Dói,
não o corpo,
mas aquilo que ninguém alcança.
Uma sombra sem rosto,
um segredo sem nome,
uma maré que recua
mas nunca se esconde.
Há algo quebrado
onde os olhos não veem,
uma flor sem perfume
que ainda insiste em florescer.
Talvez seja saudade,
talvez seja ausência,
ou apenas o silêncio
vestido de aparência.
Porque certas dores
não pedem abrigo,
entram pela noite
e dormem contigo.
E quando o mundo pergunta
“o que foi que aconteceu?”,
a alma fecha as portas
e responde:
“nada.”
Mas há noites em que o nada
faz mais barulho que o trovão,
e aquilo que não sangra
é justamente
o que mais dilacera o coração.
Bellefleur🌸
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Lua,
eu te olho como quem procura
um pedaço de si na altura.
Tu, tão longe,
e ainda assim tão presente,
clareias o que em mim
permanece ausente.
Talvez seja por isso
que eu te contemple em silêncio:
tu conheces a escuridão,
mas não deixas de ser encanto.
As estrelas te cercam,
e eu, pequena, te admiro.
Tu não foges da noite,
aprendeste a brilhar dentro dela.
Se um dia eu me perder, Lua,
não precisa me mostrar o caminho.
Só permanece acesa,
para eu lembrar, devagarinho:
que até aquilo que nasceu
para morar na escuridão
pode carregar luz
sem deixar de ser sombra.
Bellefleur🌸
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Não quero teus olhos
me procurando nos meus,
nem tua boca
me dizendo coisas
que eu finjo não querer ouvir.
Não quero teu abraço,
nem o calor da tua presença,
não quero esse teu jeito
de transformar silêncio
em urgência.
Não quero pensar em você
quando a noite chegar,
nem sentir tua falta
antes mesmo de você partir.
Não quero.
Porque querer você
é perder um pouco de mim
na esperança de encontrar
alguma coisa em nós.
E eu tenho medo
de chamar de amor
aquilo que talvez seja
só vontade de ficar.
Mas então…
te quero.
Te quero no silêncio,
no intervalo dos pensamentos,
naquela parte de mim
que não obedece
aos meus argumentos.
Te quero
mesmo quando digo que não,
mesmo quando a razão
manda o coração calar.
E talvez seja isso
que mais me assusta:
Eu digo “não quero”
com a boca,
enquanto o coração,
teimoso,
sussurra baixinho:
“porém…
te quero.”
Bellefleur🌸
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“Só sei que nada sei”
e há uma vertigem escondida nessa sentença.
Porque admitir o não saber
é arrancar da certeza a sua aparência.
Passei a vida procurando respostas,
como quem procura Deus no fundo do mar;
mas cada verdade que encontrei
abriu outra pergunta para me assombrar.
Descobri que o homem teme o vazio
não porque nele exista somente o nada,
mas porque, quando o silêncio se aproxima,
toda certeza parece mal contada.
Chamamos de verdade aquilo que entendemos,
de loucura aquilo que não conseguimos tocar;
talvez sejamos apenas cegos
tentando dar nome ao que insiste em nos olhar.
E quanto mais conheço o mundo,
menos conheço aquela que sou.
Há uma estranha dentro do espelho
que envelhece enquanto eu ainda não sei quem ficou.
Talvez a sabedoria não seja saber,
mas suportar a dúvida sem fugir;
olhar o abismo dentro dos próprios olhos
e não precisar de respostas para existir.
Sócrates talvez tenha percebido
o que tantos homens passam a vida tentando esconder:
há uma espécie de liberdade em admitir
que não precisamos entender tudo para viver.
E então, diante do infinito,
sem certezas para me proteger,
eu finalmente compreendo:
não saber não é ausência de conhecimento ,
é saber que jamais caberei
em tudo aquilo que penso conhecer.
Bellefleur🌸
Inspirado no pensamento atribuído a Sócrates.
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A morte, tão quieta,
beija a alma incompleta,
como uma promessa secreta.
Bellefleur🌸
Talvez porque eu tenha nascido
com o abismo dentro do peito
e aprendido, desde cedo,
a chamá-lo de lar e de jeito.
Há quem tema os próprios monstros.
Eu lhes ofereço café.
Sento-me diante deles em silêncio
e pergunto por que ainda estão de pé.
Eles nunca respondem.
Só sorriem, devagar.
Como quem conhece meus segredos
e sabe onde me encontrar.
E talvez seja isso que assuste:
já não sei onde termina a sanidade
e onde começa aquilo
que chamam de loucura,
como se sentir fosse vaidade.
Porque o que é ser normal
num mundo que transforma sentimentos em fraqueza,
silêncios em indiferença
e corações vivos em coisas sem beleza?
Talvez loucura seja sentir demais
quando todos aprenderam a sentir de menos.
É carregar tempestades no peito
e ainda procurar estrelas no avesso.
Talvez seja olhar para a própria ferida
e, em vez de escondê-la,
mergulhar os dedos no sangue
só para ter certeza
de que ainda existe vida nela.
Eu não quero uma lucidez
que me obrigue a ser rasa.
Prefiro a vertigem,
o excesso,
a noite sem nome
que me atravessa e não passa.
Prefiro essa estranha forma de existir,
em que às vezes me perco
só para encontrar partes de mim
que a razão teria mandado partir.
E se isso for loucura,
que seja.
