Vejo um pôr do sol por onde olho.
Embaixo das carretas com suas cuícas
vazando ar
pelas caçambas cheias de indigesto suor
pela caneta falha anotando minhas falhas
por menor.
Vejo um pôr do sol no arraste seco
dos pés cansados.
No ônibus cheio de sonhos corrompidos
na sirene diária com seu ruído abafado
nos caminhões pingando óleo pela estrada
onde me deito
Sou um elemento pequeno
que faz parte de um todo.
Procurando por um pôr do sol,
que só existe no meu pensamento,
com um remanso sereno ameno
que pelo desgaste, já não sei se mereço.
Willis Leite
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Pressinto a anunciação das sombras
Cobra rastejante num mar de escuridão
Antítese da palavra verdadeira
Poesia sem sentido que não se nomeia
Prenúncio da podridão
Prevejo o escárnio do enunciado
A balbúrdia da incitação
Sua poesia sem significado
Palavra com falsa inspiração
Profetizo o mau augúrio
Que de súbito, nada tem
Transborda de um profundo esgoto
Da forma que lhe convém.
Willis Leite
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Tenho medo de morrer.
Não pela passagem predestinada a cada "fih" de deus
ou pela forma sádica e irônica do destino:
não mexam comigo, a eternidade é o diabo!
Toma teu rumo peão, apruma teu corpo
a coragem é um falso deus que te vende
Te encara atiçando sua audácia
Uma única moeda para sua passagem
O que vale a sua coragem?
Endireita seus passos, peão!
Onde guardará a saudade de quem fica?
quem levará o peso do teu corpo sem vida?
quando se abrirá a vala que findará sua fadiga?
Acorda pra vida peão, pega teu beco
Pra tudo se arruma seu jeito
mas da morte, ninguém escapa do beijo
Acorda pra vida peão, pega teu beco.
Willis Leite
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Um pássaro pousa no galho verde
Da trinca da janela eu vejo — trinca ferro
Canta a chuva que vem vindo
Eu espero, eu espero.
Sento no chão lodo de concreto cinza
Escuto agora um Quero-quero
Quero-quero o sol pra secar minhas roupas
Eu espero, eu espero
No quintal abro caminho com rastelo
Pousa arisco, canário-do-império
Outono colorindo as folhas
De amarelo, amarelo
Willis Leite
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O espelho da autocrítica se quebrou,
sete anos atrás.
O azar busca meu nome.
A culpa não se encontra com o ego.
O orgulho se afunda na cama macia,
sob plumas da incoerência.
Nada de novo sobre a terra — nem acima do céu
Encobrindo os rastros que perambulam
entre Estados — também o de espírito.
Eu encho o peito de minério
Tossindo farelos de pão.
Quem me dera uma cama nesse chão.
O espelho quebrado numa moldura nova.
Para enfeitar a parede cinza
Nesse céu sem cor
Willis Leite
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Escrevo para afastar meus demônios, ou aproximá-los.
Não há resquícios de candura. Apenas sentimentos expostos — palavra nua e crua
Busco na altivez dos sonhos,
a lucidez outrora perdida.
Recolho minha insignificância
na pequenez de minha poesia
Há em minha consciência,
uma profanação através da escrita.
Que vai de encontro, e contra a anestesia. E não por desprezo ao sagrado — mas por
recusa à mentira
Contra a máscara da poesia falida e seus cr(IA)dores iludidos.
Perdidos na própria hipocrisia
em falsas virtudes e moralidades
na mania de grandeza em pequenas frases
E apesar do desgaste do mundo
permaneço sem me perder
e sem nada ser.
Willis Leite
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Como deus de ti
evoca para si,
poesias em sacrifícios
Como se toda palavra,
fosse altar devocional
feito um sol Maia requerendo corações
Escarnecendo da idolatria cega
de mentes crédulas
cercadas de carências.
Espalha seus dogmas
manchados de mentiras
pelo deboche da falsa presença, fria.
Willis Leite
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Procuro o silêncio, não encontro.
Ele se esconde no tremular do ar condicionado
No barulho irritante dos grilos
da minha cabeça
na hora do sono que passa e não chega
A alma silencia o corpo inquieto
balançando os pés,
buscando refúgio na memória do berço.
da sensação de conforto
do silêncio que antecede o beijo
Quando finalmente o ar condicionado
cessa suas vibrações
e os grilos findam-se as estridulações
Turbinas rompem o silêncio
dos meus pensamentos.
Willis leite
Manaus
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Entendo completamente
toda revolta do mundo,
quando revistas renomadas
nomeiam o fútil como exemplar.
Enquanto a mente criativa e curiosa
carrega a cruz, pelos que antes,
não sustentavam seus próprios corpos.
Entendo a revolta dos que caminham
por entre as pedras de suas criações.
Vendo que a mentira, caminha firme
abrindo estradas tortuosas,
bradando a arrogância de ser o que não é.
A poesia perde o brilho da pureza
digitado por dedos mecanizados.
Pelo sentimento forjado
do que não é possível sentir.
Enquanto isso,
palhaços em circo de horrores
vomitam palavras que não entendem,
ditando regras em rimas mal feitas,
do palanque podre de suas ruínas.
A poesia vos abomina,
cercados de palmas e curtidas.
Willis Leite
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Em seu aconchego, seu dengo
Sinto minha alma acalentada
Mirando o horizonte de eventos
frente a vida, frente a alma lavada
Não é descida, não é subida
É retidão dos passos acalorados
O desejo frente ao desespero
A vontade de estar presente,
de cultuar a presença
Presença física
dos sentimentos compartilhados
O estado ilhado do desejo não latente
desejado estado, desajeitado amado
O desespero de amar incondicionalmente
Aproximar além do Estado
E saber que em uma vida não é suficiente
Nas vidas passadas me perdi,
no futuro, te encontrarei
Cultuando seu altar,
o mais belo que sonhei
Minha estrela, minha vida
Por ti sempre estarei.
Willis Leite
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