O dia passou, lento, chuvoso e gelado
O mais tenebroso dos meus, o último que eu carrego...
Uma chave. Um peso atrás da porta. Um bilhete de quem foi um peso na vida:
"Eu sou quem nada conquistou...
Sou o que eu mais odeio, sou quem eu sonho em matar.
Eu sou o que fulmina com o olhar aquele que se assemelha à mim.
Eu sou o filho que fica na sombra dos cantos nas festas, sou a criança crescida com rancor, sou o sorriso que odeia, porque sabe que nada tem a dar.
Eu, o ignorante, que teve suas questões ignoradas, e suas frases desprezadas com largos sorrisos de pena...
Sou mais um calabouço humano que cada vez mais evita falar para não se sentir burro...
Eu quero ser apenas a sombra no escuro.
Este é o último dia que eu carrego.
Mãe...
Eu era a criança anormal que odiava o Batman mas adorava os morcegos...
Que odiava piadas por não poder endende-las mas adorava ouvir o Curinga contar...
Ah mãe você vai enlouquecer...
Eu sempre fui meio errado, até para falar...
Além de ser pequeno, magro e feio.
Eu nunca soube fazer nada!
De todos os cinco, sou o mais fraco...
O mais invejoso, o mais medroso, e o da vingança mais mortal no coração...
Sou o que mais teve sangue nos olhos e seu amor nas mãos... Eu te desgastei mãe, sim, só lhe dei tristezas e dores aos teus seios...
E queres saber quantos sorrisos eu dei hoje, mãe? Para ti? Nenhum! Mas, mil para quem eu odeio. O que há comigo?
Eu amava receber teu sorriso sincero...
Mas, meu sorriso se tornou uma ameaça quando passou a odiar quem podia sorrir...
Mas agora, nem você?
Debaixo das cobertas eu falo a sós com meu demônio, só aqui eu sei quem realmente sou e o que quero no fundo da alma...
Ah mãe, seu filho pródigo fará uma longa viagem...
Eu estou olhando para o cinto da minha calça, como venho fazendo há tempos...
A maçaneta estará emperrada pela manhã...
A chave do meu quarto está do lado de fora...
Empurrem a porta com força...
Bom dia, família"
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Vendo a cor do céu azul
junto com as nuvens
por um preço bem barato
Chegou o dia de partir
Nada sobra então aqui
Só a poeira do meu quarto
Não, não posso mais ficar!
A realidade vai chegar
Tão fiel quanto um retrato
Balões de ar, com balas coloridas
As saudades e as lembranças
Não suportação os fatos
E eu também não...
Eu também não...
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Eis o arranhão...
Eis a última ferida...
Eis a voz da última despedida,
à despedir-se da dor...
Eis as duas faces,
que se encontram com pavor...
Eis, em dois olhares inocentes, carentes de si eternamente, as pupilas que se dilatam e se despedem...
Uma cresce, outra, esmorece,
agora, e para todo o sempre,
amém...
O olhar que seca, é um olhar que já chorou.
O olhar que chora, será um olhar que já passou.
E será logo...
...
Em meio a esta história, e a todo este caos, se libertam as palavras que nunca atravessaram os ouvidos dos mortos, nem quando vivos, enquanto desce, insolente a tampa do caixão...
Daí, percebemos que não ter dito e feito, será a dor que iremos carregar para sempre...
As mais profundas declarações, se ditas aos tímpanos viventes, ou por meio das íris, quando cintilavam vivas, seria a maior afronta ao compromisso de amar...
Seria a maior doação humana, a do coração, da alma...
Isso é péssimo!
Então, nos calamos à vida que há ao nosso redor...
Pois se formos dados como cegos, surdos e mudos, nada o coração verá, e o que não vêem os olhos, não sente o coração...
Nenhuma coragem nos será exigida. Que se exige das deficiências?
Já somos... deficientes.!
Propositais...
Escondendo o coração, da dor, nos fingimos de inúteis para não nos exigido de nós, à vida, alguma prova de amor...
