Em meio ao silêncio,
vejo a dor se instalar.
Sem ruído.
Sem pressa.
Apenas observando, paciente,
o instante inevitável
em que desabo.
E desabo.
Não do corpo,
o corpo continua aqui,
erguido pela obrigação.
Mas há pensamentos
que aprendem a afundar o coração
até que respirar pareça
um esforço consciente.
Às vezes sinto a loucura
batendo à porta da mente,
insistente, como quem sabe
que uma hora será atendida.
E os pensamentos…
ah, os pensamentos.
Assustadores.
Repugnantes.
Silenciosos o suficiente
para crescerem escondidos.
Eles me lembram
do esconderijo da dor.
Esse lugar estranho
onde tudo permanece tão bem guardado
que quase esquecemos sua existência.
E então seguimos vivendo
como se a vida fosse, inevitavelmente, boa.
Como se existir
não doesse em silêncio.
Livre por fora.
Cheia de vida aos olhos errados.
Mas presa
pela própria dor.
Uma dor que talvez
só o céu reconheça.
Porque basta uma única gota
para que a tempestade se anuncie.
E aquilo que parecia pequeno
de repente se torna furacão.
O pânico sabe crescer assim:
quieto.
Nenhuma verdade é absoluta.
Até o sorriso mais bonito
pode esconder o peso mais cruel.
Uma coisa nunca anulou a outra.
E entre o desespero
dos pensamentos que não cessam,
prefiro a calmaria do tempo.
Ou talvez não a calmaria.
Talvez apenas
a falsa sensação
de estar bem.
Como se a paz fosse isso:
uma imaginação bonita
o suficiente para enganar a dor
por mais algumas horas.
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Um dia
alguém vai olhar para você
e dizer que valeu a pena.
E talvez,
só talvez,
esse alguém seja você.
Um dia
você vai sentir falta de amar.
E, ainda assim,
vai lembrar exatamente
por que aprendeu a ter medo.
E talvez,
só talvez,
pense em mudar.
Um dia
vai olhar para o passado e sorrir.
Não por saudade,
mas porque já passou.
E talvez,
só talvez,
entenda que tudo o que foi
permanece apenas nisso:
foi.
Um dia
vai se arrepender.
Do que não tentou,
do que não viveu,
do que deixou passar
como se o tempo fosse esperar.
E talvez,
só talvez,
perceba que nada nunca foi feito
para durar.
Mas esse dia…
quando chegar,
o que ele traz?
Alívio?
Vazio?
Ou apenas a estranha sensação
de que demorou demais?
E aqui estou,
tentando apressar o tempo
como se pudesse atravessá-lo
antes de vivê-lo.
Como se entender o futuro
diminuísse o peso do agora.
Só espero que, um dia,
eu consiga voltar
a ser um pouco mais eu.
Se é que esse “eu”
algum dia existiu inteiro.
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Certa vez, cansada,
olhei para o céu
como quem espera que o alto
responda o que o dentro não alcança.
Perguntei demais.
Tanto,
que aquilo que eu tinha
começou a perder a curva,
como se a dúvida apagasse
o valor das coisas.
E ainda assim,
bastava a ausência de um dia
para que tudo voltasse
com mais intensidade.
Como se o que falta
gritasse mais alto
do que o que permanece.
Dizem que certas coisas são importantes
por serem, simplesmente.
Eu desconfio.
Há uma estranha lógica na perda:
é ela quem ilumina o que antes
passava despercebido.
Como se o valor
não estivesse nas coisas,
mas no vazio
que deixam quando partem.
E isso é quase injusto.
Se é preciso perder
para compreender,
qual o sentido de possuir?
Se a lua deixasse de existir
por algumas noites,
sentiríamos falta
ou apenas estranharíamos o escuro?
Perceberíamos?
Ou seguiríamos vivendo,
ocupados demais
para notar o que desaparece?
O tempo escapa de nós.
Sempre escapou.
Então por que corremos tanto atrás dele?
Medo?
Controle?
Ou apenas a ilusão
de que é possível segurar
o que nunca foi feito
para permanecer?
