A dor que um dia deixaste aqui,
uma manhã tornou-se um eco,
que ecoava pelos cômodos do meu ser.
A angústia que em um momento me consumia,
a insegurança dos passos dados,
o medo do trovão era minha maior preocupação.
Onde deveria haver afeto, houve questionamentos.
Onde deveria haver amor, migalhas recolhi do chão.
Onde errar não era uma opção,
era também onde a punição habitava.
Amor, afeto, carinho e acolhimento,
todos deixados de lado.
A neblina cobria seus olhos,
o mar agitado naufragava seus pensamentos,
e lá, em maré alta, tudo e todos afogados.
Perdido na ilha do abandono,
no eco frio da solidão,
voltar já não era uma opção.
A dor que um dia eu senti,
hoje você sente.
Espero um dia conseguir tirar-te dessa ilha deserta,
estender-te a mão mais uma vez,
mas não outra vez em vão,
e sim para sempre.
Que, de hoje em diante,
o sol venha nos visitar,
amanhecer após amanhecer,
e que meu amor jamais seja naufragado outra vez.
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Hoje venho apenas pedir desculpas.
Desculpa por reclamar do sol.
Desculpa por reclamar da chuva.
Desculpa pela mistura que se repete.
Desculpa por reclamar tanto…
Mesmo tendo tanto.
Desculpa por não enxergar o privilégio
que nem todos têm a oportunidade de viver,
nem sequer uma gota
desse oceano de bênçãos
que, no fim, em mim,
eu insisto em ver como tempestade,
como descaso de Deus.
As desculpas de hoje
não são apenas para o Senhor,
mas para todos aqueles
que um dia sonharam em ter,
por um único dia,
o privilégio que me acompanha.
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Jesus sofreu, chorou, foi humilhado, apedrejado, crucificado… tudo para que hoje fôssemos livres do pecado.
E mesmo assim nos agarramos às coisas mundanas, sem nem pensar em todo o sacrifício que Ele passou.
Não agradecemos pelo dia, pela chuva, muito menos pela vida.
Só reclamamos, murmuramos, fazemos birra como crianças mimadas.
Temos o privilégio do sopro de vida e, ainda assim, tapamos os olhos para Cristo e abrimos para o pecado.
A porta espaçosa é muito mais apetitosa do que a estreita, cheia de espinhos.
Mas o Cordeiro não se importou em usar uma coroa tão simples — e ao mesmo tempo tão carregada de ódio, rancor e julgamentos.
Mesmo passando por tudo isso, Ele preferiu a dificuldade, a crueldade, a traição dos Seus.
E, ainda assim, Ele nos espera de braços abertos:
“Vinde a Mim todos os que têm sede.”
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Eu O amo com todo o meu coração,
mas minha mente está tão cheia de mim mesmo que não cabe mais uma gota de Ti.
Por que me amas infinitamente, mesmo sabendo o que eu faria a Ti no final?
Por que, mesmo rejeitado, me queres por perto?
Por que, mesmo Lhe apontando, me acolhes com tanto amor?
Eu, Judas, Lhe apunhalhei pelas costas…
e mesmo assim me amas infinitamente.
Deus,
como um nome tão pequeno,
mas ao mesmo tempo tão grandioso.
É tão vasto o Teu amor por mim.
“Vinde a mim todos os que têm sede”,
eu sou a Verdade e a Vida.
És o fôlego de vida,
a esperança que reina no mundo,
a paz dos desesperados,
a calmaria dos corações.
És o mais belo entre as nações,
és o Cordeiro que morreu em meu lugar.
Me fazes vagar por lindos pastos verdes.
Regozijas a minha alma.
És respiro de sabedoria,
tens nas mãos o milagre,
e em Tua voz, só a luz.
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O amargo nos olhos era instintivo.
Não havia sequer uma palavra a ser pronunciada.
Mas no olhar já se notava
o ódio guardado ali.
O som feito do incômodo
é a grande insatisfação
que me corrói por dentro,
impregna como ferrugem
das más palavras.
Inaudível é a gratidão
de não ser nada
além de um estorvo.
Não há nada que se faça
que lhes dê o prazer da satisfação.
É o desgosto mascarado de sorriso,
é a má-fé misturada de certezas —
certezas
de que jamais darão o braço a torcer.
Observo a indiferença
na boa vontade de nada querer.
A socialização é dificultada
por grunhidos irritantes e constantes
naquele mesmo local de sempre.
É como escutar alguém
comer uma faca
em vez de comer o queijo.
Tapados — eu diria com total certeza.
Não olham para os lados,
não veem o copo meio cheio:
ele está sempre totalmente vazio,
e ainda assim
cheio de rancor.
Pergunto-me
o que eu fiz
para que jogassem
toda a sua frustração
sobre meus ombros,
como se fossem
meu fardo mais pesado.
Me sobrecarrego
de todo o ódio lançado em mim.
Pesado é o fardo
de quem nunca fez
mal algum a vocês.
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Batidas que antes coerentes,
agora irregulares,
quase estagnadas.
A ausência da consciência
permite ao líquido da vida vagar
na lentidão da carne
— casca carregada
da essência que foi impulso.
Já não é levado à vida:
esvai-se
como o fim do entardecer.
