Alcântara da Silva @Alcantaradasilva

Senti-me assim no passado...

Senti-me da mesma forma há muito tempo, com o coração apertado como quem nunca viveu e de repente viveu tudo de uma vez. Nos últimos momentos quando a esperança acaba, quando a fantasia se rompe tudo que era feliz se torna uma agonia constante, é quando a gente percebe que toda alegria merece um luto pois a inconstância é uma lei inevitável. Eu senti-me da mesma forma quando percebi a solidão cósmica, como quem leva um soco no peito por estar cego e conseguir ver depois de muito tempo. Como quem toma a angústia como primeira impressão do mundo. Busquei conforto na monotonia e ela me feriu, e dentro dela tudo ficou cinza e nublado, porque na monotonia tudo é assim. E quando você sai da monotonia e acha conforto no imprevisível e a monotonia machuca mais quando você volta a ela. Foi assim que me senti quando olhei para os trilhos e pensei coisas que me assustaram a mim mesmo. Quando de repente pensamentos ruins inundaram a minha cabeça sem deixar claro o motivo. Eu senti-me da mesma forma no passado, quando pensei que tinha morrido e algo despertou em mim e me mostrou que a morte é uma ilusão distante e que eu ainda estou vivo, porque estar morto por dentro é sentir dor e mais dor e nada mais. E não passa disso, porque a morte é ausência da dor mas também a ausência da alegria e da existência. Eu senti-me da mesma forma no passado, quando percebi que a infância acabou e que a vida adulta se resumia em tristeza. Porque quando se cresce a monotonia é inevitável, e a existência se torna uma ânsia constante de quem espera a morte e vê a vida passar lentamente, e pensa que o fim do dia (que é o descanso) traz alguma esperança, porque a esperança é a última que morre. Mas quando ela morre, não sobra mais nada. E a gente morre junto.

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