Talvez só sintamos falta
daquilo que acreditávamos dominar.
E talvez, no fundo,
não seja perda.
Seja apenas o instante
em que percebemos
que nunca tivemos controle algum.
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Até onde o amor vai?
Até onde ele aguenta?
E aguentar, é amar
ou apenas temer o vazio
depois da perda?
O que é o amor, afinal?
Quatro palavras bem ditas,
organizadas o suficiente
para parecerem verdade?
Ou algo que simplesmente existe
sem pedir definição?
É escolha
ou é destino?
E, se for escolha,
até quando se escolhe?
Existe um limite
onde o amor cansa?
Ou amar alguém
é um caminho sem retorno,
irreparável mesmo quando já não faz sentido?
Queria entender o amor.
Talvez assim
eu soubesse proteger
o que realmente importa.
Dizem que é o sentimento mais bonito.
E por um tempo,
eu acreditei.
Acreditei com a facilidade
de quem se deixa levar
pela promessa do que ainda não viveu.
Havia beleza nas palavras.
Havia encanto suficiente
para fazer parecer real.
Mas palavras
sabem ser belas
sem serem verdadeiras.
E o amor - ou aquilo que chamamos
assim - às vezes se mostra apenas isso:
um sentimento.
E sentimentos
são usados.
Ditos com cuidado,
soam como poesia
no ouvido de quem recebe.
Mas nas ações…
nas ações,
às vezes não chegam.
E é aí que o amor se afasta.
Não porque deixou de existir,
mas porque deixou de alcançar.
E então ele se torna isso:
algo bonito de dizer
e difícil de reconhecer.
Quase distante.
Quase triste.
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Há perguntas que nunca encontram resposta.
Não porque sejam impossíveis,
mas porque o tempo necessário
para respondê-las
às vezes simplesmente não acontece.
A vida, em certos momentos,
exige explicações.
Quer motivos,
quer razões,
quer algo que organize o que se quebrou.
Mas e se não houver nada?
E se algumas coisas apenas acontecem
porque precisavam acontecer - mesmo que ninguém saiba por quê?
Ainda assim insistimos em procurar.
Olhando para a lua,
seu brilho parece quase hipnotizante.
Lembro de certos olhos
que tinham a mesma luz.
E, mesmo assim, fizeram falta.
Como o pôr do sol
quando desaparece
sem avisar.
A noite chega,
e a lua toma seu lugar.
Mas desta vez
não eram mais aqueles olhos.
Era apenas a lua.
Porque, de alguma forma,
você se foi.
Sem explicação.
Sem motivo.
Ou talvez com um motivo
que eu nunca perguntei.
Há perguntas que escolhemos não fazer.
Digo a mim mesma
que é sensatez.
Mas talvez seja apenas
a estranha aceitação
de que algumas pessoas
deixam de ser
a nossa pessoa.
E então restam perguntas.
Leves demais para permanecer,
pesadas demais para esquecer.
Perguntas que eu não guardo.
Perguntas que eu deixo
com o vento.
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O caos me olhou.
Não como quem invade,
mas como quem reconhece
um lugar antigo.
Como quem retorna.
Não havia pressa em seus gestos.
Nem violência.
Havia algo pior:
familiaridade.
Como se ele soubesse
que, cedo ou tarde,
eu acabaria entendendo.
— Como foi que eu entrei na sua vida desse jeito?
Não sei se foi ele quem perguntou
ou se fui eu.
Às vezes a mente cria vozes
só para suportar certas respostas.
Demorei a perceber
que ele não perguntava
quando começou.
Perguntava
por que eu ainda fingia
não reconhecê-lo.
Sempre pensei no caos
como aquilo que desorganiza.
Aquilo que rompe,
que desloca,
que tira as coisas
do lugar em que fingiam caber.
Mas existe um tipo de caos
que não destrói.
Ele revela.
Revela o que já estava mal sustentado.
O que parecia firme
apenas porque ninguém tocava.
Eu dizia querer evitá-lo.
Mas evitar o caos
seria evitar movimento.
