A loucura nunca me pareceu loucura
Talvez porque eu tenha nascido com o abismo dentro do peito e aprendido, desde cedo, a chamá-lo de lar e de jeito. Há quem tema os próprios monstros. Eu lhes ofereço café. Sento-me diante deles em silêncio e pergunto por que ainda estão de pé. Eles nunca respondem. Só sorriem, devagar. Como quem conhece meus segredos e sabe onde me encontrar. E talvez seja isso que assuste: já não sei onde termina a sanidade e onde começa aquilo que chamam de loucura, como se sentir fosse vaidade. Porque o que é ser normal num mundo que transforma sentimentos em fraqueza, silêncios em indiferença e corações vivos em coisas sem beleza? Talvez loucura seja sentir demais quando todos aprenderam a sentir de menos. É carregar tempestades no peito e ainda procurar estrelas no avesso. Talvez seja olhar para a própria ferida e, em vez de escondê-la, mergulhar os dedos no sangue só para ter certeza de que ainda existe vida nela. Eu não quero uma lucidez que me obrigue a ser rasa. Prefiro a vertigem, o excesso, a noite sem nome que me atravessa e não passa. Prefiro essa estranha forma de existir, em que às vezes me perco só para encontrar partes de mim que a razão teria mandado partir. E se isso for loucura, que seja. Há loucuras que são apenas almas recusando-se a morrer em silêncio, quando o mundo inteiro já se acostumou ao vazio e chama isso de equilíbrio. Porque, no fundo, a loucura nunca me pareceu loucura. O que sempre me pareceu assustador foi ver tanta gente perfeitamente sã vivendo como se nunca tivesse tido uma alma para sangrar. Bellefleur🌸
ỌHAR
palavras matadoras, sua loucura é tão sã quando a tranquilidade da alma em segredo ,parabéns, muito bem escrito, como sempre, vc não deixa a desejar 👌👏
clarice
Muito obrigada pelo apoio e por sempre ler minha alma através das palavras. Suas palavras sempre aquecem meu coração! 🌸🍃☺️