Já somos... mortos! Fingidos...
Para que nos livremos do desconforto da coragem, e do compromisso que é amar. Amar o que esta perto, é o perto que nos exige...
Mas, ainda assim, nada se exige do morto...
Morto! De conforto...
No fim da história,
dirão os que se fizeram cegos:
"Morte à tudo o que não podemos enxergar!
E viva o triste ciclo sem sentido da humanidade, e que não se pergunte mais o que é amor, porque ele simplesmente não existe!"
"Viva à morte..."
Rafael Selassie
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Que a felicidade vêm da erva dos campos, das frutas dos pomares, das ondas dos cogumelos que me revelam o divino. Acreditar em um Deus me deu o mundo para que eu desfrute dele, e me deu ao mundo para que o mundo desfrute de minha bondade...
E que nada nele é cruel...
Queria acreditar que Deus me deu a mulher, esta fruta da carne que como todos os dias, de todas as formas, e gostos, de que me alimento de sua seiva infinita, à cada dia mais faminto e as vezes sou eu, quem, por ela, é devorado...
Mas não destruído.
Eu queria acreditar que Deus deu estas frutas à todos, mas também distribuiu igualmente dentes lábios e língua para o desfruto geral deste doce paladar...
Mas não na injustiça.
Eu queria acreditar que a culpa não está em Deus, mas sim, em nós que o acusamos da desgraça dos famintos, para nos livrarmos do incômodo que é acudi-los.
Porque nunca nos levantamos para dar de comer nem ao nosso vizinho.
Eu queria acreditar, que o amor ao próximo é maior que o amor ao distante...
Eu queria acreditar que o que falta para isto é pararmos de culpar Deus por tudo, e fazermos nossa parte, sermos anjos de alguém, sermos anjos caídos, anjos feridos e as vezes quase mortos pela falta de esperança...
Eu queria acreditar que sou a esperança, e que dando o que sou, haverá mais de mim...
E queria acreditar que culpar o bom Deus é a verdadeira omissão assassina, de quem podendo ser anjo, resolveu assistir os demônios...
E que se Deus acabasse com os demônios, talvez as pessoas que eu amo, não mais estivessem ao meu redor...
Eu queria acreditar que realmente acredito.
Rafael Selassie
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Tu me procuras, como eu te procuro
Mas nós não nos achamos...
O mundo se mostra sem cores sem nós,
mas conosco, se torna o arco íris numa folha de cânhamo...
Tu és minha tinta, e eu, teu pincel.
O mundo é nossa tela, que pintamos nosso céu...
Nós queremos, merecemos se encontrar. Mas, a cada dia, desaparecemos de si...
Nós não sabemos se o que nos falta é sorte, ou se nós sofremos do excesso do mal que nos faz pensar na morte, numa outra dimensão, nalgum outro milharal, tendo um Deus que nos abençoe e nos deixe na distância suficiente para um "olá"
Sei que preciso te procurar, nesta nova dimensão, onde tudo é equilibrado, onde nós dois somos desconhecidos, mas, interligados fazendo parte de uma mesma energia, compartilhando nossos corações quebrados...
Sei que dos sorrisos roubados que tivemos, ainda guardamos tantos para nós, e eu já te amo sem te tocar...
A nossa alma se conhece antes da fundação do mundo, meu amor...
Aqui de cima, neste balão de ar quente, escrevo esta carta com o mais puro amor que se pode produzir neste alambique da alma, que me esquenta e me filtra o coração para te dar de beber o vinho do amor, para que nos entorpeçamos e gozemos dessa eternidade inexplicável....
Eu lanço esta carta pelos ares...
ela passeia pelos campos e pomares, regada pelo amor que o sol tem pela terra, os beija flores a guiam, as abelhas a adoçam, as borboletas as colorem, as ervas a perfumam, os cogumelos à entorpecem, e a transformam no meu próprio amor, louco, faminto, saboroso, contagiante, transcendente, que irá encontrar quem me procura, que lhe fará achar-me e servirá para secar tuas lagrimas de tua amargura enquanto choras o que deveria ser eterno...
