"Shinjū." - III (final).
"De súbito Aquele quem eu prendia, Tornou-se a rasgar ainda mais seus próprios pulsos... E fazia isso com um sorriso brilhante, Belo de se ver. Deixou o sangue escorrer Até que sua pele se resumisse Inteiramente àquilo. Passou o cristal da mão direita à esquerda e, Num gesto terno, Acariciou meu rosto com sua mão ensanguentada E iniciou minha morte Ao, tão carinhoso e sádico, Cortar meu pescoço. Me inclino à palma quente e úmida, Aproveitando da doçura de morrer E dos últimos momentos do meu viver. Pressiono a ametista Contra a vida dele - Rasgo uma parcela Da minha obra prima. - Deixe a morte consumir-nos... - proferiu ele, suave, lapidando meu pescoço com seu cinzel. O cristal, antes na base de meu pescoço, Sobe ao meio, Cortando ali também. Meu pincel Desce de seu pescoço Até onde coloquei tinta em excesso - E espalha ainda mais a tinta... Perfuro meu trabalho Até chegar em carne Até chegar em osso Até chegar em vida - No coração. O espinho dele chega à minha veia vital Pressiona leve, fazendo um carinho doloroso - Carinho esse que arranha minha pele, Que deixa uma marca que cicatrizará Porém ficará presa no tempo. Respirações quentes em uníssono se misturam Como gasolina e querosene. Faço do coração dele a cova da ametista E a enterro lá; E ele faz da minha jugular Uma confortável cama Para o cristal. Soltamos as armas... Não há mais dor. Nem redenção. Só nós E o sangue do nosso destino. Nossos olhares perfuram um ao outro Como um raio de sol refletido numa lupa Que queima papel. Suas mãos alcançam minha cintura E as minhas mãos alcançam seus ombros. Em meio a passos trêmulos e trôpegos Realizamos nossa última dança... Dança esta que perde a força a cada suspiro, A cada passo cuidadoso e mortal. - A dança é eterna. Nunca haverá um fim, não... Nunca poderá ser terminada; Mesmo após a morte, Os passos continuarão Em um ciclo infindo de cortes e morte, De perdição e salvação. -" — Yūkio D.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.