"A chuva cai,
Molha sem pudor meu belo e vibrante jardim
Com pingos grossos, sem permissão.
O vento quebra os galhos das árvores
Arranca as flores coloridas, que murcham
Enche os troncos de água
E faz a terra tomada por pavor ser.
O vento preenche, por integral, o que nunca deveria ser preenchido,
Destrói o que nunca deveria ser destruído.
O sol tomou o lugar do vento, da chuva e do escuro,
Secou a superfície do meu jardim,
Apenas para apagar a tempestade que gravada nele foi.
Mesmo o jardim seco estando e o sol raiando,
Os troncos das árvores ainda sangravam água internamente,
As flores ainda permaneciam murchas e sem cor,
A terra ainda guardava memória da tempestade consigo.
Manhãs iluminavam meu jardim incolor,
Tardes esforçavam-se para secar abaixo da superfície,
Noites mantinham meu imundo jardim fresco.
As flores agora tinham medo de florescer,
Os galhos, de renascer,
As árvores temiam a chuva
E a terra, para sempre ser úmida.
Um dia,
Pisaram em meu jardim que eu tão bem escondi do sol;
Forçaram as flores a florescer,
Fizeram os galhos se reconstruírem,
Garantiram às árvores e à terra que jamais novamente choveria.
Todavia, as flores não mais eram coloridas,
Os galhos eram franzinos e quebradiços,
As árvores choravam, cheias por dentro permaneciam
E os pingos na terra nunca se iam.
Os raios de sol iluminavam o que eu não queria ver -
O quão desagradável meu jardim tornou-se,
Jardim que conservei com tanto pavor
Que se tornou dor.
Meu pequeno, destruído jardim
Nunca possuiu da oportunidade de ser
O que imaginava viver.
- As flores não florescerão com cor novamente,
As árvores eternamente chorarão,
Os galhos sempre cairão no chão
E a terra, eternamente será um borrão. -"
— Yūkio D.
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"Somos só nós.
Só nós cinco -
Deveríamos estar em seis,
Mas ninguém se importa o suficiente.
Nós cinco,
Sentados em um círculo mal-feito
Feitos de raiva e demasiado defeito,
Paciência
Em decadência.
Um se levanta.
Se põe no centro do círculo defeituoso,
Descreve quem irá presentear
Com fala e um leve gesticular.
- É uma pessoa muito querida, que...
Ele diz,
Mas nada que está dizendo
Realmente é verídico.
Ele entrega o presente.
Tudo é repetido,
Todos falam com falsa afeição
Mentiras doces -
Tudo isso é fingido;
Eu sei disso,
E permaneço rígido.
Me descrevem,
Com nojo, repulsa,
Nem falsa afeição tentam aplicar...
Que doce inconveniência.
...
A minha vez chega -
Desajeitado,
Pela minha própria existência envergonhado,
Da cadeira me levanto e,
Trêmulo,
Sentindo os olhares perfurarem a epiderme
E atravessarem até à hipoderme.
Descrevo,
De um jeito desagradável
Mas confortável
Quem presentear irei.
A descrição se faz completa,
Minha mente se torna alerta,
Totalmente lúcida.
Meu olhar,
Em excitação e antecipado êxtase,
Oscila entre os oito olhos que me fitam
E o presente que irei entregar.
Eu mesmo abro o presente,
E de lá retiro
Uma espingarda
Cuidadosamente decorada,
Não possuindo alguma dúvida.
- Presenteio-te
Com algo raro,
Algo que acontecerá somente uma vez,
Algo que tanto desejaste
Desde o meu nascimento. -
Falho em dar uma introdução adequada,
Mas realizar uma introdução decente
Não seria uma ação um tanto antiquada?
- Não clemente de minhas ações
Por estar presenteando-lhe
Um fenômeno belo ao teu olhar,
Concluo a entrega de tua dádiva... -
Aponto a escopeta
Para o meio da minha testa e,
Com um sorriso doentio de orelha a orelha,
Aperto o gatilho
E sinto a dor da bala
Um pouco antes de apagar...
- O ar que balança o mar
Chega o meu não azar,
Ao meu ato não exemplar,
Que realizei para me salvar. -"
— Yūkio D.
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"As uvas mais doces
São as mais machucadas...
E os limões mais azedos
Ainda nem amadureceram
Antes de serem colhidos."
— Yūkio D.
"De súbito
Aquele quem eu prendia,
Tornou-se a rasgar ainda mais seus próprios pulsos...
E fazia isso com um sorriso brilhante,
Belo de se ver.
