Vamos proibir o proibível
Que a lei conheça seu contorno
Sem vestir a máscara do medo
Nem converter prudência o morno
Vamos permitir o permissível
Que o confundir liberdade e abandono
Sem fazer da ausência de barreira
Uma ponte travessia ao medonho
Vamos amar o amável
Como quem reconhece a luz da tarde
O gesto simples dos que ficam
E a beleza que jamais se faz covarde
Vamos odiar o odiável
Como crueldade que humilha os frágeis
A mentira que se faz virtude
E os triunfos moralmente braquio
Vamos tolerar o tolerável
Pois nem toda diferença é ameaça
Nem todo desacordo é abismo
Quando o respeito retém mordaça
Vamos resistir ao resistível
Pois hábitos que nos diminuem
Nem às correntes que pedem silêncio
Quando os grilhões diluem nuvens
Vamos preferir o preferível
O caminho menos vaidoso
A palavra mais verdadeira
E o bem discreto da ousadia em gozo
Vamos guerrear o guerreável
Sem paixão pelas batalhas
Mas com firmeza necessária
Diante das velhas paredes, se atalha
Vamos renunciar o renunciável
Por excesso que pesa porque aguarda
Roubando as certezas que nos cegam
Vem a pressa que rouba a calma
E quando tudo tiver sido dito
Restará ainda o inevitável
Viver o que não tem decreto
Sofrer o que não tem remédio
e amar o que não é dê certo
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Farei a visão ver
O brilho oculto da madrugada
A luz rasgando a névoa escura
E o detalhe sutil da sombra raptada
Farei o ouvido escutar
O eco calmo do vento em prece
O som do mar que a praia beija
E o suspiro que o mundo esquece
Farei a língua saborear
O amargo denso de cada perda
O mel constante do que é vivido
E a gota doce que peito despeita
Farei a pele tatear
O relevo frio da rocha dura
O arrepio leve da brisa fina
E a água a derreter férrea apedregulha
Farei o nariz cheirar
A terra molhada de chover rapsódia
O rastro aceso do café matino
E o cheiro do tempo que se renova
Farei a visão ver
Farei o ouvido escutar
Farei a língua saborear
Farei a pele tatear
Farei o nariz cheirar
Farei a visão contemplar
Farei a visão admirar
Farei a visão sonhar
Farei o ouvido perceber
Farei o ouvido enaltecer
Farei o ouvido gemer
Farei a língua o glamour
Farei a língua um monsieur
Farei a língua múrmur
Farei a pele sentir
Farei a pele vacante ruir
Farei a pele riso e rir
Farei o nariz de prazer algoz
Farei o nariz pólen atroz
Farei o nariz modesto a sós
Farei de todo sentido o meu corpo a nós
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Sob a escuridão que dorme nas dobras
O sol ilumina as abdutoras sobras
A tarde derrete-se, amena e meiga
Tornando-se uma bola de manteiga
Ao ver a luz que atrai e sensual corteja
E elas deserdam o chão, pois lhe beija
Contra o mal que a via esgota e sufoca
Vem a ivermectina de asfalto em rota
Para cobrir buraco de minhoca
Que cresce, devora e nunca se esgota
O chão de asfalto no escuro se encerra
Abrindo o abismo no meio da terra
Onde a minhoca do tempo jamais erra
E a própria luz contra a sombra faz guerra
Mas o sol verte o seu caldo bem quente
Selando a fenda da negra serpente
Cura a ferida até estrada à nossa frente
E faz o asfalto brilhar reluzente
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Tem muita roupa engomada
Posando de alma elegante
E tem muita voz serena
Que nem se vê marcante
Tem muito salto altíssimo
Jurando alcançar o céu
E tem muito pé descalço
Que pisa firme ainda a ser réu
Tem muito relógio caro
Achando que controla o tempo
E tem muito olhar profundo
Que enxerga além do momento
Tem muito discurso longo
Que não diz nada de verdade
E tem muito silêncio sábio
Guardando mundos de vontade
Tem muito brilho de vitrine
Que some ao apagar da luz
E tem muita estrela discreta
Guiai caminhos que ninguém traduz
Tem muita lata polida
Reluzindo ao sol da tarde
Se achando carro do ano
Cheia de pose e alarde
Exibe o verniz brilhoso
