Cigarra
A fêmea deposita seus ovos nos galhos tensos da vida, como quem confia ao vento o que jamais verá crescer. Eclodem para o mundo, mas escolhem o avesso da luz. Enterram-se vivos no ventre escuro da terra. Viver no fundo do chão não é castigo — é um pacto silencioso. Ali, longe do espetáculo, a cigarra aprende a durar. São anos duros, anos exatos, medidos não pelo calendário, mas pela espera. Nutro-me da seiva escondida, do sangue lento das raízes. O que me sustenta não brilha. Em êcdise após êcdise, rompo a mim mesma, cresço quebrando, mudo sem sair do lugar, úmida, cega, paciente. Até que um dia o corpo pede altura. Subo a grande árvore da vida como quem sobe para morrer. E lá, no limite entre o peso e o ar, abandono o que fui. O passado fica preso ao tronco: um exoesqueleto vazio, uma pele sem pulso — prova muda de que sobreviver também cansa. A vista é bela, mas breve. A única urgência, então, é cumprir o gesto antigo: cantar. Pobre cigarra-fêmea — jamais verá o eco do próprio esforço. Mas a vida, para ela, sempre foi assim: o sentido vem depois. Da sua trajetória mínima, não restam feitos, nem monumentos. Fica apenas, na árvore, a marca da maior mudança: a casca aberta como ferida seca no corpo do mundo. E se me perguntas por que continuo mesmo sabendo que o fim antecede a glória, respondo simples: há existências que não nascem para ficar, mas para alterar o que tocam. Meu canto não é abrigo. É vestígio. E a conclusão é esta: somos, afinal, como a cigarra — gastamos a vida inteira para deixar no chão apenas os ossos e no ar aquilo que nunca mais se cala.
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