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@bieuu · desde 2020

a consciência humana é um erro.

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dos ensaios da orquestra de bach para o fim dos tempos.

peço perdão aos deuses por me deixar vencer assim, mas já não sinto mais nada além do gosto amargo da carne entre meus dentes. minha língua pesa na voz dos sonhos que desisti, meu peito se corta diante do sussurro exausto do meu rosto. luzes amarelas se acendem como velas, noites sombrias tomam meu sono e me crucificam em meu adormecer. já não quero mais assistir ao nascer dos girassóis, quero apenas que nasça em mim a coragem de me afogar em taças alheias, de tragar a fumaça para os meus pulmões, mesmo que ela não seja minha. posso eu ser filho do amoníaco e do carbono, sendo que meu corpo se decompõe? nas esquinas, me despedaço através das palavras que dito como maldições de uma velha bruxa. sorte dos que permanecem lúcidos diante do ensaio fúnebre das almas caminhando ao hades, sorte dos espíritos que não estão adoecidos com toda essa marcha metálica que acinzenta todos os pontos vitais da dor e nos traz um sorriso de chumbo diante do pequeno ato de se estar vivo. não posso impetrar apenas um pedido de desculpas ao que deixei de ser. só peço que me mastiguem junto ao tutano do verbo que adorna tudo aquilo que fiz de bom neste fio de existência e que me devorem junto a uma taça de syrah, junto ao fogo que me queimará.

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as cartas do diabo ao seu aprendiz.

primeiro comece pela infância, traga um pouco de maldade nos olhos adultos que cercaram seu os espectros, nos cantos escuros do quarto, dentro do armário pesado de madeira onde o medo mora. Segundo, inicie nas conversas despretensiosas sobre a sociedade, desconsidere as instituições, igrejas, templos, odes, ideias de futuro, utopias, macule a ordem natural das coisas, dê velocidade aos corações, acelere os dias sem vida. Terceiro, afete os olhos da menina, faça os estômagos diluírem cédulas verdes, que línguas engulam a matéria comprada, que os espíritos se tornem pobres, afundados na miséria, nos corpos onde as bocas se alimentam concreto e da fumaça que respiram. Por fim, diminua o tempo, aumente o cansaço, devore o sentido das coisas, amasse os espíritos nos horários sem oxigênio, nos espaços apertados nas mesas dos bares escuros, permaneça nos últimos suspiros de uma garrafa de vinho e recolha as almas que sobrarem nas esquinas.

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goya.

em suma, a autoconsciência é a queda do ser: o indivíduo preso em sua própria mente, refém da própria carne, sequestrado nos labirintos das próprias veias. a fome devora o estômago no apogeu do dia; pelos olhos da arte de goya, bebemos uma fé mórbida, finita, vermelha, cheia de coisa nenhuma.

um dia depois das trevas.

nossos corpos mexendo em um sentido doce lençóis brancos escondendo a performance do sentimento uma coreografia delicada em direção ao nirvana entre o abismo e a sorte nossas almas estão suspensas na névoa de um mesmo quarto nossos dedos dedilham o vazio nossas conversas devoram os ponteiros do relógio em uma mesma cama a minha carne converge em casa para abrigar a tua voz espero que as trevas não durem a eternidade nos meus olhos que, aos poucos, eles se movam para que minhas retinas possam fotografar os trechos do teu espírito na geografia do teu corpo

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apesar.

apesar de tudo me mantenho firme segurando a muralha do destino revendo a eternidade transpassar os segundos olhando os deuses no fundo de seus olhos e não os temendo apesar das manhãs serem embriagadas pelo oxigênio poluído da cidade e a água ser doce na medida em que tudo é amargo apesar de tudo eu me tenho por completo cérebro, boca, nariz e um puta coração que se mete nas piores situações apesar de tudo olho o espelho as mãos de concreto que não se mexem no fio do tempo que precisava passar mais devagar pois quase choro por não conseguir voltar ao passado que era tão doce apesar de tudo me mantenho firme alado com olhos na multidão contrária tendo uma coroa e cicatrizes no meu rosto que sangram com os espinhos.

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sem definição.

tem vezes que o alvo é incerto e o pensamento voa com a brisa da noite me traz uma vontade como um amargo na boca depois do doce me sinto tentado a escrever a manchar o papel e alma com a tinta sinto a pulsação que meu sangue faz em minhas veias é cada vez mais forte e mais intensa na madrugada eu sinto como se não tivesse um tema claro nos meus versos tem vezes que me perco e volto, quando me recolho em vírgulas e pontos finais meu rosto se reluz ainda me sinto vivo quando estou sentindo isso acho que é por isso ainda continuo vivo para sentir isso como se isso me quebrasse ao mesmo tempo que me mantivesse em pé.

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a apologia ao desentender.

"só sei que nada sei" essa é máxima da vida pelo menos da minha a ilimitada ação de não saber benção maldita de não comer o fruto proibido sou um idiota e deveria ser tratado como tal preso as correntes que prendem minha fé no futuro e ao mundo melhor sexta-feira colorida cheia de luz e som não espero não-saber das coisas já sei coisas essas que deveria me esquecer ou não? pois, estarei errado? deixar de sentir é uma das dádivas da vida? gostaria de sorrir mais de saber que "não sei" dos problemas de entender que o "não sei" é um escape para loucura do saber.

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a moça do riso fácil.

nunca deixe que o amor em você se submeta aos preconceitos os julgadores estão nas portas de vidro eles não podem alcançar o que há dentro da sua alma eles não sabem nada da tua essência. saiba que te considero muito a força que você exala é extravagante um sorriso matutino que vem como as boas novas um senso de justiça que todos deveriam ter. sei que o sofrimento faz parte dos teus dias sei que vence os teus dias com a paixão que tu queima pelos teus sonhos. espero que aquelas cartas que fizemos se realizem que você possa acessar o sentido que te dará o oxigênio que você seja aquilo que você já é uma mulher justa, uma pessoa incrível que todos deveriam conhecer. espero o futuro da tua amizade tua alegria se transforma na minha e estarei lá para te levantar se a semana não for generosa ou se os bons ventos vierem atrasados Sarah, esse poema é para você!

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transbordar.

meu sangue negro na água turva levanto minha cabeça em frente ao espelho tenho minhas partituras cantadas pelos sinos que morte me reserva orquestrada por um demônio que conduz minha existência tubarões nadam no fundo dos meus olhos eu deveria ter acabado com tudo quando tive tempo eu deveria ter encerrado tudo quando estava só meus olhos se transbordam com o oceano que se revolta em mim me quebro no abismo em que um dia foi meu lugar de fuga.

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cadeado.

meus sentimentos inseguros escondidos por baixo do rosto de fechado trato o alheio com a indiferença para que este não possa me ferir sinto a adaga dos olhos julgamento sem juíz ou tribunal tenho em mim as mesmas adagas quando olho para o mundo legível em versos soltos da minha fala imaginável em cada hora do meu silêncio me conservo romântico acima de tudo meus lábios tem um mel que conservarei em garrafas de vidro No coração, uma tranca que perderei a chave e esquecerei onde mora o teu chaveiro para que o teu aço e brilho se enferrujam com o tempo e que eu perca entre meus esquecimentos essa intensidade no sentir.

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