Deixou o sangue escorrer
Até que sua pele se resumisse
Inteiramente àquilo.
Passou o cristal da mão direita à esquerda e,
Num gesto terno,
Acariciou meu rosto com sua mão ensanguentada
E iniciou minha morte
Ao, tão carinhoso e sádico,
Cortar meu pescoço.
Me inclino à palma quente e úmida,
Aproveitando da doçura de morrer
E dos últimos momentos do meu viver.
Pressiono a ametista
Contra a vida dele -
Rasgo uma parcela
Da minha obra prima.
- Deixe a morte consumir-nos... - proferiu ele, suave, lapidando meu pescoço com seu cinzel.
O cristal, antes na base de meu pescoço,
Sobe ao meio,
Cortando ali também.
Meu pincel
Desce de seu pescoço
Até onde coloquei tinta em excesso -
E espalha ainda mais a tinta...
Perfuro meu trabalho
Até chegar em carne
Até chegar em osso
Até chegar em vida -
No coração.
O espinho dele chega à minha veia vital
Pressiona leve, fazendo um carinho doloroso -
Carinho esse que arranha minha pele,
Que deixa uma marca que cicatrizará
Porém ficará presa no tempo.
Respirações quentes em uníssono se misturam
Como gasolina e querosene.
Faço do coração dele a cova da ametista
E a enterro lá;
E ele faz da minha jugular
Uma confortável cama
Para o cristal.
Soltamos as armas...
Não há mais dor.
Nem redenção.
Só nós
E o sangue do nosso destino.
Nossos olhares perfuram um ao outro
Como um raio de sol refletido numa lupa
Que queima papel.
Suas mãos alcançam minha cintura
E as minhas mãos alcançam seus ombros.
Em meio a passos trêmulos e trôpegos
Realizamos nossa última dança...
Dança esta que perde a força a cada suspiro,
A cada passo cuidadoso e mortal.
- A dança é eterna.
Nunca haverá um fim, não...
Nunca poderá ser terminada;
Mesmo após a morte,
Os passos continuarão
Em um ciclo infindo de cortes e morte,
De perdição e salvação. -"
— Yūkio D.
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"Enterro dois centímetros a faca em seu peito
E novamente contorno o corte
Do peito ao quadril
Do quadril ao peito -
Uma tatuagem eterna.
- Mais fundo... Ah...
Até que não haja mais da lâmina
Para me salvar...
- Não posso fazer isso... Não agora.
Talvez depois, se você se comportar.
...
Meus dedos dançam
Sobre o mar escarlate,
Sobre o belo oceano de lírios-aranha
Que em meu quadro pintei.
A tinta escorre do centro do quadro
Para baixo
E consome dele.
Olho para cima,
Para o rosto da figura mais alta que eu -
Que possuía de uma feição de puro deleite e dor
Batidos num liquidificador.
Toco a piscina de água quente cheia -
Sinto seu fervor
Queimar meus dedos
E os manchar.
- Não pretende me salvar?
- Sou egoísta, nem um pouco altruísta...
Talvez, se também me salvar, eu te salve.
Meus olhos se direcionam aos olhos castanhos
Olhos castanhos brilhantes, cheios de vida
Embora antes estivessem se decompondo.
Libero uma mão.
Uma única mão.
Uma já basta -
Duas é demais.
- Faça o que quiser.
Me mate do jeito que desejar.
Suas opções diversas são...
Embora tenham uma restrição.
Mas antes...
Vamos selar nosso destino,
Ter certeza de um futuro distorcido
E um passado que talvez não mais será visto.
Uso de um cinzel
Para esculpir rachaduras
Em meus próprios pulsos
E nos pulsos da minha obra de arte.
Misturo pedra
Com tinta a óleo -
Misturo água com fogo,
Gelo com vapor.
Caules de flores se entrelaçam
Jardins são regados -
São feitos pecados
E à morte somos setenciados.
- Essa vida não vale a pena ser vivida...
Junte-se a mim na morte. - o convido, embora da resposta já tivesse noção.
- Com prazer o farei. - ele responde, sem hesitar por um instante.
Para ele um cristal entrego.
Um cristal pontiagudo,
Mais afiado que uma adaga,
Mais pontiagudo que uma estalactite.
Seguro uma ametista,
A faço roçar contra a pele sensível do pescoço
Sinto a veia pulsar
Através da pele tênue.
Cedo à vontade de libertá-lo por completo -
E assim o faço;
Desagelmo seu pulso esquerdo."
— Yūkio D.
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"- Me siga,
Sinta-se confortável;
Ouça a bátega
Soar na fria noite desconfortável.
