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@Morangos · desde 2023

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Relógio

Terra molhada, a sede ao sentir de tua boca O desejo a desejar, pele a pele Eu respiro teu respirar Os dedos descobrem cada parte do teu corpo Enquanto desabrocho em tua língua Meus olhos fechados, como um cego Ao contemplar as estrelas Te sussurro e nada se pronuncia Ser e sou um rio a transbordar em meio à enchente Com dois cavalos a cavalgar em meu peito Em meio às pedreiras Mergulhado em minhas águas, te sinto E me despeço ao te devolver nas margens da escura noite. A terra molhada aos teus pés acarinha Um a Deus.

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Tóxico

Respiro fundo na neblina verduosa das suas palavras insistentes, à beira do precipício. Flutuo minhas frases, dissipando — Tóxico. Manipula minhas ações: o vazio, as emoções. Me sinto perdida; não sei onde estou. Ajoelho-me, recolho-me no escuro beco da minha existência. Uma bengala por outra, uma faísca sem vela. Sou mariposa: me queimo na sua luz artificial. Como posso eu mesma me fazer mal? Um dia choro, no outro anseio. Essas correntes são meus cabelos, amarrados ao amor que eu inventei. Como pode alguém precisar do amor alheio para, enfim, se amar? Vou me inundar nas minhas lágrimas de saudade, me purificar — aprender com cada dor e cada lamento. Não preciso de ninguém além de mim mesma.

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Love

Você me deixa louco. Louco de desejo, de amor, de tesão. Eu penso em você preparando seus doces, toda concentrada, linda… e só consigo imaginar te jogando na bancada, te lambendo inteira com gosto de chantilly. Você é minha receita favorita — mistura perfeita de perigo com doçura. E eu quero te provar todos os dias… cada curva, cada suspiro, cada gemido teu sendo só meu. Te quero com o avental e nada por baixo, te virando de frente, te encostando na parede, te olhando fundo e dizendo: ‘Você é minha. Minha confeiteira gostosa, minha mulher vintage, minha Lana del Rey da sacanagem.'

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Vaso

Vazio Fundo tão fundo Incompleto Mar seco Uma faminta Sedenta Carência de Afeto O feto defecado Sem amor Sem o amado Chora sorrindo A ilusão dos abraços Onde está Onde encontro O tal a nado Que me afoga Inconsciente

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Sombra

Ela mira seus olhos Sorri pra tua sombra Come uma laranja azeda Abraçando a fumaça Revira os olhos Todos a param Todos a querem Mas ela quer mais Bebe todo cálice De madrugada na esquina Como uma gata Vigia Imóvel paira A lua revira Teus olhos passeando E se você abrir a porta da garagem E ela estiver? Volta a cabeça vira O corpo fica reto Segue em frente Certo É certo Mas ela quer mais Ela quer amor Quer sorriso Olhar pra frente Engulindo todo infinito

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Amor da minha vida

O amor da minha vida não me agride, Não levanta a voz, não me intimida. O amor da minha vida não poda minhas asas, Não me faz chorar, não me causa desgraças. O amor da minha vida não aponta meus erros, Traz flores diárias, sem medos ou ferros. Quando me visto, elogia com carinho, E ao me ver feliz, sorri como um menino. O amor da minha vida, tão sonhado, Só existe em minha mente.

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Fios

Lábios ao vento, sussurram desejo. Olhares de lado escondem a carne. Mãos unidas, bocas se encontram, salivas se misturam. O pêssego mordido, quente e vermelho contempla a tua face ardente. Fios alongados deslizam as orelhas, corpos escorregam, úmida cereja. São pedras em faíscas, sentimentos desconhecidos. O prazer adormecido no corpo aflora, cresce, ressurge. Sem saber se vale a pena ser vivido ou reprimido de vez.

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Rosa

Céu Estrelado Céu estrelado, Cheiro do mato, A boca mastiga, Comida fresquinha, Um feijão de corda Que acorda a lua dengosa, Iluminando o céu Do cantim. O rio Salteia a sereia, Capivara campeia, O jacaré sorri. A natureza é tão linda, Desde menina brincando Com as formigas, Assoprando as flores A pedidos, Um bolo de areia para mim. Nascimento da Rosa Era uma vez uma planta tão linda, Toda vez que a verdinha Brotava uma flor, Vinha uma mulher malvada E um homem panaca, Arrancando-a fora. A planta chorosa Tentou fugir, Mas as raízes não a deixavam, Com suas lágrimas a regavam, Unindo forças para se defender. Após um tempo, Brotou uma nova flor. Quando vieram as mãos Para o pavor, Se espetaram em espinhos, Fugiram os indivíduos, Mas deixando gotas de sangue. As flores brancas De vermelhas se tornaram Rosa, E assim seu nome Autaditou.

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Lobo solitário

Sou um lobo solitário, Emaranhado em teu colo, Embebedo tua alma, Aperto-a contra meu pescoço. Meus pés ágeis, Agarram e aceleram a inocência, Corro, Fujo. Desprendendo-me para sempre, De ti, Sou um lobo solitário, Outra vez. Amei um, Amei dois, No final, estou Só.

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