Tenho o sertão atravessado em minha garganta
Desempoeirando cada canto do meu coração
Canto rouca sabiá caatinga à den'tu.
Feita de barro minha língua
Lambe o bucho do chão
E engordo o verso.
Cabeça de frade enfeita o dorso do meu pensamento
Espanta daqui quebranto e mal olhado.
Sertão das horas curvas
Teus versos espinhos traiçoeiros
Rasgam meu vestido
Quando danço no curral das maravilhas.
Sem segurar a cabruêra
Avexada
Com a visão pau de arara
Eis-me me aqui sertão
Ser tão vasto
expanda
ainda mais dentro de mim!
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Entre o céu e o outono
Chove sobre março
Sábias dançam na chuva
O amarelo muda a cor do mês
Cabelos ao chão
Pessoas que se vão.
Tempo de perdas
de podas, de quedas
O vento ajuda a carregar
Aquilo que abraça de menos
Aquela mão fria
Que não arrepia mais a alma.
Tempo de colher os frutos
Cultivar o milho
Debulhar o feijão
Tirar as cobertas da alegria
Desencarquilhar a dor.
Desnudar- se como as árvores
Pisar nas folhas secas
Rememorando com saudade
Flores, pedras, raízes
Águas, choro, paixões
Sopra nesse outono
Um fulgor violeta de renovação.
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Como peixe deslizo suave nas águas
Sinto a serenidade da vida,
ainda que pedra
No silêncio da mata, exercito ouvir minh'alma
(Afinem os ouvidos
A orquestra dos passarinhos entoou
Vamos dançar!)
Ando descalço entre cobras, e aprendo sobre o perigo
(Medo.
Que medo?
Bebes do veneno!)
Não é perder tempo
Contemplar a lua, contar as estrelas
Cafungar no orvalho da madrugada
Corro
Olho para o céu
Deleito- me no agora
E sem viver morrendo
Sim, eu quero, morrer vivendo...
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Lá onde o vento faz a curva
Vejo as cinzas do tempo
Em cada fase temos o que aprender, gozar
E a certeza de muitos erros à cometer
Sem deixar para amanhã
O que se pode deixar para lá
Como faz a trapezista no circo
É preciso escalar os abismos da vida
Ainda que tenhamos que quebrar as costelas
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Foi feito de um vulcão nas estrelas
Sinônimo de quem tem asas nos pés
Tu poeta plantador da palavra afeto
Acalanto como uma canção de Milton
Língua quente navalha,
Verso escrito a sangue
Diria Nietczche
Tu moço poesia
Dos olhos passarinho
Da silhueta do teu riso
Explode loucura
Ironizando os normais
Por quê poeta?
Por que fazes amor com as palavras?
O gozo escorre como um rio caudaloso no sertão
E fazes quem ler
Desejar estar dentro e mais...
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E se as mulheres saíssem na rua sem ter medo de serem estupradas?
E se o corpo da mulher não fosse mercadoria, como pedaço de carne no açougue, na indústria do sexo?
E se as meninas não fossem abusadas sexualmente desde crianças?
E se as mulheres recebessem o mesmo salário que os homens?
E se a mulher negra tivesse a mesma oportunidade de emprego da mulher branca?
E se as mulheres não morressem em vida pela violência psicológica e moral?
E se o trabalho doméstico fosse dividido de modo igualitário?
E se as pessoas não se omitissem diante dos atos de violência?
Já é manhã e Sofia acordou assustada com esse sonho estranho no dia 8 de março.
Sua mãe, atentamente, ouviu o sonho e dispensou todas as flores, desamores daquela mão que todos os dias a machucava
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Mãe e filha brincavam nas ondas
Era a primeira vez que tinham com o mar
A mãe que nada enxergava
Concentrava- se em sentir o som das águas
Podia imaginar o sorriso da menina...
A maré encheu e suas mãos desenlaçaram,
Perderam-se...
E aquela mulher esbravejava em desespero
- Oh mar, tanto que te sonhei, para onde levastes minha filha?
As pessoas,ao longe, cochichavam
- Como pode uma mãe cega trazer uma criança para o mar?!
Ninguém a ajudou concretizar esse sonho
( E nós o que faríamos?)
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A única rua desse pacato lugar
Está inesperadamente cheia
Ando por ela
Transbordando meus vazios.
E deste copo escorrem ausências
De presenças outrora encontradas
De utopias
De risadarias.
Vou absorvendo líquidos
Às paredes da minha alma na tentativa
Impossível de preenchimento.
Pelos corredores do coração
Passeio vagamente
Inquieta.
Calo não falo
Desígnios silenciados
de uma panteísta sufocada
Que neste bar
Dispensa microfone cover.
Hoje minha boca
Só e somente só,falará
Se o corpo dançar
E assim meu espírito leve,
Suave cintilará
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Um tacanho alqueire
Na imensidão do universo
Somos nós.
Tanta arrogância e prepotência
Em nome de quê?
Se até o saber do homem renomado mais sábio chora
Por não saber nadar,
por medo da sua única certeza...
Tantos joelhos curvados ao homem de Deus
Enchendo os cofres divinos
Apesar de sabermos que as maiores riquezas não compramos...
Há ainda quem pague vida
acreditando que pode escapar da morte...
Somos só um gravetinho na boca do sabiá
O coração vai parar e seremos pó.
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A linha cosendo a solidão
exposta no colo da mãe
O silêncio desabotoa- se daquela blusa
Como palavra nascendo na boca da criança
Jorra a fala
A mulher analfabeta lê
O coração na mão do filho
- Amastes agora sangras
feito rocha que se aluí...
Pobre menino
não sabia rimar
Amor e dor
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