A divina comédia do espírito ~ M. Ribeiro
Sinto-me agraciado pela divina comédia; meu anjo, como me traz afago à alma. O espírito, livre, saltitante — saltita, maneja o coração, e apaixona-se pela linda seda — mais claro conforto, suavidade, leveza, olhos espremidos sobre a pele mais quente, onde estabelece-se família, família! É família: meu bem, família com a pele da alva seda da divina, fruto da beleza, da suavidade, tua vida inteira num toque; espíritos fortes, corações nada resignantes. Desejas o quanto puder. Cartas para o futuro, sem consistência: leveza, fluidez. Talvez não me decifre se a tinta esfriar, talvez não entendas meu amor. E essa carta, a que servirá seu destinatário? É solstício, ainda, sinta-se cativado pela lembrança que não é lembrança mesmo — qual é o nome desse sentimento... — ainda caduca. E descobre, sim, um dia, quem sabe, descobre. Geralmente descobre, afirmas para si mesmo: não sei dizê-las. Sente a leveza? Os sentimentos fluem em códigos passageiros, quer morram no vento, quer viajem sob a memória, e cativa. Amor, agora, é a beleza mais pura, olhas para o lago, vês o reflexo?, ali está seu amor. Transborda, perdição, à mim; cativa. De cativeiro, de cativar — cativa-me, fira-me, me mate. Me detenhas mais. Há poucas muralhas ainda, me mantenha ainda mais preso a ti, com sentimentos nauseantes, mal sabea dizer, mas diz, sem entender — e ri — a divina comédia do espírito.
Comentários · 0
Nenhum comentário ainda. Entre para ser o primeiro a comentar.