Foto de Breno Pitol Trager

Breno Pitol Trager

@Reorgio · desde 2021

Poeta que não vende, gamer que só perde, psicólogo precisando de terapia https://www.recantodasletras.com.br/poemas-epicos/8021626

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Ritual

Permissofia

Vamos proibir o proibível Que a lei conheça seu contorno Sem vestir a máscara do medo Nem converter prudência o morno Vamos permitir o permissível Que o confundir liberdade e abandono Sem fazer da ausência de barreira Uma ponte travessia ao medonho Vamos amar o amável Como quem reconhece a luz da tarde O gesto simples dos que ficam E a beleza que jamais se faz covarde Vamos odiar o odiável Como crueldade que humilha os frágeis A mentira que se faz virtude E os triunfos moralmente braquio Vamos tolerar o tolerável Pois nem toda diferença é ameaça Nem todo desacordo é abismo Quando o respeito retém mordaça Vamos resistir ao resistível Pois hábitos que nos diminuem Nem às correntes que pedem silêncio Quando os grilhões diluem nuvens Vamos preferir o preferível O caminho menos vaidoso A palavra mais verdadeira E o bem discreto da ousadia em gozo Vamos guerrear o guerreável Sem paixão pelas batalhas Mas com firmeza necessária Diante das velhas paredes, se atalha Vamos renunciar o renunciável Por excesso que pesa porque aguarda Roubando as certezas que nos cegam Vem a pressa que rouba a calma E quando tudo tiver sido dito Restará ainda o inevitável Viver o que não tem decreto Sofrer o que não tem remédio e amar o que não é dê certo

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Ritual

Sensotopia

Farei a visão ver O brilho oculto da madrugada A luz rasgando a névoa escura E o detalhe sutil da sombra raptada Farei o ouvido escutar O eco calmo do vento em prece O som do mar que a praia beija E o suspiro que o mundo esquece Farei a língua saborear O amargo denso de cada perda O mel constante do que é vivido E a gota doce que peito despeita Farei a pele tatear O relevo frio da rocha dura O arrepio leve da brisa fina E a água a derreter férrea apedregulha Farei o nariz cheirar A terra molhada de chover rapsódia O rastro aceso do café matino E o cheiro do tempo que se renova Farei a visão ver Farei o ouvido escutar Farei a língua saborear Farei a pele tatear Farei o nariz cheirar Farei a visão contemplar Farei a visão admirar Farei a visão sonhar Farei o ouvido perceber Farei o ouvido enaltecer Farei o ouvido gemer Farei a língua o glamour Farei a língua um monsieur Farei a língua múrmur Farei a pele sentir Farei a pele vacante ruir Farei a pele riso e rir Farei o nariz de prazer algoz Farei o nariz pólen atroz Farei o nariz modesto a sós Farei de todo sentido o meu corpo a nós

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Ritual

Minhocálux

Sob a escuridão que dorme nas dobras O sol ilumina as abdutoras sobras A tarde derrete-se, amena e meiga Tornando-se uma bola de manteiga Ao ver a luz que atrai e sensual corteja E elas deserdam o chão, pois lhe beija Contra o mal que a via esgota e sufoca Vem a ivermectina de asfalto em rota Para cobrir buraco de minhoca Que cresce, devora e nunca se esgota O chão de asfalto no escuro se encerra Abrindo o abismo no meio da terra Onde a minhoca do tempo jamais erra E a própria luz contra a sombra faz guerra Mas o sol verte o seu caldo bem quente Selando a fenda da negra serpente Cura a ferida até estrada à nossa frente E faz o asfalto brilhar reluzente

