O QUE SOU?
Não sei. Não sei o que sou. Talvez eu seja um talvez: um poeta desajeitado, um verso inacabado, uma métrica irregular, uma rima ausente, uma estrofe sem versos, um poema incoerente. Talvez eu seja tudo isso e ainda um pouco mais, de tudo o que é distorcido. Mas afinal, o que sou? Sou um poeta desajeitado? Um verso inacabado? Uma métrica irregular? Uma rima ausente? Uma estrofe sem versos? Um poema incoerente? Um todo distorcido? Talvez eu não seja nem isso. Talvez eu seja mais — mais vazio, mais distorcido. É essa ausência de sentido, de cor, de coração, de ser, que me torna um poeta grande; não por habilidade ou caráter, mas por tamanho mesmo. Meço um poste, afinal — pois sob meus pés jazem dezenas de corpos pálidos, vazios e frios, cidadãos do coração arrancados de seu lar. Talvez eu seja tudo isso, e ainda um pouco mais, de tudo o que é distorcido. Sou uma incógnita indecifrável, e isso torna-me uma equação racional, fria, mecânica. Estou quase convencido — ou talvez já esteja — de que sou eterno: um eterno talvez. — NULLA VOX
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