Puramente maquiada
Mas se pegar a subida
Não serve pra quase nada
Enquanto a máquina forte
Com o motor de primeira
Trabalha no anonimato
E roda a vida inteira
Não busca nenhum holofote
Nem vive de ostentação
E nem percebe a grandeza
Que guarda no coração
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É apenas alguém que eu costumava conhecer
Um rosto comum cruzando a calçada, o tijolo, sem pressa
Cujo nome a memória deixou ao lado olá e belê
Uma vaga figura que nem mais ou menos, me interessa
É apenas alguém que eu costumava conhecer
Que dividia comigo a risada, o tristonho e o segredo
O abraço leal a não deixar ofício nem mesmo lazer
E a cúmplice voz quer espantar minha fragrância, ó fedo
É apenas alguém que eu costumava conhecer
Parceiro dentre pactos, de contas e do, sim, ambicioso
Com quem construí torres, e as vi erguerem colos até quem
Dividindo o trabalho num mesmo vis-à-vis pedregoso
É apenas alguém que eu costumava conhecer
Que ardia em meus braços nas noitadas dançantes até febre
Cujo toque fazia o meu corpo morango, aposto, quem quer
Mas cuja lembrança a poeira hoje moveu-me os frutos disserem
É apenas alguém que eu costumava conhecer
A quem dediquei o desprezo com todo possível rancor
Um nome que a língua prefere o charme cuspir desprazer
O alvo perfeito de todo errante flecha à Culpidor
Mas me encaro no vidro ao final da jornada
E vejo o engano em cada projeção que criei
Não há um segundo nesta sala tão calada
Não há outro amigo, nem sócio, nem quem odiava
O conhecido, o amante, o rival, sósia e o irmão
São todos a imagem que o espelho a si guardou
Sou eu este estranho ajuizado perdido no chão
Que desentende, ao usá-los ser, é eu quem sou
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Banha que ao sol se derrete e ensola na cartola
Rumina o ovo em estômago café da manhã
Lipídio frito na gordura do bacon
Alarga a cintura a parco demolir nêutron
A mama busca a fé que ao Narciso sustenta
No colostro morno da primeira manhã
Instinto sagrado de bicho que mama, ame
Fêmea que proclama é a própria oração
Mas o ferro vem e marca o medular lombo
Ferra o couro, o osso, o sangue, tece a razão
Engrenagem fria planta na carne viva
Garfo é peso de chumbo na mastigação
É puro erro da pretérita evolução
Mamíferro preso em sua própria gordura
A fé que falha, o ferro que fere, o erro inócuo
Espiritual bicho arquimede na arquitetura
Fé que escorre da pele transpira areia
Movediço erro que dobra sob o toque
Erro que insiste em renascer novamente
Mamífero que, entre banha e brilho, cói e dói
Rumina o próprio credo para creditar
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Algo é o vulto ancestral do qual o verbo se não, contém
Um sopro rarefeito que ao nome sempre marca além
Algo é o chão secreto onde o sentido serve, pois esconde
Tal como na névoa que ilumina alvos, e despeita drones
Algo é renascer vivo em um corpo que já se disseca
Renascimento é um cadáver dando luz ao Meca
Algo é luz que falha ao tentar ser imagem e pensamento
Iluminismo é máquina em burocrático descrendo
Algo é passo torto no rito da marcha qual progresso
Positivismo é ordem que ao caos presta juros, ingresso
Algo é som tardio na escrevivência, de bocejo ao verbo
Nominalismo é eco que só nasce quanto o exacerbo
Algo é o quase-mundo que o silêncio é som que inaugura
Um labirinto obscuro que a dúvida cerceava as ruas
Algo é cifra mínima ao abismo que naufrágio persiste
Um brilho que se apaga e mesmo assim tem seu aplauso e ouvinte
Algo é o fundo oculto onde o tempo degela, e dissolve
A sombra que se move quando o real calibra revólver
Algo é o que resta quando o todo crê não se desfaz
A chama que se dobra e ainda assim é mercúrio, incêndio audaz
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Desde quando teu nome tornou-se este charme?
