Sinto-me agraciado pela divina comédia; meu anjo, como me traz afago à alma. O espírito, livre, saltitante — saltita, maneja o coração, e apaixona-se pela linda seda — mais claro conforto, suavidade, leveza, olhos espremidos sobre a pele mais quente, onde estabelece-se família, família! É família: meu bem, família com a pele da alva seda da divina, fruto da beleza, da suavidade, tua vida inteira num toque; espíritos fortes, corações nada resignantes. Desejas o quanto puder.
Cartas para o futuro, sem consistência: leveza, fluidez. Talvez não me decifre se a tinta esfriar, talvez não entendas meu amor. E essa carta, a que servirá seu destinatário? É solstício, ainda, sinta-se cativado pela lembrança que não é lembrança mesmo — qual é o nome desse sentimento... — ainda caduca. E descobre, sim, um dia, quem sabe, descobre. Geralmente descobre, afirmas para si mesmo: não sei dizê-las.
Sente a leveza? Os sentimentos fluem em códigos passageiros, quer morram no vento, quer viajem sob a memória, e cativa. Amor, agora, é a beleza mais pura, olhas para o lago, vês o reflexo?, ali está seu amor. Transborda, perdição, à mim; cativa. De cativeiro, de cativar — cativa-me, fira-me, me mate. Me detenhas mais. Há poucas muralhas ainda, me mantenha ainda mais preso a ti, com sentimentos nauseantes, mal sabea dizer, mas diz, sem entender — e ri — a divina comédia do espírito.
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Sou essa constante.
Vazante.
Um punhado de existência;
Fugaz.
Apresentação
— Através de poemas eu venho indagar,
Homem nenhum foi capaz de negá-lo.
Como histórias que aliciam a chegada do mal
Nim terras tão longínquas e provectas do solo moderno,
Deleitar o "spiritus temporis" à razão de nossa ideação
para tentar sentí-lo na mais perfeita ideação
do pobre autor.
Indagá-lo à obra de tão canhestra maneira
Ou indagá-lo à odisséia e brava de tão necessário enredo
É tal idêntico a tirar atenção da criança à tevê.
É-se necessário o ato. Entre isso não logro a turba,
Sei dela e não desejo dela recuar, nem alienar,
Enredo tão inalienável e simplório, e também isto,
Que usa de linguajar distinto à enriquecer,
Não alienar. Ao contrário quer poet'êscritor
Fazer-se escutar e entender, não obstante indagar,
Tocante a sua elogiosa obra futura;
Não obstante o impulso — e compulsório
De superá-lo ele a si próprio, desafia a si próprio seu brilhantismo:
Quer ser lido sublimemente — e não tornar-se best-seller,
Apenas.
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Carnes. Malditas carnes que somos. Nossa vida, nossa morada: tudo brisa - sabemos disso. Se queremos detê-la, estocá-la, nos tornar anjos tão leves quanto ela, não importa; não pertence a nós. E nós, carnes, em brisa, estamos sozinhos. Em pequenez, nulos: quem sabe, nossa única riqueza.
Aquilo que sufoca a paixão chama-se periculosidade,
Um poema de pureza e terror, sinônimos:
Os infernos abriram portas para o absurdo e o imoral, o tedioso e o seduzente.
Arranjo de poetas!
Porque atiraram-me em minha percepção,
Nausearam-me de tanta razão, abraço o verso.
Não quero lucidez; é loucura!
Meus poemas surgem do imediato; nunca me leia sem me sentir.
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Da perspectiva de um depravado — ou da perspectiva de um louco — o mundo se tornou pequeno. As pessoas se tornaram vagas; os conceitos, mortos: ou seria o contrário? O verso que condiz com meu poema e que abala as estruturas, não significa nada — sabemos disso. Para suportar nossa razão, nosso maior desprezo, misturamos nossas palavras e embolamos nossos sentimentos; nisso, viramos poetas: nossas verdades, afinal, tornaram-se enigmáticas? No fim, crescemos demais e por isso não vemos graça nesse mundo. Atrozes, egoístas, caluniados, sentimos uma imensa cólera percorrer nossos corpos. Para suportar a sanidade, o filósofo se tornou sábio. O bobo da corte, afim de lamentar a piada do rei, se tornou iconoclasta. Porque hoje nos tornamos loucos. Tanto para conservar a nossa vida, nossa morada, cansamos-nos de tanto decair em sanidade. Em plenitude, não nos tornamos vazios? Em plenitude, verdadeiramente, tornamo-nos vazios: no fim, somos homens gélidos. Há muito não sabemos em que momento chegará nosso ocaso. Na adoração da vida, em apreensão, no fim, no fundo, clamamos por ele — que venha. Este mundo se tornou pequeno.
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Homens decadentes:
Eles têm medo da gente.
Desprezaram toda a vida!
Desprezamos sua existência.
Que viva monotonia,
Em prol da liberdade.
Liberdade estraga a farsa,
Farsa esconde verdade.
E em verdade vos peco:
Mentiram para nós!
Desprezamos os amadores da vida,
Com medo amamos após.
Vivemos em decadência,
A vida está corrompida.
A morte está cheia de deuses,
A vida está cheia de mórbidos.
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Ah, meu maior egoísmo;
Este, não louvo, não venero;
Se me dizem, não o quero;
Se o vejo, o renego: meu egoísmo menos sincero.
Digo! Elevação dos pobres;
Verdadeiramente, paixão dos idiotas.
O altruísta, egoísta bem aceito;
Das falsas virtudes, a mais voluptuosa.
Mil sóis energizam-se sob consequência de minha consciência; doravante, desempenham mais controle do que eu poderia exercer. Sou a vida de homens mortos e a esperança da posteridade: e sou também o futuro, o passado, aquele que herdou a cultura do homem (!) — e não sou homem; o que sou, pois, ainda, limita-se feito um conceito que ainda é em abstrato, prematuro, zigoto, que ainda é em conceito. Sou uma ideia e uma ruína, uma tragédia e seguidamente uma nova manhã — sou, verdadeiramente, a alegria seguinte daquele que germina seu próprio sol, o objetivo potente da sua potencialidade; que em letras ruins, precárias, pode e diz que será para todos aqueles que o leem o homem do alto, será o iluminado, um radiante — que pode alinhar-se finalmente à morte. Pois, quando morrem os gigantes, tende a fazer tremer o mundo a queda; e ao mesmo tempo que sou o gigante, também sou a queda, a luz, a alvorada, o resplandecer: de novo de novo e incessantemente; de novo.
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Habito um lugar mais frio que a própria neve,
e nele,
há algo mais quente que o próprio sol.
À noite,
me congelo em solidão a me esquentar
do vento.
No dia,
me derreto em poesia e desilusão.