Seria desejar permanência
num mundo que nunca prometeu estabilidade.
Foi então que entendi
algo que me inquietou mais do que o próprio caos:
não era ele que me assustava.
Era a perda de controle.
Era não saber o próximo passo.
Era admitir que nem tudo pode ser previsto.
Nem contido.
O meu próprio caos
eu conheço.
Ele tem nome.
Tem memória.
Tem limites.
O dos outros,
não.
E talvez seja isso
que realmente desorienta.
No fim,
o caos não é desordem.
É transição.
Não é destruição.
É deslocamento.
Não é o fim das coisas.
É o fim das certezas.
E talvez o medo
nunca tenha sido dele.
Talvez o medo seja perceber
que aquilo que chamamos de ordem
era apenas uma pausa breve
antes de tudo se mover.
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Sempre acreditei que a vida, em algum momento,
revelaria um sentido.
Não um grande sentido, apenas algo suficiente
para justificar a existência das coisas.
Como se o inexistente pudesse, de repente, acontecer.
Talvez seja assim que o sol nasce:
sem explicar nada, apenas espalhando laranja e roxo pelo céu
como se fosse natural que a beleza existisse.
Eu queria que a vida fosse assim também.
Algo que simplesmente acontece
e, por acontecer, já basta.
Mas penso demais.
Às vezes meus pensamentos me levam para longe.
Outras vezes me deixam exatamente onde
estou, o que, curiosamente, é ainda mais
distante.
Gosto de acreditar que um sorriso faz diferença.
Talvez porque faça diferença para mim.
Há em cada pessoa uma estranheza silenciosa,
algo desalinhado, como uma peça do mundo colocada no lugar errado.
E então alguém sorri
e por um instante parece que tudo se encaixa.
Mas logo achamos isso patético.
Talvez porque a ironia seja uma forma elegante de defesa.
A ironia é curiosa:
ela carrega verdade suficiente
para ser suportável.
A verdade pura, às vezes, não é.
Então começo a me perguntar:
Confiamos porque acreditamos
ou acreditamos porque precisamos confiar?
E quando acreditamos,
é realmente fé ou apenas uma história que contamos a nós mesmos para que o mundo não pareça tão vazio?
Cada pessoa tem suas próprias verdades.
Verdades íntimas, frágeis, que só fazem sentido dentro da própria mente.
Ou dentro das mentes
que aceitam partilhá-las.
Mentes pensantes nunca descansam.
Elas inventam perguntas
onde talvez não exista nada para perguntar.
Criam significados como quem acende pequenas luzes
no escuro.
Mas quem pode afirmar o que é certo?
Ou pior: quem pode afirmar que o errado realmente existe?
Talvez prudência e argumento sejam apenas palavras
tentando organizar o caos.
Talvez tudo seja apenas uma tentativa
de tornar suportável
o fato de que pensamos demais.
No fim, sou apenas isso:
uma mente que pensa.
๋ ࣭ ⭑𝓨𝓾𝓶𝓲𝓷𝓼𝓴𝓲𝓮 ๋ ࣭ ⭑
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Temos sorte,
a bela sorte de nos encontrar.
De convivermos juntas
e crescermos lado a lado.
Temos sorte
de errar
e aprender com o que nos quebra.
Mais sorte ainda
porque mesmo nos perdendo todos os dias,
no fim,
a gente sempre se acha.
Meio borocoxô,
às vezes meio sensível,
outras meio desesperançosa.
Insegura,
desacreditada…
eu poderia listar o mundo inteiro,
mas ainda assim:
temos sorte.
Sorte que a gente escolheu.
A pequena eu
e a jovem eu,
andando de mãos dadas
com a mulher que ainda vai chegar.
E ela vai entender,
com um olhar mais calmo,
com menos pressa de se cobrar,
o porquê dessa sorte.
Mas sorte?
Talvez a palavra certa seja outra.
Destino.
Não aquele que cai do céu
como milagre,
mas o que se constrói no caminho:
um passo depois do outro,
um tropeço depois do outro,
um recomeço depois do outro.
