peço perdão aos deuses por me deixar vencer assim, mas já não sinto mais nada além do gosto amargo da carne entre meus dentes. minha língua pesa na voz dos sonhos que desisti, meu peito se corta diante do sussurro exausto do meu rosto. luzes amarelas se acendem como velas, noites sombrias tomam meu sono e me crucificam em meu adormecer.
já não quero mais assistir ao nascer dos girassóis, quero apenas que nasça em mim a coragem de me afogar em taças alheias, de tragar a fumaça para os meus pulmões, mesmo que ela não seja minha. posso eu ser filho do amoníaco e do carbono, sendo que meu corpo se decompõe?
nas esquinas, me despedaço através das palavras que dito como maldições de uma velha bruxa. sorte dos que permanecem lúcidos diante do ensaio fúnebre das almas caminhando ao hades, sorte dos espíritos que não estão adoecidos com toda essa marcha metálica que acinzenta todos os pontos vitais da dor e nos traz um sorriso de chumbo diante do pequeno ato de se estar vivo.
não posso impetrar apenas um pedido de desculpas ao que deixei de ser. só peço que me mastiguem junto ao tutano do verbo que adorna tudo aquilo que fiz de bom neste fio de existência e que me devorem junto a uma taça de syrah, junto ao fogo que me queimará.
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primeiro comece pela infância, traga um pouco de maldade nos olhos adultos que cercaram seu os espectros, nos cantos escuros do quarto, dentro do armário pesado de madeira onde o medo mora.
Segundo, inicie nas conversas despretensiosas sobre a sociedade, desconsidere as instituições, igrejas, templos, odes, ideias de futuro, utopias, macule a ordem natural das coisas, dê velocidade aos corações, acelere os dias sem vida.
Terceiro, afete os olhos da menina, faça os estômagos diluírem cédulas verdes, que línguas engulam a matéria comprada, que os espíritos se tornem pobres, afundados na miséria, nos corpos onde as bocas se alimentam concreto e da fumaça que respiram.
Por fim, diminua o tempo, aumente o cansaço, devore o sentido das coisas, amasse os espíritos nos horários sem oxigênio, nos espaços apertados nas mesas dos bares escuros, permaneça nos últimos suspiros de uma garrafa de vinho e recolha as almas que sobrarem nas esquinas.
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em suma, a autoconsciência é a queda do ser: o indivíduo preso em sua própria mente, refém da própria carne, sequestrado nos labirintos das próprias veias. a fome devora o estômago no apogeu do dia; pelos olhos da arte de goya, bebemos uma fé mórbida, finita, vermelha, cheia de coisa nenhuma.
nossos corpos mexendo
em um sentido doce
lençóis brancos escondendo
a performance do sentimento
uma coreografia delicada
em direção ao nirvana
entre o abismo e a sorte
nossas almas estão suspensas
na névoa de um mesmo quarto
nossos dedos
dedilham o vazio
nossas conversas devoram
os ponteiros do relógio
em uma mesma cama
a minha carne converge em casa
para abrigar a tua voz
espero que as trevas
não durem a eternidade nos meus olhos
que, aos poucos,
eles se movam
para que minhas retinas possam fotografar
os trechos do teu espírito
na geografia do teu corpo
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apesar de tudo me mantenho firme
segurando a muralha do destino
revendo a eternidade transpassar os segundos
olhando os deuses no fundo de seus olhos
e não os temendo
apesar das manhãs serem embriagadas pelo oxigênio poluído da cidade
e a água ser doce na medida em que tudo é amargo
apesar de tudo eu me tenho por completo
cérebro, boca, nariz
e um puta coração que se mete nas piores situações
apesar de tudo
olho o espelho
as mãos de concreto que não se mexem
no fio do tempo que precisava passar mais devagar
pois quase choro por não conseguir voltar ao passado
que era tão doce
apesar de tudo
me mantenho firme
alado
com olhos na multidão contrária
tendo uma coroa e cicatrizes no meu rosto
que sangram com os espinhos.
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tem vezes que o alvo é incerto
e o pensamento voa com a brisa da noite
me traz uma vontade
como um amargo na boca depois do doce
me sinto tentado a escrever
a manchar o papel e alma com a tinta
sinto a pulsação que meu sangue faz em minhas veias
é cada vez mais forte e mais intensa na madrugada
eu sinto como se não tivesse um tema claro nos meus versos
tem vezes que me perco
e volto, quando me recolho em vírgulas e pontos finais
meu rosto se reluz
ainda me sinto vivo quando estou sentindo isso
acho que é por isso ainda continuo vivo para sentir isso
como se isso me quebrasse
ao mesmo tempo que me mantivesse em pé.
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"só sei que nada sei"
essa é máxima da vida
pelo menos da minha
a ilimitada ação de não saber
benção maldita de não comer o fruto proibido
sou um idiota e deveria ser tratado como tal
preso as correntes que prendem minha fé no futuro e ao mundo melhor
sexta-feira colorida cheia de luz e som
não espero não-saber das coisas já sei
coisas essas que deveria me esquecer
ou não?
pois, estarei errado?
deixar de sentir é uma das dádivas da vida?
gostaria de sorrir mais
de saber que "não sei" dos problemas
de entender que o "não sei" é um escape para loucura do saber.
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nunca deixe que o amor em você se submeta aos preconceitos
os julgadores estão nas portas de vidro
eles não podem alcançar o que há dentro da sua alma
eles não sabem nada da tua essência.
saiba que te considero muito
a força que você exala é extravagante
um sorriso matutino que vem como as boas novas
um senso de justiça que todos deveriam ter.
sei que o sofrimento faz parte dos teus dias
sei que vence os teus dias com a paixão que
tu queima pelos teus sonhos.
espero que aquelas cartas que fizemos
se realizem
que você possa acessar o sentido que te dará o oxigênio
que você seja aquilo que você já é
uma mulher justa, uma pessoa incrível
que todos deveriam conhecer.
espero o futuro da tua amizade
tua alegria se transforma na minha
e estarei lá para te levantar se a semana não for generosa
ou se os bons ventos vierem atrasados
Sarah, esse poema é para você!
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meu sangue negro na água turva
levanto minha cabeça
em frente ao espelho tenho minhas partituras
cantadas pelos sinos que morte me reserva
orquestrada por um demônio que conduz minha existência
tubarões nadam no fundo dos meus olhos
eu deveria ter acabado com tudo quando tive tempo
eu deveria ter encerrado tudo quando estava só
meus olhos se transbordam com o oceano que se revolta em mim
me quebro no abismo
em que um dia foi meu lugar de fuga.
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meus sentimentos inseguros
escondidos por baixo do rosto de fechado
trato o alheio com a indiferença
para que este não possa me ferir
sinto a adaga dos olhos
julgamento sem juíz ou tribunal
tenho em mim as mesmas adagas
quando olho para o mundo
legível em versos soltos da minha fala
imaginável em cada hora do meu silêncio
me conservo romântico acima de tudo
meus lábios tem um mel que conservarei em garrafas de vidro
No coração, uma tranca que perderei a chave
e esquecerei onde mora o teu chaveiro
para que o teu aço e brilho se enferrujam com o tempo
e que eu perca entre meus esquecimentos essa intensidade no sentir.
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