Dessa dúvida nasceu Luzúrbia
A fusão exata entre a tua luz, a nossa luxúria
E a fúria cega desta selva urbana
É o batismo do nosso desejo no peito da cidade predadora
Onde o concreto e a carne sangram sob a mesma chama
Nosso amor é caleidoscópio em transe
Retratando no ar sombras e cores inomináveis
É a própria natureza urbana em estado bruto
Um mistério denso, pulsante, indomável
Somos como um balão que no chão se enterra
Guardando no silêncio uma força subterrânea
Que quando estoura, faz o solo tremer até o fundo
Sacudindo as latinas placas tectônicas
Somos o excesso do bolo vulcão no instante do colapso
O contraste visceral no derrame quente de sorvete
E tudo o que parecia feito para voar
Agora segue na terra imerso,
preso ao asfalto que a própria paixão promete
Respiramos juntos os gases tóxicos desta erupção
Luzúrbia queimando os pulmões a cada respiração
O farol que ilumina, consome e eterniza o abismo.
Luzúrbia, luxo de gelo pregados no vestido
Que não derretem, porque o peito que o veste é Confrigo
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Salto multipluno e rota exponencial
Que guia a mente a um novo e lúgubre destino
Pois todo o arco-íris já não é mais divino
Mas exibe os seus tons de cinza sepulcral
Nem fria torre Eiffel, e o solo advém Zoroastra
Jamais é a seringueira em raiz que se alastra
Mas é antes a orquídea, aéreo vegetal
Que ousa ser trepadeira em vertigem fatal
O Ecofúgio é a esquiva em dobra do real
Não teme a cinza densa e a noite que ameaça
É a linha de escape onde uma ilusão abre asas
E ascende no vazio em um voo abissal
Na teia de um predador, o êxodo se lança
O parasitismo força o exílio no engano
E a disputa no nicho expulsa o ser humano
Enquanto a migração é fuga de uma dança
O corte cirúrgico infecta a reciclagem
Toda iatrogenia estraga esta filtragem
Na iatrogenia social e estrutural
A própria cura é a dor ao cirúrgico mal
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Fenomenópole
Nós temos diferentes doenças
Mas fruímos a mesma cura com
Exatamente os mesmos remédios
Circulamos pela mesma febre urbana
Procurando curas que se anulam
Na poeira, estrada de barro
Como se uma única cura fosse o rachado espelho
Virados para lados distintos do céu
Enquanto a cidade cresce
E o túnel do trem soa
Uns quaisquer buracos de minhoca
O espaço se dobra sobre o ferro incandescente
Engolindo a pressa em desvios do planejamento
De tal forma que o tempo hesita
E a bússola, silenciosamente, aponta meu não desejo
Meu teto se expande e contrai,
Um arranha-céu curvado
Cuja raiz se alastra, torneando risco no chão
Rasgando o concreto em busca de aprumo
Enquanto a estrutura se curva à gravidade
O próprio chão é um pulmão cancerígeno
Arfando, engolindo, a arquitetura do mundo
Trovoadas dançam no paço municipal
Mas é o raiar do violeta
Raio quem marca a incógnita
Do próprio fenômeno
Desnudando a praça em lampejos frios
De uma meteorologia incalculável
Equação que ninguém resolve
Pois pulula batidas do coração
E definha tão pragmática quanto
Um milonga no qual quem dança é número
Sob a luz fracionada dos faróis
Tecemos o fluxo da multidão
Idas sem cumprimentos, e
Voltas sem despedidas
Tudo retorna, retirando-se
Nada se anuncia, vem mundo
Vai sem rosto... Fenomenópole
Ruim barroco
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