Yuminskie @samie

Cartografia do Caos

O caos me olhou. Não como quem invade, mas como quem reconhece um lugar antigo. Como quem retorna. Não havia pressa em seus gestos. Nem violência. Havia algo pior: familiaridade. Como se ele soubesse que, cedo ou tarde, eu acabaria entendendo. — Como foi que eu entrei na sua vida desse jeito? Não sei se foi ele quem perguntou ou se fui eu. Às vezes a mente cria vozes só para suportar certas respostas. Demorei a perceber que ele não perguntava quando começou. Perguntava por que eu ainda fingia não reconhecê-lo. Sempre pensei no caos como aquilo que desorganiza. Aquilo que rompe, que desloca, que tira as coisas do lugar em que fingiam caber. Mas existe um tipo de caos que não destrói. Ele revela. Revela o que já estava mal sustentado. O que parecia firme apenas porque ninguém tocava. Eu dizia querer evitá-lo. Mas evitar o caos seria evitar movimento. Seria desejar permanência num mundo que nunca prometeu estabilidade. Foi então que entendi algo que me inquietou mais do que o próprio caos: não era ele que me assustava. Era a perda de controle. Era não saber o próximo passo. Era admitir que nem tudo pode ser previsto. Nem contido. O meu próprio caos eu conheço. Ele tem nome. Tem memória. Tem limites. O dos outros, não. E talvez seja isso que realmente desorienta. No fim, o caos não é desordem. É transição. Não é destruição. É deslocamento. Não é o fim das coisas. É o fim das certezas. E talvez o medo nunca tenha sido dele. Talvez o medo seja perceber que aquilo que chamamos de ordem era apenas uma pausa breve antes de tudo se mover. ๋ ࣭ ⭑𝓨𝓾𝓶𝓲𝓷𝓼𝓴𝓲𝓮 ๋ ࣭ ⭑

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