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O astronauta da saudade

@Isa_Granada · desde 2024

A poesia foi feita para provocar, não para trazer conforto.

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O que ganhei da vida.

Preciso te dizer coisas bem maiores que a vida e é justamente por isso que vivo em silêncios tão carregados quanto os dias de manhãs chuvosas. A nua verdade dos teus olhos negros se torna cada vez mais clara como correr das horas e pouco a pouco me pego completamente desarmada e meu peito aberto quase como uma ferida vai deixando aquela chama estranha que queima sem doer transformar minha vida em uma bela manhã de um sol que nunca se põe. Percebo então, como uma criança que dá seus primeiros passos fronte ao mundo, que é você o que ganhei da vida. Você é a vida.

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Escrita para adiar a vida

Vou precisar renascer de trás da nuvem Para alcançar a plenitude de um sol Vou precisar cessar a chuva Que corre dentro de mim Para quem sabe sentir pelando na pele A luz de um novo dia. Quero sair pra fora de todas as casas Fujir de todo pensamento  E morrer no silêncio  Espalhado por entre as ondas. O que eu preciso é de todo o azul do mar Para me carregar pelo dia. Hoje eu quero morrer Na altura dos prédios Decompor na fumaça das fábricas Correr por entre a pressa dos carros Ser o silêncio preso Por entre as palavras. Eu escrevo para provocar o oco, Morar no vazio E não o pintar de vermelho sangue. Escrevo para doer em forma de verso  E não marcar a pele, Escrevo para adiar a vida, Escrevo porque tudo o que Começa em mim, Termina em poesia.

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PARA PODER BEIJAR AS FLORES.

Eu posso alcançar a beleza da vida Só de sentir as fibras da terra. Se eu pudesse não ser, Seria só um sopro, Para beijar as flores nas árvores. E me misturar às promessas do tempo. Se eu pudesse ser só um segredo, Me esconderia atrás da indiferença. E surgiria por trás das nuvens pela manhã. Pintaria minhas penas Com as cores do arco-íris Para caçar discretamente Os segredos contidos no fim da estrada. Mesmo assim não os encontraria. Se eu beijasse as flores, Saberia que o verdadeiro tesouro da vida, São as pétalas que carecem As árvores, Essas que sustentam o dia.

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O sorriso das águas

Recaio no sorriso das águas, De novo O azul preenche o meu vazio  De solidão. As ondas que devoram meus cabelos, São feito véu, E a liberdade que se espalha em mim, Finalmente é maior que o céu. Agora eu sou pequeno, Comparado aos silêncios  Espalhados por entre as ondas. Meus olhos tem o peso da nuvem, Pousada sobre meu peito, Meu medo se perde Entre tantos segredos, Para sempre guardados. O sal tempera palavras Que perdi pela boca Mas que já não dizem nada, Melhor que o canto das gaivotas Que me protegem do meu próprio vocabulário.

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Tudo termina, onde começa a fadiga das tardes

Na fadiga das tardes, Quando me lembro, Permito que os silêncios me recolham. As palavras se devoram entre si, E em seguida todas elas cessam, Fadigadas de informar. Quando me perco Ao encontrar-me nos braços de quem amo, Meus corações se fundem E isso é tudo Para inspirar-me A amar. Finalmente, até os sobrecarregados de vida Podem terminar sua caminhada Em despedida, E seguir viagem. O tempo se funde, E por um momento, Perdido entre as horas, Tudo termina, Onde começa a fadiga das tardes.

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Talvez a estrada seja eu.

Quando me largo, Desconfio se não sou só uma parada Da sua viajem. Quando te seguro na palma das mãos Me pergunto se sou só mais um segundo seu. Esqueço palavras, Derramo esquecimentos, Quero para sempre eternizar a tua cor. Mas os tons vivem mudando. As vezes quando me fecho, Encaro a cor da minha própria solidão, Ela tem o peso da gota, Que nunca evapora. Desconfio se não sou eu essa estrada, Por onde tu estende teus caminhos. Não desejo que tropece em meus buracos, Mas confesso, Eu me canço de voltar sempre a ser sozinho.

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Velório das paixões

Minhas mãos estão carregadas De intensidades extravasadas. Minhas mãos estão cheias Dos amores que viveram E que também morreram em mim. Estes cujo o peso eu finalmente pude largar. Os que amei, e amarei Até o infinito acabar. Estes viverão em mim para sempre, Mesmo eu tendo cansado de carregar seus cadáveres. O vazio não reaparece em mim mesmo depois de soltar os braços Que o envolviam em abraços doces. Estou só novamente, Mas posso agora falar dos amores Que vivi, Estes me fizeram sentir bem mais que as dores De enterrar seus cadáveres.

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Hoje, só hoje, eu desisto..

Não vou mais vestir fantasias Não vou mais carregar desilusões nos ombros. Eu não quero avançar pelo caminho Desconhecido. Hoje eu permito que somente o tempo me carregue. Não darei nem mais um passo sequer. Pretendo existir em um grande silêncio, Uma enorme ausência. Desprezo qualquer intensidade que me perturbe. Recuso qualquer palavra que ousar pousar em minha boca. Elas não irão escapar de mim. Pois hoje, esse infinito vazio me pertence. Não há nada meu nesse mundo, Por existir. O que tenho é uma porção de amor pra dar E ninguém para receber. Hoje estou entre não existências, Afinal já vivi dores de mais, Minha existência pesa em minhas costas. Hoje, só hoje, Desisto de viver de dentro para fora, Eu cansei. Hoje não existo.

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O desnude do poeta

Eis que tu abre a porta, Me joga para o lado de fora, Me força a ver o mundo com os meus próprios olhos. Leves, cansados, Carregados de desconforto Por ir ao encontro da luz pela primeira vez Depois de tanto tempo na escuridão do pensamento. Agora eu sou só eu, E meu espírito nu não deseja nada Apenas quer provar da liberdade De ser poeta, E de viver de poesia. Mostra-las ao mundo é render-me ao desnude. Ultrapassar as limitações do corpo físico, A poesia é uma extensão do corpo.

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Paradoxo da liberdade

Não sou livre, a liberdade é, para mim, Inatingível. Não sei ser livre, já que na minha humanidade efêmera e crua, sou escravo de meus pensamentos. Escravo das minhas escolhas, escravo do inevitável fim de todo ser que nesse instante vive, Escravo das palavras não ditas, do sentimento reprimido, do ódio contido, de tudo aquilo que amo intensamente. Sou tudo que acelera as batidas do meu coração. Vou muito além dos versos, Não sou a a voz que permaneceu calada, mas me resumo aos silêncios e não aos gritos da canção. Digo que mesmo livre para ser quem sou, permaneço escravo de mim. Mas sei que morrerei, sou também escravo da morte. Só sei, se é que sei, que é assim. Mas comparado ao que há em mim, o mais próximo de liberdade talvez seja o mesmo o fim.

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