Toda a energia que equilibra a natureza, e centraliza os polos desta bola, se concentra na direção desta carta até ti, minha mais bela e formosa criatura humana... Apenas para que saibas que eu existo, e que vivas a vida nas cores da esperança de me encontrar...
Mais uma vez nos cruzamos, sem nos perceber, sem nos darmos conta, sem um contato sequer...
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Eu voltei correndo praquela esquina,
naquele cruzamento dos semáforos
onde ossos e vidros se partiram...
Voltei para procurar a palavra que o vento levou, enquanto eu dirigia e ajeitava as suas franjas do cabelo.
Mas nunca as encontrei...
Eu voltaria, se pudesse, as muitas páginas do calendário
apenas para avisar a mim
que o nosso tempo passou e que só darei conta quando ele já houver passado...
Se o tempo não fosse tão cruel,
eu gritaria para todo meu cosmos, para que não desistisse das cartas de amor, e me aconselharia da importância de relevar algumas coisas,
e perdoar com o "Eu te amo" mais verdadeiro...
Eu imploraria para que eu não jogasse as rosas pela estrada...
E para que não pisasse com tanta raiva naquele acelerador...
Ah...
Sua lágrima em meu rosto secou junto com o rio onde eu colhia suas flores...
E o vento arrancou o banco onde a lua iluminava nosso silêncio, e também levou aquelas palavras que eu nunca lhe disse...
Eu imagino você aqui hoje.
Dez anos mais madura...
Sozinha na cama fria...
Olhando para o escuro
com outro olhar para tudo...
Enterrada pelos pinheiros da alma,
percebendo que não sobraram nem sombras do que fomos...
Me ouvindo chegar do trabalho, nesta mesma data dos anos, com a mesma garrafa de vinho de sempre...
Ah, se o tempo não fosse tão cruel...
Hoje eu passei pelos nossos antigos amigos,
e ouvi entre sussurros aglomerados o seu nome.
Fiquei trêmulo...
Sinto seu sangue quente nos braços,
suas entranhas mais íntimas entre meus lábios famintos,
sinto suas artérias pularem dentro da minha carne, teu amor carnívoro e teu ódio mais perverso a me devorar por dentro e me culpar por tudo o que aconteceu...
E assim, me arrebato a passos largos...
Com o cérebro confuso e perdido...
E, ao ritmo do coração, eu fujo,
como cavalo selvagem ferido...
Mesmo fugindo de ti, meu maior medo
é sumir dos seus olhos rumo a um pasto de ilusões...
Rafael Selassie
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— Por quê andas descalço neste templo de pedra? Teus calcanhares e joelhos estagnam-se de dor. Ao teu encalço vem o calor que te enfebra, quando ouves o vocal falso deste clero que celebra, a festa no cadafalso, a ceia do Senhor! Serias tu? Mais um órfão de Deus e da humana natureza?
Pois já tens a doutrina por madrasta e da graça que lhe basta, esta mesma te castrou.
Serias tu? Mais um gêmeo separado da grandeza, o gene do tumulto na "igreja", um traidor oculto do livre arbítrio e indulto que Ele te deixou?
—Que seja!
—Como o juiz escravizado pela lei, tu és, réu infiel a ser punido pela grei, reduzido a ser minério de cifrões dominical, e se tu não fores dizimista mensal, agora serás tu o dizimado pelo Rei...
—Deus me fez ouro, serei pedra deste templo!
—Deus nos fez alma...
Rafael Selassie
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—És tu o ser miserável que salga teus poemas com tuas ruínas diárias?
O derrotado que nunca travou uma batalha? Quando decidirás tua vida, óh homem covarde? Levanta-te e lê o que a vida escreveu na carapaça de teus sonhos irresponsáveis! Óh, poeta de nada!