Recolhe-se na frieza da pele
que um dia foi morna de presença.
O mármore se instala
na ausência do fluxo
que antes habitava.
Não é dor.
Ainda resta um pingo de vida,
orvalho tardio.
Pequenas bolhas de existência se desfazem.
Sou, por instantes,
limitadamente consistente.
Sensível, repouso.
Entro fundo
no sonhar da vida.
Cesso o movimento.
Circular já não é opção.
O fim me vê
como o mais profundo dos mares:
lá, já não me reconheço.
Não há dor.
Apenas o desacelerar
daquilo que um dia
foi movimento.
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Memórias passadas
beiram a saudade.
Paira nelas a dor da longitude
que se instala
a cada noite acordada.
O peito se retorce em angústia
diante do tempo
que, implacável,
jamais aprenderá a retroceder.
Como um grande relógio-cuco
prestes a gritar o horário,
o instante anuncia
o que já não volta.
Essa dor me corrói
como a ferrugem no metal,
desgastando a matéria do afeto
até restar apenas
a memória
do que jamais existiu por inteiro.
Ah, dor,
peço apenas que vás —
não olhes para trás.
A mágoa de ter lançado fora
o que havia de mais vivo
já é, por si,
o último fardo.
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Meu pequeno,
antes mesmo de eu te segurar nos braços,
você já cabia inteiro em mim.
Eu ainda lembro do dia em que descobri
que meu corpo te guardava em silêncio,
te moldando com cuidado,
enquanto meu coração aprendia
um novo jeito de bater.
Foram meses de espera doce,
de cantarolar canções baixinho,
só para ver se você se mexia,
como quem responde:
“eu também estou aqui”.
Arrumei cada coisinha pensando no seu sorriso,
imaginando o jeito que você franziria a testa,
como seria sua voz ao chamar "mamãe"
pela primeira vez.
Eu sonhei com os seus passos
antes mesmo de você aprender a ficar durinho,
sonhei com sua mãozinha no meu rosto
enquanto mamava tranquilo,
me olhando com aquele amor
que só existe entre mãe e filho.
Sonhei com o seu primeiro banho,
com o cheiro de sabonete,
com a sua gargalhada fácil,
com as madrugadas em que eu ficaria acordada
te ninando,
mesmo cansada — mas feliz.
Sonhei com você engatinhando pela casa,
com seus pezinhos pequeninos batendo no chão,
com o primeiro aniversário,
com o brilho nos seus olhos
descobrindo o mundo devagar.
E embora você não tenha ficado, meu amor,
eu agradeço.
Agradeço cada enjoo, cada chute,
cada silêncio que anunciava que você crescia,
cada esperança que brotava dentro de mim.
Agradeço por ter sido seu lar,
por ter sido seu começo,
por ter te amado antes mesmo de te ver.
Foi pouco o tempo que tivemos —
mas foi inteiro.
E no breve que vivemos juntos,
você me ensinou
que o amor não precisa durar muito
para durar para sempre.
Você passou pela minha vida
como um sopro de luz,
e deixou em mim uma eternidade.
Obrigada por existir em mim,
mesmo que por tão pouco.
Obrigada por me escolher como casa,
por me fazer mãe,
por me mostrar que o amor atravessa a vida,
e continua.
Sempre sua,
mamãe.
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A fêmea deposita seus ovos
nos galhos tensos da vida,
como quem confia ao vento
o que jamais verá crescer.
Eclodem para o mundo,
mas escolhem o avesso da luz.
Enterram-se vivos
no ventre escuro da terra.
Viver no fundo do chão
não é castigo —
é um pacto silencioso.
Ali, longe do espetáculo,
a cigarra aprende a durar.
São anos duros,
anos exatos,
medidos não pelo calendário,
mas pela espera.
Nutro-me da seiva escondida,
do sangue lento das raízes.
O que me sustenta
não brilha.
Em êcdise após êcdise,
rompo a mim mesma,
cresço quebrando,
mudo sem sair do lugar,
úmida, cega, paciente.
Até que um dia
o corpo pede altura.
Subo a grande árvore da vida
como quem sobe para morrer.
E lá, no limite entre o peso e o ar,
abandono o que fui.
O passado fica preso ao tronco:
um exoesqueleto vazio,
uma pele sem pulso
— prova muda
de que sobreviver
também cansa.
A vista é bela,
mas breve.
A única urgência, então,
é cumprir o gesto antigo:
cantar.
Pobre cigarra-fêmea —
jamais verá
o eco do próprio esforço.
Mas a vida, para ela,
sempre foi assim:
o sentido vem depois.
Da sua trajetória mínima,
não restam feitos,
nem monumentos.
Fica apenas, na árvore,
a marca da maior mudança:
a casca aberta
como ferida seca
no corpo do mundo.
E se me perguntas
por que continuo
mesmo sabendo
que o fim antecede a glória,
respondo simples:
há existências
que não nascem para ficar,
mas para alterar o que tocam.
Meu canto não é abrigo.
É vestígio.
E a conclusão é esta:
somos, afinal, como a cigarra —
gastamos a vida inteira
para deixar no chão
apenas os ossos
e no ar
aquilo que nunca mais se cala.
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