Fomos destinadas, sim.
Não a acertar sempre,
mas a continuar.
E assim,
entre alguns olhares,
a gente amadurece…
e se encontra
de novo.
๋ ࣭ ⭑𝓨𝓾𝓶𝓲𝓷𝓼𝓴𝓲𝓮 ๋ ࣭ ⭑
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Há um silêncio
nas palavras ditas em voz alta
que não encontram retorno.
Mesmo quando a resposta
permanece ali, clara demais
para ser tocada.
É a teimosia que condena
ou a que mantém vivo?
Persistir
é coragem
ou apenas medo
de aceitar o fim das coisas?
Algumas perguntas parecem pequenas,
mas exigem o corpo inteiro
como resposta.
Até quando uma promessa resiste?
Até o cansaço?
Ou até doer o suficiente para desistir
sem culpa?
Talvez seja só a mente falando alto
demais num quarto vazio.
Mas o tempo,
esse juiz cansado,
nem sempre resolve.
Às vezes apenas assiste.
E como.
Então por que insistir?
O que se espera salvar quando
tudo já pesa?
Talvez eu tenha pesado a mão.
Outra vez.
Como esquecer palavras
que soaram verdadeiras demais?
Tão verdadeiras que criaram futuros,
ergueram expectativas maiores
do que o chão podia sustentar.
E lá no fundo,
onde ninguém confessa, ainda ardia
uma chama pequena de esperança.
Tolice, eu sei.
Mas nenhuma tolice nasce vazia.
Sentimentos,
ou a ausência deles,
sempre vêm de algum lugar.
E quase sempre nascem de expectativas que
não sabiam ser medidas.
Ou talvez não?
Depois vem a frustração:
as promessas que não couberam no tempo,
nem na vontade.
Ainda assim,
a lua permanece.
Observa em silêncio, testemunha as tentativas,
encanta-se com o que se quebra.
Talvez isso não seja ausência.
Talvez seja apenas o resto
do que se tentou escrever
e não se viveu.
๋ ࣭ ⭑𝓨𝓾𝓶𝓲𝓷𝓼𝓴𝓲𝓮 ๋ ࣭ ⭑
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Há um sorriso suspenso no ar
Como algo que quase foi
Há um brilho que se perdeu no caminho
Um amor que nunca chegou a existir
E tantas coisas não vividas
Que o nada acabou ocupando espaço demais
Há um céu absurdamente azul lá fora
E ninguém disposto a levantar os olhos
Há pores do sol que morrem anônimos
Pinturas que só poucos decifram
Porque nem toda beleza grita
Algumas apenas aguardam quem saiba sentir
A vida é isso:
um acúmulo de “há’s” esquecidos
Presenças que passam despercebidas
E ausências que aprendemos a carregar
E ainda assim,
há algo que todos dividem em silêncio:
O desejo de ser diferente,
ou de viver algo que escape da rotina da dor
Há mentiras pequenas que inventamos
Para continuar de pé,
para não encarar as consequências
do que sentimos de verdade
Porque, às vezes, fingir que está tudo bem
Parece menos assustador do que admitir
Que algo dentro de nós pede mudança
Admitir a rachadura no peito
É dar permissão para a luz entrar
Mas preferimos o mofo do antigo
Ao risco de ter que recomeçar
Construímos muros com os "quases"
e telhados com o que "poderia ter sido"
Morando em casas de vidro e silêncio
Onde o grito é um hóspede proibido
Mas a vida, em sua teimosia,
insiste em bater à janela
Ela não quer a nossa perfeição
Ela quer apenas que sejamos parte dela
No fim, o que resta do inventário
Não é o que fingimos para sobreviver
Mas a coragem de, ao menos uma vez
Deixar o que há em nós simplesmente ser.
๋ ࣭ ⭑𝓨𝓾𝓶𝓲𝓷𝓼𝓴𝓲𝓮 ๋ ࣭ ⭑ & 𝒢𝑙𝑎𝑢𝑏𝑒𝑟 𝒮𝑎𝑛𝑡𝑡𝑜𝑠
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