Nulla_vox @Nulla_vox

OS RELÓGIOS NOS COMEM!

OS RELÓGIOS NOS COMEM De Nulla_vox, ou "rochedo rocha", um heterônimo: ​Os relógios nos comem, Sem garfos e sem facas, Sem dentes e sem línguas, Sem bocas. E, por fim, nos defecam No vaso sanitário da inexistência; E, às vezes, sem misericórdia, Dão a descarga do esquecimento, Fazendo-nos cair na vala Onde o ser já não existe, E muito menos é lembrado. ​O relógio, preso na parede, Não pode se mover, estático; Mas a realidade sempre se movimenta, Porque os ponteiros dançam... Uma dança corrosiva. ​Teu caixão, polido de ouro, É mais valioso e resistente; O meu, feito de madeira, É frágil e não vale nada. Mas olha que belo: Apodreceremos. O verme não escolhe carne, O relógio também não! Então ​celebre, plebeu! A vida pode ser desigual, Uma pena injusta. Mas a morte é o que nos une! A igualdade que tantos desejam, Uma pena justa e inevitável. ​A vida é uma ironia, A morte, uma hipérbole, E, no fim, existir ou inexistir É sempre uma cacofonia, Um erro e uma ambiguidade. ​

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