Breno Pitol Trager @Reorgio
Crença

Lustrocracia

Tem muita roupa engomada Posando de alma elegante E tem muita voz serena Que nem se vê marcante Tem muito salto altíssimo Jurando alcançar o céu E tem muito pé descalço Que pisa firme ainda a ser réu Tem muito relógio caro Achando que controla o tempo E tem muito olhar profundo Que enxerga além do momento Tem muito discurso longo Que não diz nada de verdade E tem muito silêncio sábio Guardando mundos de vontade Tem muito brilho de vitrine Que some ao apagar da luz E tem muita estrela discreta Guiai caminhos que ninguém traduz Tem muita lata polida Reluzindo ao sol da tarde Se achando carro do ano Cheia de pose e alarde Exibe o verniz brilhoso Puramente maquiada Mas se pegar a subida Não serve pra quase nada Enquanto a máquina forte Com o motor de primeira Trabalha no anonimato E roda a vida inteira Não busca nenhum holofote Nem vive de ostentação E nem percebe a grandeza Que guarda no coração

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