ou tão distante do outro, mas alguma coisa me incomodava. Na verdade, ainda incomoda, porque ele segue ali na minha prateleira.
Achei engraçado o fato de ser o mesmo recipiente, mas com um conteúdo tão diferente. E, no fim, aquele cheirinho de romã me dá certa saudade e nostalgia.
O que acho divertido e triste, ao mesmo tempo, é saber que, ainda que a moça da farmácia não saiba quando ele será reestocado, eu tenho a certeza de que uma hora, sem esperar, vou me deparar com ele de novo. Na mesma estante, na mesma farmácia, trazendo o mesmo conforto. E, independente do tempo, o meu sorriso vai ser o de sempre, como se encontrasse um tesouro no meio de tantos outros.
E a nuvem que me acompanhava? Não sei, não existe mais. Mas isso não significa que o céu perdeu a sua beleza. Os dias passam, a vida segue, mas eu não esqueço do passarinho que vi, naquele dia.
Beatriz Stolfo
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O cinzeiro saca o meu humor.
Sabe se eu fumo por euforia
ou se é o aperto da ansiedade.
Ele conhece a minha medida,
o tempo que eu levo pra enchê-lo.
Escuta tudo, ali na dele, sem um pio.
Não aponta o dedo, não me julga.
Só guarda meus sentimentos com um certo carinho físico,
até que eu o deixe de lado
e o limpe pra contar uma história nova.
É um amigo fiel, pro que der e vier.
Um cara caloroso que não ri e não chora,
mas sabe que eu conto com ele.
Dá uma sensação estranha de pertencimento.
Gosto de casa, de amor,
um sossego que ajuda no desapego.
Ele me acompanha pra qualquer canto,
não reclama de nada.
O que importa pra ele é a interação.
Que móvel sentimental...
E eu aqui, achando que as coisas não tinham coração.
Beatriz Stolfo
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Zum-Zum
Escuto esse zumbido alto,
Gritando rasgado, sem pausa,
E o estrago do teu assalto:
Esse móvel imóvel tombando na causa.
No labirinto onde eu quase cega
Achava a saída pra me livrar,
Vem tua curva e me desassossega,
Muda o rumo do meu lugar.
E não me arrependo do fundo do peito
De ter topado o risco e ficado,
Porque esse teu caos doido, do teu jeito,
Faz transbordar meu lado mais sagrado.
Triste fim
Se tu não quiseres saber de mim.
Mas tudo bem,
Eu percebi
Por fim,
Enfim:
Eu caibo perfeitamente bem
Dentro de mim.
Beatriz Stolfo
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— E se eu me apaixonar rápido demais? — perguntou a menina ao seus ares.
O Vento respondeu, calmo:
— Não existe amar demais. Existe apenas amar. O tempo do coração é o tempo certo. A vida só te leva por caminhos que você é capaz de percorrer.
Ele continuou:
— Apenas se permita. O amor é o que dá sentido à jornada. E não tema o tropeço: ninguém nunca morreu de coração partido
Beatriz Stolfo
Desculpa!
É que, as vezes eu pego fogo e incendeio tudo ao redor.
É difícil conter as chamas quando o querosene aparece.
Beatriz Stolfo
Gato
Prato
Rato
Mato
Meu chato
Meu tato
Me tatuo
E atuo
Te entorno
E retorno
Te sigo
Te espero
Te quero
Me quero
O vulto
O culto
O fluxo
O luxo
Te calço
Me descalço
Te enredo
Segredo
Teu drink
Nosso
Tin
Dois corpos
Uma alma
Sem fim
Beatriz Stolfo
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-O desprazer de se quebrar e a beleza amarga de ser "errada"-
A parte mais cruel de se quebrar alguma coisa é que,
geralmente todos os envolvidos se cortam.
Os que quebram,
os que foram quebrados
e
os que ajudam a limpar.
E é foda perceber que
o que foi quebrado,
não é a única coisa que se partiu.
Beatriz Stolfo
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Eu sinto falta
de amores passados,
de segundos de felicidade,
do pó que ficava na estante.
Eu sinto demais
o que deveria ser menos.
Meu coração encolhe,
e quando eu o espremo
— tipo uma laranja pra fazer suco —
as gotas que escorrem na vasilha amarela,
não são de dor:
são os mais belos sorrisos que já dei.
São o rastro da minha alma
que me marca,
que me mostra que a minha felicidade e esperança
são deveras maiores que o abismo
desta casca que, muitas vezes oca, eu habito.
Como pode?
Com tais ingredientes:
água, limão, açúcar e gelo...
o resultado deveria ser uma limonada.
Mas algo falta.
E nessa ausência,
eu acabo servindo um copo de Sprite:
com gelo,
uma rodela de limão,
com um certo ar de refresco para o meu próprio paladar.
E com os olhos meio cerrados, incrédula,
fico olhando meu reflexo desfigurado no vidro do copo.
E talvez,
mas só talvez,
eu não seja tão amarga assim.
Beatriz Stolfo
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