Foto de clarice

clarice

@bellefluer · desde 2023

Versos que sussurram ao coração. Palavras que dançam no silêncio. bem-vindos ao meu caos!

178 poemas 51 seguidores 47 seguindo

Seguir

O Nada também faz barulho

Dói, não o corpo, mas aquilo que ninguém alcança. Uma sombra sem rosto, um segredo sem nome, uma maré que recua mas nunca se esconde. Há algo quebrado onde os olhos não veem, uma flor sem perfume que ainda insiste em florescer. Talvez seja saudade, talvez seja ausência, ou apenas o silêncio vestido de aparência. Porque certas dores não pedem abrigo, entram pela noite e dormem contigo. E quando o mundo pergunta “o que foi que aconteceu?”, a alma fecha as portas e responde: “nada.” Mas há noites em que o nada faz mais barulho que o trovão, e aquilo que não sangra é justamente o que mais dilacera o coração. Bellefleur🌸

Continuar lendo

Lua

Lua, eu te olho como quem procura um pedaço de si na altura. Tu, tão longe, e ainda assim tão presente, clareias o que em mim permanece ausente. Talvez seja por isso que eu te contemple em silêncio: tu conheces a escuridão, mas não deixas de ser encanto. As estrelas te cercam, e eu, pequena, te admiro. Tu não foges da noite, aprendeste a brilhar dentro dela. Se um dia eu me perder, Lua, não precisa me mostrar o caminho. Só permanece acesa, para eu lembrar, devagarinho: que até aquilo que nasceu para morar na escuridão pode carregar luz sem deixar de ser sombra. Bellefleur🌸

Continuar lendo

Não quero

Não quero teus olhos me procurando nos meus, nem tua boca me dizendo coisas que eu finjo não querer ouvir. Não quero teu abraço, nem o calor da tua presença, não quero esse teu jeito de transformar silêncio em urgência. Não quero pensar em você quando a noite chegar, nem sentir tua falta antes mesmo de você partir. Não quero. Porque querer você é perder um pouco de mim na esperança de encontrar alguma coisa em nós. E eu tenho medo de chamar de amor aquilo que talvez seja só vontade de ficar. Mas então… te quero. Te quero no silêncio, no intervalo dos pensamentos, naquela parte de mim que não obedece aos meus argumentos. Te quero mesmo quando digo que não, mesmo quando a razão manda o coração calar. E talvez seja isso que mais me assusta: Eu digo “não quero” com a boca, enquanto o coração, teimoso, sussurra baixinho: “porém… te quero.” Bellefleur🌸

Continuar lendo

O peso de não saber

“Só sei que nada sei” e há uma vertigem escondida nessa sentença. Porque admitir o não saber é arrancar da certeza a sua aparência. Passei a vida procurando respostas, como quem procura Deus no fundo do mar; mas cada verdade que encontrei abriu outra pergunta para me assombrar. Descobri que o homem teme o vazio não porque nele exista somente o nada, mas porque, quando o silêncio se aproxima, toda certeza parece mal contada. Chamamos de verdade aquilo que entendemos, de loucura aquilo que não conseguimos tocar; talvez sejamos apenas cegos tentando dar nome ao que insiste em nos olhar. E quanto mais conheço o mundo, menos conheço aquela que sou. Há uma estranha dentro do espelho que envelhece enquanto eu ainda não sei quem ficou. Talvez a sabedoria não seja saber, mas suportar a dúvida sem fugir; olhar o abismo dentro dos próprios olhos e não precisar de respostas para existir. Sócrates talvez tenha percebido o que tantos homens passam a vida tentando esconder: há uma espécie de liberdade em admitir que não precisamos entender tudo para viver. E então, diante do infinito, sem certezas para me proteger, eu finalmente compreendo: não saber não é ausência de conhecimento , é saber que jamais caberei em tudo aquilo que penso conhecer. Bellefleur🌸 Inspirado no pensamento atribuído a Sócrates.

Continuar lendo

Haicai

A morte, tão quieta, beija a alma incompleta, como uma promessa secreta. Bellefleur🌸

A loucura nunca me pareceu loucura

Talvez porque eu tenha nascido com o abismo dentro do peito e aprendido, desde cedo, a chamá-lo de lar e de jeito. Há quem tema os próprios monstros. Eu lhes ofereço café. Sento-me diante deles em silêncio e pergunto por que ainda estão de pé. Eles nunca respondem. Só sorriem, devagar. Como quem conhece meus segredos e sabe onde me encontrar. E talvez seja isso que assuste: já não sei onde termina a sanidade e onde começa aquilo que chamam de loucura, como se sentir fosse vaidade. Porque o que é ser normal num mundo que transforma sentimentos em fraqueza, silêncios em indiferença e corações vivos em coisas sem beleza? Talvez loucura seja sentir demais quando todos aprenderam a sentir de menos. É carregar tempestades no peito e ainda procurar estrelas no avesso. Talvez seja olhar para a própria ferida e, em vez de escondê-la, mergulhar os dedos no sangue só para ter certeza de que ainda existe vida nela. Eu não quero uma lucidez que me obrigue a ser rasa. Prefiro a vertigem, o excesso, a noite sem nome que me atravessa e não passa. Prefiro essa estranha forma de existir, em que às vezes me perco só para encontrar partes de mim que a razão teria mandado partir. E se isso for loucura, que seja. Há loucuras que são apenas almas recusando-se a morrer em silêncio, quando o mundo inteiro já se acostumou ao vazio e chama isso de equilíbrio. Porque, no fundo, a loucura nunca me pareceu loucura. O que sempre me pareceu assustador foi ver tanta gente perfeitamente sã vivendo como se nunca tivesse tido uma alma para sangrar. Bellefleur🌸