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Crença

Lustrocracia

Tem muita roupa engomada Posando de alma elegante E tem muita voz serena Que nem se vê marcante Tem muito salto altíssimo Jurando alcançar o céu E tem muito pé descalço Que pisa firme ainda a ser réu Tem muito relógio caro Achando que controla o tempo E tem muito olhar profundo Que enxerga além do momento Tem muito discurso longo Que não diz nada de verdade E tem muito silêncio sábio Guardando mundos de vontade Tem muito brilho de vitrine Que some ao apagar da luz E tem muita estrela discreta Guiai caminhos que ninguém traduz Tem muita lata polida Reluzindo ao sol da tarde Se achando carro do ano Cheia de pose e alarde Exibe o verniz brilhoso Puramente maquiada Mas se pegar a subida Não serve pra quase nada Enquanto a máquina forte Com o motor de primeira Trabalha no anonimato E roda a vida inteira Não busca nenhum holofote Nem vive de ostentação E nem percebe a grandeza Que guarda no coração

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Milagre

O Euconhecido

É apenas alguém que eu costumava conhecer Um rosto comum cruzando a calçada, o tijolo, sem pressa Cujo nome a memória deixou ao lado olá e belê Uma vaga figura que nem mais ou menos, me interessa É apenas alguém que eu costumava conhecer Que dividia comigo a risada, o tristonho e o segredo O abraço leal a não deixar ofício nem mesmo lazer E a cúmplice voz quer espantar minha fragrância, ó fedo É apenas alguém que eu costumava conhecer Parceiro dentre pactos, de contas e do, sim, ambicioso Com quem construí torres, e as vi erguerem colos até quem Dividindo o trabalho num mesmo vis-à-vis pedregoso É apenas alguém que eu costumava conhecer Que ardia em meus braços nas noitadas dançantes até febre Cujo toque fazia o meu corpo morango, aposto, quem quer Mas cuja lembrança a poeira hoje moveu-me os frutos disserem É apenas alguém que eu costumava conhecer A quem dediquei o desprezo com todo possível rancor Um nome que a língua prefere o charme cuspir desprazer O alvo perfeito de todo errante flecha à Culpidor Mas me encaro no vidro ao final da jornada E vejo o engano em cada projeção que criei Não há um segundo nesta sala tão calada Não há outro amigo, nem sócio, nem quem odiava O conhecido, o amante, o rival, sósia e o irmão São todos a imagem que o espelho a si guardou Sou eu este estranho ajuizado perdido no chão Que desentende, ao usá-los ser, é eu quem sou

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Crença

Mamíferros

Banha que ao sol se derrete e ensola na cartola Rumina o ovo em estômago café da manhã Lipídio frito na gordura do bacon Alarga a cintura a parco demolir nêutron A mama busca a fé que ao Narciso sustenta No colostro morno da primeira manhã Instinto sagrado de bicho que mama, ame Fêmea que proclama é a própria oração Mas o ferro vem e marca o medular lombo Ferra o couro, o osso, o sangue, tece a razão Engrenagem fria planta na carne viva Garfo é peso de chumbo na mastigação É puro erro da pretérita evolução Mamíferro preso em sua própria gordura A fé que falha, o ferro que fere, o erro inócuo Espiritual bicho arquimede na arquitetura Fé que escorre da pele transpira areia Movediço erro que dobra sob o toque Erro que insiste em renascer novamente Mamífero que, entre banha e brilho, cói e dói Rumina o próprio credo para creditar

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Ritual

Algologia

Algo é o vulto ancestral do qual o verbo se não, contém Um sopro rarefeito que ao nome sempre marca além Algo é o chão secreto onde o sentido serve, pois esconde Tal como na névoa que ilumina alvos, e despeita drones Algo é renascer vivo em um corpo que já se disseca Renascimento é um cadáver dando luz ao Meca Algo é luz que falha ao tentar ser imagem e pensamento Iluminismo é máquina em burocrático descrendo Algo é passo torto no rito da marcha qual progresso Positivismo é ordem que ao caos presta juros, ingresso Algo é som tardio na escrevivência, de bocejo ao verbo Nominalismo é eco que só nasce quanto o exacerbo Algo é o quase-mundo que o silêncio é som que inaugura Um labirinto obscuro que a dúvida cerceava as ruas Algo é cifra mínima ao abismo que naufrágio persiste Um brilho que se apaga e mesmo assim tem seu aplauso e ouvinte Algo é o fundo oculto onde o tempo degela, e dissolve A sombra que se move quando o real calibra revólver Algo é o que resta quando o todo crê não se desfaz A chama que se dobra e ainda assim é mercúrio, incêndio audaz

