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Ivi

@Iva · desde 2019

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Ca(N)tingueira

Tenho o sertão atravessado em minha garganta Desempoeirando cada canto do meu coração Canto rouca sabiá caatinga à den'tu. Feita de barro minha língua Lambe o bucho do chão E engordo o verso. Cabeça de frade enfeita o dorso do meu pensamento Espanta daqui quebranto e mal olhado. Sertão das horas curvas Teus versos espinhos traiçoeiros Rasgam meu vestido Quando danço no curral das maravilhas. Sem segurar a cabruêra Avexada Com a visão pau de arara Eis-me me aqui sertão Ser tão vasto expanda ainda mais dentro de mim!

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Rito de passagem

Entre o céu e o outono Chove sobre março Sábias dançam na chuva O amarelo muda a cor do mês Cabelos ao chão Pessoas que se vão. Tempo de perdas de podas, de quedas O vento ajuda a carregar Aquilo que abraça de menos Aquela mão fria Que não arrepia mais a alma. Tempo de colher os frutos Cultivar o milho Debulhar o feijão Tirar as cobertas da alegria Desencarquilhar a dor. Desnudar- se como as árvores Pisar nas folhas secas Rememorando com saudade Flores, pedras, raízes Águas, choro, paixões Sopra nesse outono Um fulgor violeta de renovação.

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O agora e o infinito

Como peixe deslizo suave nas águas Sinto a serenidade da vida, ainda que pedra No silêncio da mata, exercito ouvir minh'alma (Afinem os ouvidos A orquestra dos passarinhos entoou Vamos dançar!) Ando descalço entre cobras, e aprendo sobre o perigo (Medo. Que medo? Bebes do veneno!) Não é perder tempo Contemplar a lua, contar as estrelas Cafungar no orvalho da madrugada Corro Olho para o céu Deleito- me no agora E sem viver morrendo Sim, eu quero, morrer vivendo...

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Trapezista

Lá onde o vento faz a curva Vejo as cinzas do tempo Em cada fase temos o que aprender, gozar E a certeza de muitos erros à cometer Sem deixar para amanhã O que se pode deixar para lá Como faz a trapezista no circo É preciso escalar os abismos da vida Ainda que tenhamos que quebrar as costelas

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Moço Poesia

Foi feito de um vulcão nas estrelas Sinônimo de quem tem asas nos pés Tu poeta plantador da palavra afeto Acalanto como uma canção de Milton Língua quente navalha, Verso escrito a sangue Diria Nietczche Tu moço poesia Dos olhos passarinho Da silhueta do teu riso Explode loucura Ironizando os normais Por quê poeta? Por que fazes amor com as palavras? O gozo escorre como um rio caudaloso no sertão E fazes quem ler Desejar estar dentro e mais...

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Sociedade

Sonha Sofia...

E se as mulheres saíssem na rua sem ter medo de serem estupradas? E se o corpo da mulher não fosse mercadoria, como pedaço de carne no açougue, na indústria do sexo? E se as meninas não fossem abusadas sexualmente desde crianças? E se as mulheres recebessem o mesmo salário que os homens? E se a mulher negra tivesse a mesma oportunidade de emprego da mulher branca? E se as mulheres não morressem em vida pela violência psicológica e moral? E se o trabalho doméstico fosse dividido de modo igualitário? E se as pessoas não se omitissem diante dos atos de violência? Já é manhã e Sofia acordou assustada com esse sonho estranho no dia 8 de março. Sua mãe, atentamente, ouviu o sonho e dispensou todas as flores, desamores daquela mão que todos os dias a machucava

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Respeito

Desempatia

Mãe e filha brincavam nas ondas Era a primeira vez que tinham com o mar A mãe que nada enxergava Concentrava- se em sentir o som das águas Podia imaginar o sorriso da menina... A maré encheu e suas mãos desenlaçaram, Perderam-se... E aquela mulher esbravejava em desespero - Oh mar, tanto que te sonhei, para onde levastes minha filha? As pessoas,ao longe, cochichavam - Como pode uma mãe cega trazer uma criança para o mar?! Ninguém a ajudou concretizar esse sonho ( E nós o que faríamos?)

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Tudo que é corpo fala

A única rua desse pacato lugar Está inesperadamente cheia Ando por ela Transbordando meus vazios. E deste copo escorrem ausências De presenças outrora encontradas De utopias De risadarias. Vou absorvendo líquidos Às paredes da minha alma na tentativa Impossível de preenchimento. Pelos corredores do coração Passeio vagamente Inquieta. Calo não falo Desígnios silenciados de uma panteísta sufocada Que neste bar Dispensa microfone cover. Hoje minha boca Só e somente só,falará Se o corpo dançar E assim meu espírito leve, Suave cintilará

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Humanum est

Um tacanho alqueire Na imensidão do universo Somos nós. Tanta arrogância e prepotência Em nome de quê? Se até o saber do homem renomado mais sábio chora Por não saber nadar, por medo da sua única certeza... Tantos joelhos curvados ao homem de Deus Enchendo os cofres divinos Apesar de sabermos que as maiores riquezas não compramos... Há ainda quem pague vida acreditando que pode escapar da morte... Somos só um gravetinho na boca do sabiá O coração vai parar e seremos pó.

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Coração de menino

A linha cosendo a solidão exposta no colo da mãe O silêncio desabotoa- se daquela blusa Como palavra nascendo na boca da criança Jorra a fala A mulher analfabeta lê O coração na mão do filho - Amastes agora sangras feito rocha que se aluí... Pobre menino não sabia rimar Amor e dor

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