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M. Ribeiro

@MRibeiro · desde 2021

"Vão à posteridade as obras-primas". ~Goethe

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A divina comédia do espírito ~ M. Ribeiro

Sinto-me agraciado pela divina comédia; meu anjo, como me traz afago à alma. O espírito, livre, saltitante — saltita, maneja o coração, e apaixona-se pela linda seda — mais claro conforto, suavidade, leveza, olhos espremidos sobre a pele mais quente, onde estabelece-se família, família! É família: meu bem, família com a pele da alva seda da divina, fruto da beleza, da suavidade, tua vida inteira num toque; espíritos fortes, corações nada resignantes. Desejas o quanto puder. Cartas para o futuro, sem consistência: leveza, fluidez. Talvez não me decifre se a tinta esfriar, talvez não entendas meu amor. E essa carta, a que servirá seu destinatário? É solstício, ainda, sinta-se cativado pela lembrança que não é lembrança mesmo — qual é o nome desse sentimento... — ainda caduca. E descobre, sim, um dia, quem sabe, descobre. Geralmente descobre, afirmas para si mesmo: não sei dizê-las. Sente a leveza? Os sentimentos fluem em códigos passageiros, quer morram no vento, quer viajem sob a memória, e cativa. Amor, agora, é a beleza mais pura, olhas para o lago, vês o reflexo?, ali está seu amor. Transborda, perdição, à mim; cativa. De cativeiro, de cativar — cativa-me, fira-me, me mate. Me detenhas mais. Há poucas muralhas ainda, me mantenha ainda mais preso a ti, com sentimentos nauseantes, mal sabea dizer, mas diz, sem entender — e ri — a divina comédia do espírito.

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Do Norte ~ uma peça em versos (apresentação)

Apresentação — Através de poemas eu venho indagar, Homem nenhum foi capaz de negá-lo. Como histórias que aliciam a chegada do mal Nim terras tão longínquas e provectas do solo moderno, Deleitar o "spiritus temporis" à razão de nossa ideação para tentar sentí-lo na mais perfeita ideação do pobre autor. Indagá-lo à obra de tão canhestra maneira Ou indagá-lo à odisséia e brava de tão necessário enredo É tal idêntico a tirar atenção da criança à tevê. É-se necessário o ato. Entre isso não logro a turba, Sei dela e não desejo dela recuar, nem alienar, Enredo tão inalienável e simplório, e também isto, Que usa de linguajar distinto à enriquecer, Não alienar. Ao contrário quer poet'êscritor Fazer-se escutar e entender, não obstante indagar, Tocante a sua elogiosa obra futura; Não obstante o impulso — e compulsório De superá-lo ele a si próprio, desafia a si próprio seu brilhantismo: Quer ser lido sublimemente — e não tornar-se best-seller, Apenas.

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Carnes ~ M. Ribeiro

Carnes. Malditas carnes que somos. Nossa vida, nossa morada: tudo brisa - sabemos disso. Se queremos detê-la, estocá-la, nos tornar anjos tão leves quanto ela, não importa; não pertence a nós. E nós, carnes, em brisa, estamos sozinhos. Em pequenez, nulos: quem sabe, nossa única riqueza.

Poesia

Arranjo de poetas ~ M. Ribeiro

Aquilo que sufoca a paixão chama-se periculosidade, Um poema de pureza e terror, sinônimos: Os infernos abriram portas para o absurdo e o imoral, o tedioso e o seduzente. Arranjo de poetas! Porque atiraram-me em minha percepção, Nausearam-me de tanta razão, abraço o verso. Não quero lucidez; é loucura! Meus poemas surgem do imediato; nunca me leia sem me sentir.

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Insania ~ M. Ribeiro

Da perspectiva de um depravado — ou da perspectiva de um louco — o mundo se tornou pequeno. As pessoas se tornaram vagas; os conceitos, mortos: ou seria o contrário? O verso que condiz com meu poema e que abala as estruturas, não significa nada — sabemos disso. Para suportar nossa razão, nosso maior desprezo, misturamos nossas palavras e embolamos nossos sentimentos; nisso, viramos poetas: nossas verdades, afinal, tornaram-se enigmáticas? No fim, crescemos demais e por isso não vemos graça nesse mundo. Atrozes, egoístas, caluniados, sentimos uma imensa cólera percorrer nossos corpos. Para suportar a sanidade, o filósofo se tornou sábio. O bobo da corte, afim de lamentar a piada do rei, se tornou iconoclasta. Porque hoje nos tornamos loucos. Tanto para conservar a nossa vida, nossa morada, cansamos-nos de tanto decair em sanidade. Em plenitude, não nos tornamos vazios? Em plenitude, verdadeiramente, tornamo-nos vazios: no fim, somos homens gélidos. Há muito não sabemos em que momento chegará nosso ocaso. Na adoração da vida, em apreensão, no fim, no fundo, clamamos por ele — que venha. Este mundo se tornou pequeno.

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Ocaso ~ M. Ribeiro

Homens decadentes: Eles têm medo da gente. Desprezaram toda a vida! Desprezamos sua existência. Que viva monotonia, Em prol da liberdade. Liberdade estraga a farsa, Farsa esconde verdade. E em verdade vos peco: Mentiram para nós! Desprezamos os amadores da vida, Com medo amamos após. Vivemos em decadência, A vida está corrompida. A morte está cheia de deuses, A vida está cheia de mórbidos.

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Do altruísmo como desvirtude ~ M. Ribeiro

Ah, meu maior egoísmo; Este, não louvo, não venero; Se me dizem, não o quero; Se o vejo, o renego: meu egoísmo menos sincero. Digo! Elevação dos pobres; Verdadeiramente, paixão dos idiotas. O altruísta, egoísta bem aceito; Das falsas virtudes, a mais voluptuosa.

O Iminente ~ M. Ribeiro

Mil sóis energizam-se sob consequência de minha consciência; doravante, desempenham mais controle do que eu poderia exercer. Sou a vida de homens mortos e a esperança da posteridade: e sou também o futuro, o passado, aquele que herdou a cultura do homem (!) — e não sou homem; o que sou, pois, ainda, limita-se feito um conceito que ainda é em abstrato, prematuro, zigoto, que ainda é em conceito. Sou uma ideia e uma ruína, uma tragédia e seguidamente uma nova manhã — sou, verdadeiramente, a alegria seguinte daquele que germina seu próprio sol, o objetivo potente da sua potencialidade; que em letras ruins, precárias, pode e diz que será para todos aqueles que o leem o homem do alto, será o iluminado, um radiante — que pode alinhar-se finalmente à morte. Pois, quando morrem os gigantes, tende a fazer tremer o mundo a queda; e ao mesmo tempo que sou o gigante, também sou a queda, a luz, a alvorada, o resplandecer: de novo de novo e incessantemente; de novo.

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Vida

Onde habito ~ M. Ribeiro

Habito um lugar mais frio que a própria neve, e nele, há algo mais quente que o próprio sol. À noite, me congelo em solidão a me esquentar do vento. No dia, me derreto em poesia e desilusão.