OS RELÓGIOS NOS COMEM
De Nulla_vox, ou "rochedo rocha", um heterônimo:
Os relógios nos comem,
Sem garfos e sem facas,
Sem dentes e sem línguas,
Sem bocas.
E, por fim, nos defecam
No vaso sanitário da inexistência;
E, às vezes, sem misericórdia,
Dão a descarga do esquecimento,
Fazendo-nos cair na vala
Onde o ser já não existe,
E muito menos é lembrado.
O relógio, preso na parede,
Não pode se mover, estático;
Mas a realidade sempre se movimenta,
Porque os ponteiros dançam...
Uma dança corrosiva.
Teu caixão, polido de ouro,
É mais valioso e resistente;
O meu, feito de madeira,
É frágil e não vale nada.
Mas olha que belo:
Apodreceremos.
O verme não escolhe carne,
O relógio também não!
Então celebre, plebeu!
A vida pode ser desigual,
Uma pena injusta.
Mas a morte é o que nos une!
A igualdade que tantos desejam,
Uma pena justa e inevitável.
A vida é uma ironia,
A morte, uma hipérbole,
E, no fim, existir ou inexistir
É sempre uma cacofonia,
Um erro e uma ambiguidade.
Continuar lendo
Quatro paredes cinzentas.
Algumas rachaduras.
Uma pradaria sem fim.
Um chão cinzento.
Não adianta varrer,
A sujeira nunca acaba.
Um telhado vermelho,
Lar de outras casas:
Estas, de aranhas.
Uma porta amarela
— Pelo menos era.
As goteiras do teto a desbotaram.
Um tapete mofado,
Suja os pés e os sapatos,
Beijou o chão e não quer parar.
Uma janela de vidro,
Sempre embaçada.
O céu sempre chora.
Uma lâmpada velha,
Está com icterícia,
E quase caindo.
Uma cama no centro,
Aquelas de mola,
Que machucam as costas.
Um guarda-roupa,
Que guarda cabides
E um pouco de mofo.
Uma estante grande,
Está muito pesada,
Pesada de poeira.
Este é o meu quarto,
Ele dorme em mim,
E não consigo sair dele.
— NULLA VOX
Continuar lendo
As águas encostavam-se
Sobre as minhas costas,
Como as águas salgadas
Que desgastam as costas rochosas.
As águas encostavam-se
Sobre os meus olhos,
Como as gotas salgadas
Que pesam mais que as águas do mar.
As águas encostavam-se
Sobre os meus lábios,
Como as águas doces
Que beijam o musgo verdejante.
Eu sou uma nuvem no céu
Ou uma espuma no mar?
Não faz muita diferença:
O azul sempre me dissolve.
— NULLA VOX
Continuar lendo
Não sei. Não sei o que sou.
Talvez eu seja um talvez:
um poeta desajeitado,
um verso inacabado,
uma métrica irregular,
uma rima ausente,
uma estrofe sem versos,
um poema incoerente.
Talvez eu seja tudo isso
e ainda um pouco mais,
de tudo o que é distorcido.
Mas afinal, o que sou?
Sou um poeta desajeitado?
Um verso inacabado?
Uma métrica irregular?
Uma rima ausente?
Uma estrofe sem versos?
Um poema incoerente?
Um todo distorcido?
Talvez eu não seja nem isso.
Talvez eu seja mais —
mais vazio, mais distorcido.
É essa ausência de sentido,
de cor, de coração, de ser,
que me torna um poeta grande;
não por habilidade ou caráter,
mas por tamanho mesmo.
Meço um poste, afinal —
pois sob meus pés jazem
dezenas de corpos pálidos,
vazios e frios,
cidadãos do coração
arrancados de seu lar.
Talvez eu seja tudo isso,
e ainda um pouco mais,
de tudo o que é distorcido.
Sou uma incógnita indecifrável,
e isso torna-me uma equação
racional, fria, mecânica.
Estou quase convencido —
ou talvez já esteja —
de que sou eterno:
um eterno talvez.
— NULLA VOX
Continuar lendo