Me siga pela sala escura
Até que o quarto mal iluminado,
De móveis e temática vintage e extravagante
Mas de atmosfera
Tão fria quanto uma sala de cirurgia
Nos consuma.
Não se preocupe -
Usarei somente uma faca de cozinha,
E não haverá anestesia...
Você sentirá tudo.
Assim como desejou.
Assim como ansiou. -
Farei de sua pele cálida
De minha tela de pintura pálida,
Assim como farei da lâmina
Meu instrumento de trabalho.
Não se assuste...
Não temas o que desejaste.
Ceda ao seu desejo,
Torne-se o que sempre por completo
Quiseste ser. -
Minha mão passa pelo torso e peito
Ainda cobertos por petálas de peônias,
Rasgadas em uma fração no peito
Por flores da lua.
Minhas unhas,
Mesmo curtas, que afiguram-se inofensivas,
Arranham e rasgam com força as peônias e a pele -
Deixam marcas
Que não sairão
Com água e sabão.
- Se eu enterrasse a lâmina em ti,
Gritarias com o peso de sua escolha
Ou sorriria, doentio, com a consequência de tal?
- Pediria para colocar mais fundo a lâmina...
Até eu não sentir mais nada.
A mobilidade dele eu restrinjo
Com algemas em ambos os pulsos
Para que, mesmo com intenção de escapar
A única coisa que poderá fazer
Será nisso pensar.
Minha mão alcança a faca,
O medo e a cobiça —
Alcança o arrependimento e o alívio
Da integridade
Ausente dele.
Levo a faca ao seu peito arranhado,
E acaricio com ela a pele vermelha
Com as luzes ao fundo se abrilhantando,
A escuridão, a luz e a lâmina em testilha.
Traço uma linha delicada
Do lado esquerdo do peito
Ao lado direito do quadril -
Linha delicada esta
Que tênue é.
O corte, frágil,
Libera poucos lírios-aranha
Líquidos.
Pouco a pouco, desenho a forma
De uma cicatriz bem-calculada
Em aço e sadismo.
O som do vento afora,
Fluido como um meandro
Batendo contra a janela de vidro
Se torna uma bulha -
Como um quadro
Que, ao errar uma pincelada,
Todo se falha."
— Yūkio D.
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"Um pássaro preso
Nunca saberá que está preso
Até ver outros pássaros ao seu redor
Serem libertos."
— Yūkio D.
"Como não julgar um livro pela capa
Se atualmente
Todos os livros possuem das mesmas capas
E dos mesmos conteúdos?"
— Yūkio D.
"A noite pesada que cai sobre mim
E a luz da lua que me rouba um beijo,
Amantes impiedosas minhas são -
Querem por inteiro me tomar.
Anjos malvados
Rasgam suas asas
E as jogam em mim -
Como se pudesse eu
Curá-las ao roubar pureza.
Minha mente
E minha respiração
Lutam para descobrir
Quem mais grita -
Mas é em vão;
Seus gritos são levados
Pelo sopro egoísta da noite.
Se me engole uma flor,
Hei de nunca ser só
Novamente?
Abrirei minhas asas
E as rasgarei em cima de você -
Gracejarei quando não mais tiver penas
Para sangrarem em você.
Mais uma noite com medo de você
Sem saber se amanhã hei de viver -
Pegue minha mão ferida,
Me prove sua devoção
A mim.
Peça redenção,
Me esconda em suas asas;
Deixe-me
Dar-lhe
O meu único fino vidro.
Leia minha alma
Mutilada em versos e estrofes.
Venha, vamos brincar!
Se jogue em meu campo de rosas
E não recue ao ser rasgado por espinhos.
Demonstre sua devoção -
Não espere ambição
Ou qualquer emoção
Vinda de coração…
Mas, se quiser,
Minha alma podes despir -
Podes ser minha redenção.
Cultive um jardim de flores
Cuide dele,
Não deixe os insetos o destruir.
Venha, flor
Floresça e murche comigo;
Seja o chão que eu me equilibro,
E eu serei a água
Que lhe mantém viva."
— Yūkio D.
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"O desgosto me assola
A solidão não me ignora,
Dir-se-ia nunca a flor ela iria ignorar -
E sua promessa cumpriu.
Fito ao meu redor;
Sozinho estou,
Integral perdi minha ambição,
Assim como minha emoção,
E mais uma vez perdi a razão.
- Acabarei sempre
Apreciando o "não adequado",
E recomeçando
Aquilo que não deveria. -"
— Yūkio D.
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