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Alcântara da Silva

@Alcantaradasilva · desde 2018

"Eu sou aquele que ficou sozinho, cantando sobre os ossos do caminho, a poesia de tudo quanto é morto". Augusto dos Anjos 21 anos, SP

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Camiseta perdida

Dobrei cada camiseta E a cada camiseta que eu via Me perguntava se realmente usava E realmente eu não sabia Chegando no guarda-roupa A cada camiseta que havia Era uma gaveta que não fechava, Era outra gaveta que não abria, Era a camiseta que eu usava Que no meio das antigas se perdia...

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Este soneto

Não leia este soneto, ele é inútil, Nada agrega em ti, que lês, coitado, Estes versos têm sentido fútil, Que partem do meu peito machucado. Não trago nele ideia construtiva, E nem alma da arte que se eleva, Não partem de uma mente criativa, É vão, vazio, dor... E sombra e treva. Não leia este soneto, eu o desprezei... Até o décimo quarto verso triste, Que nem eu mesmo entendo onde encontrei. São frutos de uma mente perturbada, É o choro preso que eu jamais chorei. São só palavras tristes e mais nada.

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Qué fixo a túa fermosura

Olla meu amor, eres tan tenra, i eres tan envexada que te envexo, que o meu corazón por ti s'enferma i outra cóm'a ti xa non máis vexo. O moito que m'amarga per non vela, non tela aquí tamén o peito inferna, Porque eres fermosa i eres bela, Na túa graza interna i externa. Tí és na fermosura o mal camiño, I eu cá per tí que son enamorado, Te probo rosa, espiño trás espiño, E non sei ser feliz por exiliado, Nen téñoa sorte como tela soño, Pero probas do amor que eu te expoño.

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O Cheiro

Que ar que tem teu cheiro, simplesmente, que eu posso não senti-lo e inda distante, se penso no teu celestial semblante recordo-me então sinto-o docemente. Que fim se deu meu riso neste instante! Que o tempo que passou por entre a gente, nos fez ter muitas mágoas e ciente que tudo que passou era inconstante. Não sei o que será daqui pra frente, se o cheiro que eu recordo-me inda volta, e estraga o que restou, e me destrói. E eu quero não penar disso somente, assim como uma folha que se solta, e a queda não lhe fere e nem lhe dói.

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Senti-me assim no passado...

Senti-me da mesma forma há muito tempo, com o coração apertado como quem nunca viveu e de repente viveu tudo de uma vez. Nos últimos momentos quando a esperança acaba, quando a fantasia se rompe tudo que era feliz se torna uma agonia constante, é quando a gente percebe que toda alegria merece um luto pois a inconstância é uma lei inevitável. Eu senti-me da mesma forma quando percebi a solidão cósmica, como quem leva um soco no peito por estar cego e conseguir ver depois de muito tempo. Como quem toma a angústia como primeira impressão do mundo. Busquei conforto na monotonia e ela me feriu, e dentro dela tudo ficou cinza e nublado, porque na monotonia tudo é assim. E quando você sai da monotonia e acha conforto no imprevisível e a monotonia machuca mais quando você volta a ela. Foi assim que me senti quando olhei para os trilhos e pensei coisas que me assustaram a mim mesmo. Quando de repente pensamentos ruins inundaram a minha cabeça sem deixar claro o motivo. Eu senti-me da mesma forma no passado, quando pensei que tinha morrido e algo despertou em mim e me mostrou que a morte é uma ilusão distante e que eu ainda estou vivo, porque estar morto por dentro é sentir dor e mais dor e nada mais. E não passa disso, porque a morte é ausência da dor mas também a ausência da alegria e da existência. Eu senti-me da mesma forma no passado, quando percebi que a infância acabou e que a vida adulta se resumia em tristeza. Porque quando se cresce a monotonia é inevitável, e a existência se torna uma ânsia constante de quem espera a morte e vê a vida passar lentamente, e pensa que o fim do dia (que é o descanso) traz alguma esperança, porque a esperança é a última que morre. Mas quando ela morre, não sobra mais nada. E a gente morre junto.

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O mágico

No circo um mágico louco Tirou da cabeça a cartola Mas dela não saiu coelho Saiu o seu falso cabelo Depois de alguém passar cola. Depois ele entrou numa caixa E disse que iria sumir Três voltas pra lá e pra cá E todos - Aonde ele está? Depois da tal caixa se abrir. A caixa depois de aberta Estava inteirinha vazia E o pé do mágico ao fundo Saiu diante de todo mundo E viram como ele fazia. O mágico já muito triste De tudo ter dado errado Olhou pra platéia agitada E vendo tanta gargalhada Acabou ficando animado. O mágico então vendo aquilo Sorrindo largou do coelho Pegou uma peruca engraçada De tanto fazer palhaçada Ganhou até nariz vermelho!

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Mundo

Eu sei que este mundo é desumano, que dele só existe uma saída, eu olho pro caminho de descida e ando para trás de ano em ano. Espero que o amanhecer profano Que aguardo ansiosamente quando deito não venha machucar mais o meu peito com tudo que se diz por ser mundano. O mundo é um sofrimento, isso que vejo, trovão que acompanha o relampejo, o choro que se segue pós ferida. É tudo sofrimento e quando acordo, Começo a ver que quanto mais transbordo, mais enche-se de dor toda minha vida.

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Eu fiz muitos poemas...

Eu fiz muitos poemas nesta vida, Fiz versos sobre tudo o que eu não digo, Fiz deles este meu único abrigo Onde entro com a alma dolorida. Fiz deles minha casa e meu jardim, É neles onde eu vivo o tempo inteiro, É neles... Como se fosse o roteiro do filme que a vida fez pra mim. É neles... Miserável sou embora, Que o tanto que minha alma dentro chora, nem um milhão de versos traduzira. Pois isto que eu carrego me dói tanto, Que mesmo que eu escreva sobre o quanto, Nenhum tira de mim... Nenhum me tira...

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Inimigo dos dias e das noites

Se tudo este soneto há de contar-lhes, conte-lhes então o que eu não digo, que tenho um pesar aqui comigo que arrasto para todos os lugares. Diga que é o maior dos meus pesares (de muitos) este é um, que é o inimigo dos dias e das noites, sendo antigo, vivido entre os tempos seculares. Eu chamo este pesar neste soneto, ele ergue-se de mim como um zumbi que vive em corpo nu, como esqueleto. Que esteve em tudo aquilo que eu vivi. Que foi o braço esquerdo e o direito em todos os poemas que escrevi.

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Soneto

Se foi o coração triste sozinho teve sorte porque não sofreu de amor não há pois a lembrança de um carinho, somente há o desejo (que é uma dor). Se pôde viver só, sofreu calado Livrando-se do pranto da partida, não teve mal-me-quer preso ao seu lado, não teve a mente triste e dolorida. Mas não teve o carinho antes do pranto, não teve o beijo à boca nem o toque, não teve nem a cama de acalanto. Feliz, no entanto é quem não teve o choque do término após ter amado tanto, e nem a solidão que lhe provoque.

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