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Ritual

Luzúrbia

Desde quando teu nome tornou-se este charme? Dessa dúvida nasceu Luzúrbia A fusão exata entre a tua luz, a nossa luxúria E a fúria cega desta selva urbana É o batismo do nosso desejo no peito da cidade predadora Onde o concreto e a carne sangram sob a mesma chama Nosso amor é caleidoscópio em transe Retratando no ar sombras e cores inomináveis É a própria natureza urbana em estado bruto Um mistério denso, pulsante, indomável Somos como um balão que no chão se enterra Guardando no silêncio uma força subterrânea Que quando estoura, faz o solo tremer até o fundo Sacudindo as latinas placas tectônicas Somos o excesso do bolo vulcão no instante do colapso O contraste visceral no derrame quente de sorvete E tudo o que parecia feito para voar Agora segue na terra imerso, preso ao asfalto que a própria paixão promete Respiramos juntos os gases tóxicos desta erupção Luzúrbia queimando os pulmões a cada respiração O farol que ilumina, consome e eterniza o abismo. Luzúrbia, luxo de gelo pregados no vestido Que não derretem, porque o peito que o veste é Confrigo

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Ordem

Ecofúgio

Salto multipluno e rota exponencial Que guia a mente a um novo e lúgubre destino Pois todo o arco-íris já não é mais divino Mas exibe os seus tons de cinza sepulcral Nem fria torre Eiffel, e o solo advém Zoroastra Jamais é a seringueira em raiz que se alastra Mas é antes a orquídea, aéreo vegetal Que ousa ser trepadeira em vertigem fatal O Ecofúgio é a esquiva em dobra do real Não teme a cinza densa e a noite que ameaça É a linha de escape onde uma ilusão abre asas E ascende no vazio em um voo abissal Na teia de um predador, o êxodo se lança O parasitismo força o exílio no engano E a disputa no nicho expulsa o ser humano Enquanto a migração é fuga de uma dança O corte cirúrgico infecta a reciclagem Toda iatrogenia estraga esta filtragem Na iatrogenia social e estrutural A própria cura é a dor ao cirúrgico mal

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Obediência

Fenomenópole

Fenomenópole Nós temos diferentes doenças Mas fruímos a mesma cura com Exatamente os mesmos remédios Circulamos pela mesma febre urbana Procurando curas que se anulam Na poeira, estrada de barro Como se uma única cura fosse o rachado espelho Virados para lados distintos do céu Enquanto a cidade cresce E o túnel do trem soa Uns quaisquer buracos de minhoca O espaço se dobra sobre o ferro incandescente Engolindo a pressa em desvios do planejamento De tal forma que o tempo hesita E a bússola, silenciosamente, aponta meu não desejo Meu teto se expande e contrai, Um arranha-céu curvado Cuja raiz se alastra, torneando risco no chão Rasgando o concreto em busca de aprumo Enquanto a estrutura se curva à gravidade O próprio chão é um pulmão cancerígeno Arfando, engolindo, a arquitetura do mundo Trovoadas dançam no paço municipal Mas é o raiar do violeta Raio quem marca a incógnita Do próprio fenômeno Desnudando a praça em lampejos frios De uma meteorologia incalculável Equação que ninguém resolve Pois pulula batidas do coração E definha tão pragmática quanto Um milonga no qual quem dança é número Sob a luz fracionada dos faróis Tecemos o fluxo da multidão Idas sem cumprimentos, e Voltas sem despedidas Tudo retorna, retirando-se Nada se anuncia, vem mundo Vai sem rosto... Fenomenópole Ruim barroco

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