Quão maior fracasso na vida mais improdutivos são teus versos melancólicos, apartados de tua real existência vitimista que lhe atrofia a alma neste casco de covardice que tu se resumiu. Tu compõe alguns poemas, não de tua própria vida ou história, mas das memórias do ser que tanto invejas. Transformando teu desgosto em palavras digitais, em poesias que são substituídas dia após dia por outras da mesma sintonia, estas, nunca retiradas do sulco da experiência da vida ou em gozo nas realizações táteis, mas das misérias ficcionais novelescas, tais quais pelos teus neurônios convertidas em baboseiras românticas em que tu, "autor", foi incapaz de criar uma conexão de almas, pois falta verdade, falta a ti e falta a tua alma!
Quanto tempo ainda pensa que lhe resta, óh jovem cágado humano, deste ponto até a realização de teus sonhos? Quantos de teus dias, poemas e lágrimas serão pelo que tu fizeste e não pelo que tu sonhaste?
Óh, poeta que nunca viveu e muito escreveu, o mundo está farto de ti! Por quê tanta vergonha? Por quê praticas a bondade com ódio? Por quê mendigas para o mundo enquanto olha-os de baixo e deseja que caiam sobre seu próprio crânio?
Óh, ser que pensa ser o pior dos piores, e por assim pensar, assim profetiza e acabará sendo pelo resto de tua existência! Os maus se aproveitam de ti, a sorte se afugenta, o amor não te descobre pois a tua memória é curta e burra com teus erros. Não aprendeste a amar, não aprendeste o amor ao próximo, não aprendeste a perdoar, e por isso não sabes quem és. Você naufragou num mar de palavras.
Óh ser mais minúsculo, alma tão desnutrida, de sorriso magro de óbvias dores, nem Deus se compadece de ti, pois tu, após este conselho tratarás apagar as memórias, se acovardarás em teu casco e dirás que o mundo que não te entende.
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Você, os anos, e ele.
Para ele, o eterno era perfeito.
E sempre seria.
Ele vislumbrou, aos vendavais de lágrimas, os astros celestes que o fizeram rodopiar
naquele céu púrpura.
As luas brilhavam, não mais trazendo tua sombra. Os ventos ventavam não mais trazendo o teu perfume.
O tempo passava, nunca lhe tornando inteiro. E nunca se desculparam por isso...
Ele perdeu a voz, e agora, seu olhar clamava aos céus indagando como algo tão perfeito, não poderia ser eterno...
Por uns tempos,
os astros seguiram normalmente, sem trazer noites insólitas entre as milhares de noites cotidianas.
E como num pedido tardio de desculpas,
depois de sabotar todos os caminhos para tua direção, vocês se encontraram novamente.
Contornados pelos astros constrangidos, pelos vagalumes de chama da lareira que sacrificou sua madeira com suas riscas e fagulhas à púrpura da noite, para que tudo fosse perfeito e eternizado.
Enfim, estavam lá.
Você. Os anos. Ele.
Juntos pelos astros.
Ligados pelos olhares.
O tempo não corria desta vez.
Parou para assistir uma última transmissão de memórias calorosas, os suspiros trêmulos e as milhares pulsações de duas almas famintas de si.
Parou para ouvir as notas de amor apaixonadas, e provar os sabores do início de tudo, da infância da paixão que estava nos beijos com sorrisos, das carícias com a ponta dos dedos que arrepiam nos poros, e lembrar de tudo mais o que deveria ser eterno...
Tudo dentro de dois olhares paralisados.
Dentro de dois corações explodidos.
E o tempo acordou a dor do fim, muita dor, mais do que poderiam algum dia supor que sentiriam abaixo daquelas estrelas...
Tudo isto aconteceu, já na estrada da saudade, quando duas almas eternas, dois corpos mudados, juntos pelos astros, foram separados pela distância do mundo...
Quando isto aconteceu, já era tarde demais...
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Quem nunca pecou?
Diante da carne que implora
após meia vida que chora,
presa, perdida em escrúpulos?
Foi cedo o calor humano
perdido em véus e panos
papéis e contratos...
Foi tarde, a antiga vida
de pureza mentida
e apego aos retratos...
Rafael Guerra Peixe
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