Continuar lendo

Gira, gira, girassol

Gira, gira, girassol, mesmo quando o céu se fecha, mesmo quando a noite chega e o medo bate à porta. Gira para onde houver luz, ainda que seja pequena, porque até a menor chama pode incendiar a esperança. Há dias em que o sol se esconde, e a alma parece esquecer que toda noite, por mais longa, também aprende a amanhecer. Então, gira, gira, girassol, não desista de procurar. Há luz por trás das nuvens, há vida depois do pesar. E se o mundo escurecer, não abaixe a sua flor. Continue seguindo o sol, mesmo que seja com dor. Porque talvez a vida seja isso: cair, florescer, recomeçar... e entender, depois de tudo, que sempre haverá luz para quem ainda escolhe olhar. Bellefleur🌻

Continuar lendo

O Gelo Também Queima

O gelo também queima. Só que em silêncio, sem chama, sem fumaça, sem pedir licença ao tempo. É uma dor branca, subindo devagar, como uma lâmina fria aprendendo a penetrar. Há frios que não vêm do inverno, vêm de olhos que já não procuram, de mãos que se afastam, de promessas que não duram. E há pessoas assim: feitas de inverno e solidão, tocam sem calor, mas incendeiam o coração. Eu descobri que o frio sangra, que a ausência também tem dentes, e certas despedidas ferem mais quando são ausentes. Não me diga que o gelo não machuca. Há queimaduras que ninguém vê, cicatrizes escondidas na alma que continuam a arder sem se perceber. O gelo também queima. E talvez esse seja seu segredo mais cruel: não precisa de fogo, nem de céu em brasa, para transformar um coração inteiro em cinzas debaixo da asa. Bellefleur🌸

Continuar lendo

Mais um dia, ou menos um dia?

Mais um dia… ou menos um dia? O sol nasceu na janela, mas não sei se trouxe vida ou apenas mais uma espera. O relógio segue calado, levando o tempo consigo, segundo após segundo, deixando o ontem perdido. Mais uma manhã, menos uma noite. Mais um sonho que nasce, menos um medo que açoite. E a vida, tão distraída, vai passando devagar, enquanto eu conto os dias sem perceber o que deixei passar. Cada amanhecer me toca com a delicadeza de uma despedida, como se o tempo sussurrasse: “você está vivendo… mas também está deixando a vida.” Talvez viver seja isso: ganhar tempo e perdê-lo também, beber da fonte do instante sem saber quando ela deixa de ser. Porque cada riso que fica, cada lágrima que cai, é um pedaço da existência que não volta jamais. Então me pergunto, baixinho, antes que o dia se desfaça: É mais um dia de vida, ou menos um dia de graça? E enquanto não descubro, eu respiro ainda, como quem segura nas mãos o último fio de vida antes que a noite o dissolva. Bellefleur🌸

Continuar lendo

A mulher que acorda quando durmo

Existe uma mulher dentro de mim que só aparece quando a noite chega ao fim. Ela espera. Quietinha, inteira, como quem conhece o escuro e não teme a própria fronteira. Fica escondida atrás dos meus olhos, onde moram meus medos e sonhos, onde enterrei tantos segredos que já nem sei quais eram meus. Ela conhece meus pensamentos antes mesmo de nascerem por dentro, sabe o nome de cada ferida, cada porta que tranquei na vida. Às vezes acordo no meio da noite, com o coração batendo sem açoite, e sinto que alguém esteve aqui, respirando baixinho perto de mim. O quarto está vazio. Mas o espelho... não. Há uma mulher me olhando com meus olhos, meu rosto, minha boca. Mas sorri de um jeito que eu não conheço, como se soubesse de mim algo que eu mesma esqueço. Então desvio o olhar. Porque existem coisas que não devemos reconhecer se ainda queremos continuar sendo quem pensamos ser. Tenho medo de que um dia ela não espere mais pelo sono. Que apareça sentada na minha cama, sem pressa, sem medo, sem drama, e vista meu corpo lentamente como quem retorna para casa depois de muito tempo ausente. E o pior... é que ela não quer me matar. Quer apenas que eu saia. Talvez eu tenha chamado de personalidade aquilo que era apenas contenção. Talvez minha calma seja uma porta trancada, e minha delicadeza, alguém segurando a maçaneta do outro lado da madrugada. Talvez eu não seja uma só. Talvez existam em mim todas as mulheres que calei, todas as que abandonei, todas as que poderiam ter sido se eu tivesse coragem de existir. E talvez... a mulher que mora em mim não seja outra mulher. Talvez seja eu. A verdadeira. E tudo aquilo que chamei de “eu” durante todos esses anos, não passasse de uma mentira bonita que ela inventou para me deixar viva. Até o dia em que decidiu acordar. E me olhar no espelho. E sorrir. Como quem finalmente reconhece quem sempre esteve atrás de mim. Bellefleur🌸

Continuar lendo