Preciso te dizer coisas
bem maiores que a vida
e é justamente por isso
que vivo em silêncios
tão carregados quanto
os dias de manhãs chuvosas.
A nua verdade dos teus olhos negros
se torna cada vez mais clara
como correr das horas
e pouco a pouco me pego
completamente desarmada
e meu peito aberto
quase como uma ferida
vai deixando aquela chama estranha
que queima sem doer
transformar minha vida
em uma bela manhã
de um sol que nunca se põe.
Percebo então,
como uma criança que
dá seus primeiros passos
fronte ao mundo,
que é você o que ganhei da vida.
Você é a vida.
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Vou precisar renascer de trás da nuvem
Para alcançar a plenitude de um sol
Vou precisar cessar a chuva
Que corre dentro de mim
Para quem sabe sentir pelando na pele
A luz de um novo dia.
Quero sair pra fora de todas as casas
Fujir de todo pensamento
E morrer no silêncio
Espalhado por entre as ondas.
O que eu preciso é de todo o azul do mar
Para me carregar pelo dia.
Hoje eu quero morrer
Na altura dos prédios
Decompor na fumaça das fábricas
Correr por entre a pressa dos carros
Ser o silêncio preso
Por entre as palavras.
Eu escrevo para provocar o oco,
Morar no vazio
E não o pintar de vermelho sangue.
Escrevo para doer em forma de verso
E não marcar a pele,
Escrevo para adiar a vida,
Escrevo porque tudo o que
Começa em mim,
Termina em poesia.
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Eu posso alcançar a beleza da vida
Só de sentir as fibras da terra.
Se eu pudesse não ser,
Seria só um sopro,
Para beijar as flores nas árvores.
E me misturar às promessas do tempo.
Se eu pudesse ser só um segredo,
Me esconderia atrás da indiferença.
E surgiria por trás das nuvens pela manhã.
Pintaria minhas penas
Com as cores do arco-íris
Para caçar discretamente
Os segredos contidos no fim da estrada.
Mesmo assim não os encontraria.
Se eu beijasse as flores,
Saberia que o verdadeiro tesouro da vida,
São as pétalas que carecem
As árvores,
Essas que sustentam o dia.
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Recaio no sorriso das águas,
De novo
O azul preenche o meu vazio
De solidão.
As ondas que devoram meus cabelos,
São feito véu,
E a liberdade que se espalha em mim,
Finalmente é maior que o céu.
Agora eu sou pequeno,
Comparado aos silêncios
Espalhados por entre as ondas.
Meus olhos tem o peso da nuvem,
Pousada sobre meu peito,
Meu medo se perde
Entre tantos segredos,
Para sempre guardados.
O sal tempera palavras
Que perdi pela boca
Mas que já não dizem nada,
Melhor que o canto das gaivotas
Que me protegem do meu próprio vocabulário.
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Na fadiga das tardes,
Quando me lembro,
Permito que os silêncios me recolham.
As palavras se devoram entre si,
E em seguida todas elas cessam,
Fadigadas de informar.
Quando me perco
Ao encontrar-me nos braços de quem amo,
Meus corações se fundem
E isso é tudo
Para inspirar-me
A amar.
Finalmente,
até os sobrecarregados de vida
Podem terminar sua caminhada
Em despedida,
E seguir viagem.
O tempo se funde,
E por um momento,
Perdido entre as horas,
Tudo termina,
Onde começa a fadiga das tardes.
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Quando me largo,
Desconfio se não sou só uma parada
Da sua viajem.
Quando te seguro na palma das mãos
Me pergunto se sou só mais um segundo seu.
Esqueço palavras,
Derramo esquecimentos,
Quero para sempre eternizar a tua cor.
Mas os tons vivem mudando.
As vezes quando me fecho,
Encaro a cor da minha própria solidão,
Ela tem o peso da gota,
Que nunca evapora.
Desconfio se não sou eu essa estrada,
Por onde tu estende teus caminhos.
Não desejo que tropece em meus buracos,
Mas confesso,
Eu me canço de voltar sempre a ser sozinho.
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Minhas mãos estão carregadas
De intensidades extravasadas.
Minhas mãos estão cheias
Dos amores que viveram
E que também morreram em mim.
Estes cujo o peso eu finalmente pude largar.
Os que amei, e amarei
Até o infinito acabar.
Estes viverão em mim para sempre,
Mesmo eu tendo cansado de
carregar seus cadáveres.
O vazio não reaparece em mim
mesmo depois de soltar os braços
Que o envolviam em abraços doces.
Estou só novamente,
Mas posso agora falar dos amores
Que vivi,
Estes me fizeram sentir
bem mais que as dores
De enterrar seus cadáveres.
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Não vou mais vestir fantasias
Não vou mais carregar desilusões
nos ombros.
Eu não quero avançar pelo caminho
Desconhecido.
Hoje eu permito que somente
o tempo me carregue.
Não darei nem mais um passo sequer.
Pretendo existir em um grande silêncio,
Uma enorme ausência.
Desprezo qualquer intensidade que me perturbe.
Recuso qualquer palavra que ousar
pousar em minha boca.
Elas não irão escapar de mim.
Pois hoje, esse infinito vazio me pertence.
Não há nada meu nesse mundo,
Por existir.
O que tenho é uma porção de amor pra dar
E ninguém para receber.
Hoje estou entre não existências,
Afinal já vivi dores de mais,
Minha existência pesa em minhas costas.
Hoje, só hoje,
Desisto de viver de dentro para fora,
Eu cansei.
Hoje não existo.
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Eis que tu abre a porta,
Me joga para o lado de fora,
Me força a ver o mundo com os meus próprios olhos.
Leves, cansados,
Carregados de desconforto
Por ir ao encontro da luz pela primeira vez
Depois de tanto tempo na
escuridão do pensamento.
Agora eu sou só eu,
E meu espírito nu não deseja nada
Apenas quer provar da liberdade
De ser poeta,
E de viver de poesia.
Mostra-las ao mundo é render-me ao desnude.
Ultrapassar as limitações do corpo físico,
A poesia é uma extensão do corpo.
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Não sou livre,
a liberdade é, para mim,
Inatingível.
Não sei ser livre,
já que na minha humanidade efêmera e crua,
sou escravo de meus pensamentos.
Escravo das minhas escolhas,
escravo do inevitável fim de todo ser que nesse instante vive,
Escravo das palavras não ditas,
do sentimento reprimido,
do ódio contido,
de tudo aquilo que amo intensamente.
Sou tudo que acelera as batidas do meu coração.
Vou muito além dos versos,
Não sou a a voz que permaneceu calada, mas
me resumo aos silêncios e não aos gritos da canção.
Digo que mesmo livre para ser quem sou,
permaneço escravo de mim.
Mas sei que morrerei,
sou também escravo da morte.
Só sei, se é que sei, que é assim.
Mas comparado ao que há em mim,
o mais próximo de liberdade
talvez seja o mesmo o fim.
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