Tu me tocas sem perceber
Me desatina sem querer
Um borrão nas minhas lentes
Eu não deveria te querer
Tu me inunda de repente
Como o vento a assoviar
Eu não queria te esquecer
Queria te viver
Mas minha dor é dada
De vida em vida
Eu não posso te querer
Carrego tuas falhas
Até a próxima vida
Mas Tu me envolve
De lamúrias polidas
De uma calma macia
Dentro de um abraço
Um bálsamo peculiar
Amor de morte,
aMorte de tanto amar.
J.S
Continuar lendo
Me deixei consumir,
Fechei as mãos
Por favor, me deixem aqui
Hoje
Sou o asco e o blefe
Sou o escudo sob a espada
E quem sou eu,
A carne que sangra
Sou o dito cujo maldito
Com a capa fechada
Sou o que me convém
Sou a espada,
Quando sou desdém
Em cárcere,
Sou fardo sujo e ingrato
Não se cospe no mesmo prato
Mas eu sou algo mal dito,
Sou um escárnio —memorável.
J.S
Continuar lendo
Não tem jeito,
Não tem cura,
E não tem conserto.
J.s
Sinto as ondas vindo. Pequenas ondulações no fundo azul frio, tremedeira, pés frios. O fúnebre céu atordoado, estômago vazio. Angústia alastrada. Estática, nuca encadeada, densa, dura, travada. Vomito. Percurso todo o mal súbito, ando de mãos dadas. Frias. Perdi o caminho de casa. Quero o refinado puro egoísmo, de tirar as amarras, perder cada gota de água, encontrar cada lágrima. Fonte, hora, data. Como uma maldição a ser quebrada. Um corte a ser costurado. Um coração a ser reanimado. Um fardo a ser queimado. Pois choro sem destinatário. Meu peito dói ao contrário, ósmio, caído na areia, áspero. Pulmão raso, dilacerado, mastigo o ar que pede pra entrar, mastigo de volta, mastigo até doer, até o corpo mastigar junto, até sangrar. Inútil. Meu pecado é a preguiça clássica. A melancolia cravada. A água parada. A única que flutua, a mente. Esqueci-me, para sentir um mormaço, alento, quente.
Queria ser mais presente.
[...]
J.S
Continuar lendo
Escreve porque tu és
fervorosamente,
Poesia.
Aclama vida,
Destrincha,
Sacia a alma —
Vazia.
Por onde passei,
Por quem fui,
Para onde vou.
Ociosa,
Inconsistente,
Dura, macia e eloquente.
Amo-te,
Desalinhada e pertinente,
Indomável,
Presente.
Indecente hoje,
Morta amanhã.
Brevemente,
Serás poesia.
J.S
Continuar lendo
Num sopro,
O caos é quente
No outro,
A paz destoa
Inquietude colhida
De desfrutar
Desamores.
Um dia fui,
Pra nunca mais ser
Branca folha,
Sem dor nem dizer
O lar emudece,
E a quietude me cutuca
Estranhice —
O silêncio me culpa,
E o sussurro da brisa me assusta.
J.S
Continuar lendo
Sonho em me esconder,
Dentro do travesseiro
Debaixo da terra,
No armário,
No núcleo da Terra
No país das maravilhas,
Num singelo nevoeiro
Entre o real e o pesadelo
Tropeço em muitos eu's
Hiberno no meu paraíso
Descamo em passados
Me encolho,
Olho torto,
Odiava a todos
O breu não perturbava os outros
Olho no relógio,
Meia noite de novo
Sexta-feira,
Agosto de novo
Eu escrevo com desgosto
Tudo mudou
Tudo vazou
Mas ao mesmo tempo
Nada passou.
J.S
Continuar lendo
Que fique pretendido,
Há amores enrustidos
Há bocas preguiçosas
E olhares de soslaio
Bicho do mato, apático
Foi ontem que eu vi
O sol mais raio
Eu vi, ouvi e vivi
Dizem: já morri
Porque menti,
Pra mim, eu e ti
Desacostumei a ser,
Descolorir.
Para o romeno,
A tal da dor
Para o covarde,
Não resta nem saudade.
J.S
Continuar lendo
Águas cristalinas
De uma íris, um dia translúcida
Limpa de calos e terra suja
Fecho os olhos e perco a tramontana
Encontro-me no profano
Olho o azulino,
Poderia me cantar algo entre os rios
Num suspiro, poderia ser meu riso
Um breve colírio,
Desafortunado de ruídos
Na calada,
Há a verdade límpida, enxuta, bruta
Vejo ela no azulino
Mas ele não canta,
Voou entre as brandas lembranças
Entre o olhar e o pesar
Num estalar e no meu pensar
Sem luar a vida era crua e imunda
Aninhada na alma lânguida
Qualquer Ondina tinha mais vida
Toco no fundo da quietude
Na areia adormecida arranhada
Minhas fissuras eram doces e rubras
Ondulada das águas nuas
Estava cansada de me sentir tão...
Tão turva.
J.S
Continuar lendo
Pensava nas sete maravilhas
Um banho quente numa noite fria
Me derretendo em desprezares
Minha alma pendia melancolia
Como uma criança chorando
Querendo ser ouvida
Ando ausente de fazeres
Porque de "se" eu me abatia
Minhas pálpebras andavam caídas
Minhas asas molhadas
O ar quente me escondia
Faz muito tempo que de mim
Nada eu queria
Irreconhecível,
Eu me esqueci.
J.S
Continuar lendo