Há loucuras que são apenas almas
recusando-se a morrer em silêncio,
quando o mundo inteiro
já se acostumou ao vazio
e chama isso de equilíbrio.
Porque, no fundo,
a loucura nunca me pareceu loucura.
O que sempre me pareceu assustador
foi ver tanta gente perfeitamente sã
vivendo como se nunca tivesse tido
uma alma para sangrar.
Bellefleur🌸
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Gira, gira, girassol,
mesmo quando o céu se fecha,
mesmo quando a noite chega
e o medo bate à porta.
Gira para onde houver luz,
ainda que seja pequena,
porque até a menor chama
pode incendiar a esperança.
Há dias em que o sol se esconde,
e a alma parece esquecer
que toda noite, por mais longa,
também aprende a amanhecer.
Então, gira, gira, girassol,
não desista de procurar.
Há luz por trás das nuvens,
há vida depois do pesar.
E se o mundo escurecer,
não abaixe a sua flor.
Continue seguindo o sol,
mesmo que seja com dor.
Porque talvez a vida seja isso:
cair, florescer, recomeçar...
e entender, depois de tudo,
que sempre haverá luz
para quem ainda escolhe olhar.
Bellefleur🌻
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O gelo também queima.
Só que em silêncio,
sem chama, sem fumaça,
sem pedir licença ao tempo.
É uma dor branca,
subindo devagar,
como uma lâmina fria
aprendendo a penetrar.
Há frios que não vêm do inverno,
vêm de olhos que já não procuram,
de mãos que se afastam,
de promessas que não duram.
E há pessoas assim:
feitas de inverno e solidão,
tocam sem calor,
mas incendeiam o coração.
Eu descobri que o frio sangra,
que a ausência também tem dentes,
e certas despedidas
ferem mais quando são ausentes.
Não me diga que o gelo não machuca.
Há queimaduras que ninguém vê,
cicatrizes escondidas na alma
que continuam a arder sem se perceber.
O gelo também queima.
E talvez esse seja seu segredo mais cruel:
não precisa de fogo,
nem de céu em brasa,
para transformar um coração inteiro
em cinzas debaixo da asa.
Bellefleur🌸
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Mais um dia…
ou menos um dia?
O sol nasceu na janela,
mas não sei se trouxe vida
ou apenas mais uma espera.
O relógio segue calado,
levando o tempo consigo,
segundo após segundo,
deixando o ontem perdido.
Mais uma manhã,
menos uma noite.
Mais um sonho que nasce,
menos um medo que açoite.
E a vida, tão distraída,
vai passando devagar,
enquanto eu conto os dias
sem perceber o que deixei passar.
Cada amanhecer me toca
com a delicadeza de uma despedida,
como se o tempo sussurrasse:
“você está vivendo…
mas também está deixando a vida.”
Talvez viver seja isso:
ganhar tempo e perdê-lo também,
beber da fonte do instante
sem saber quando ela deixa de ser.
Porque cada riso que fica,
cada lágrima que cai,
é um pedaço da existência
que não volta jamais.
Então me pergunto, baixinho,
antes que o dia se desfaça:
É mais um dia de vida,
ou menos um dia de graça?
E enquanto não descubro,
eu respiro ainda,
como quem segura nas mãos
o último fio de vida
antes que a noite o dissolva.
Bellefleur🌸
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Existe uma mulher dentro de mim
que só aparece quando a noite chega ao fim.
Ela espera.
Quietinha, inteira,
como quem conhece o escuro
e não teme a própria fronteira.
Fica escondida atrás dos meus olhos,
onde moram meus medos e sonhos,
onde enterrei tantos segredos
que já nem sei quais eram meus.
Ela conhece meus pensamentos
antes mesmo de nascerem por dentro,
sabe o nome de cada ferida,
cada porta que tranquei na vida.
Às vezes acordo no meio da noite,
com o coração batendo sem açoite,
e sinto que alguém esteve aqui,
respirando baixinho perto de mim.
O quarto está vazio.
Mas o espelho...
não.
Há uma mulher me olhando
com meus olhos,
meu rosto,
minha boca.
Mas sorri
de um jeito que eu não conheço,
como se soubesse de mim
algo que eu mesma esqueço.
Então desvio o olhar.
Porque existem coisas
que não devemos reconhecer
se ainda queremos
continuar sendo quem pensamos ser.
Tenho medo de que um dia
ela não espere mais pelo sono.
Que apareça sentada na minha cama,
sem pressa, sem medo, sem drama,
e vista meu corpo lentamente
como quem retorna para casa
depois de muito tempo ausente.
E o pior...
é que ela não quer me matar.
Quer apenas
que eu saia.
Talvez eu tenha chamado de personalidade
aquilo que era apenas contenção.
Talvez minha calma
seja uma porta trancada,
e minha delicadeza,
alguém segurando a maçaneta
do outro lado da madrugada.
Talvez eu não seja uma só.
Talvez existam em mim
todas as mulheres que calei,
todas as que abandonei,
todas as que poderiam ter sido
se eu tivesse coragem de existir.
E talvez...
a mulher que mora em mim
não seja outra mulher.
Talvez seja eu.
A verdadeira.
E tudo aquilo que chamei de “eu”
durante todos esses anos,
não passasse de uma mentira bonita
que ela inventou
para me deixar viva.
Até o dia
em que decidiu acordar.
E me olhar no espelho.
E sorrir.
Como quem finalmente reconhece
quem sempre esteve
atrás de mim.
Bellefleur🌸
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