Eu já sabia do fim, nós duas sabíamos.
Ele nos rondava como um fantasma vivo
que tinha medo da própria assombração.
Parecia que o fim tinha medo do fim.
Nosso amor, tão ingênuo e voraz,
que até o ódio tinha inveja.
Eu tento te odiar,
olhar para tudo como se fosse nada,
enfiar minha mão no peito
e arrancar esse amor,
arrancar você de mim.
Mas você está em tudo.
Tudo que vejo,
sinto,
ouço,
toco,
Lembro
Esqueço
Você é meu fantasma vivo.
E eu rezo para que um dia você apareça para mim,
que pare de rondar os cômodos da lembrança
e me lembre como é sentir
o corpo arrepiar.
Eu não ouço seus áudios,
mas ouço sua voz na minha cabeça,
como uma música dramática
que me faz chorar.
Você me faz chorar.
Eu não consigo lembrar de você
sem que uma lágrima sequer escorra
pela ladeira do meu rosto,
sem que eu sinta o amargo da saudade.
Essa falta.
Esse vazio quase algo
que se estende por todo o meu ser,
com um ponto de interrogação
me perguntando o que poderia ter sido,
mesmo sabendo
do nosso profético fim.
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Eu tenho essa mania ridícula de achar que sou a protagonista de um filme francês, quando na verdade eu só sou uma grande imbecil que não sabe fazer um café sem fazer um espetáculo de incompetência na cozinha.
Hoje eu acordei idiota. pensando que a palavra "olá" tem três letras e que nenhuma delas resolve o fato de que eu sinto sua falta. Eu sinto. Muito. Bastante. Demais. Estudei advérbios de intensidade na escola só para descobrir, anos depois, que eles não medem o tamanho do estrago que um sumiço faz no peito de alguém.
A verdade é que amar é um negócio profundamente humilhante. A gente vira um bicho esquisito que torce para o celular vibrar na diagonal do sofá. Se o peito aperta, eu juro para mim mesma que é telepatia, que você também apontou para a lua no mesmo segundo, mas provavelmente era só o café ruim fazendo efeito.
Eu sou um furacão humano de bobice tentando parecer adulta. Escrevo textos longos que parecem um pedido de socorro de um náufrago, mas quando olho em volta, percebo que só estou sentada no chão do quarto, rodeada de meias desemparelhadas e da certeza absoluta de que, mesmo sendo essa esquisitice inteira, eu ainda queria que você estivesse aqui para ser idiota comigo.
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No dia em que o mundo ceder,
e o chão esquecer seu dever,
não questionarei o amanhã.
As casas se inclinarão,
como quem pede perdão ao vento.
E o céu, em sua costura frágil,
rasgará sua justiça sobre os perversos.
A estrela beijará o mar
com seus lábios vermelhos
e hálito de ferrugem.
O verde secará,
e a mais bela flor haverá de murchar,
pétala por pétala.
Tudo há de passar.
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coberta por vestes pálidas
que me vestem a nudez,
despindo minhas mais puras palavras
com minha língua pecaminosa.
Em uma catedral vazia,
grito por socorro,
para que algum deus compadecido
contemple o tamanho da minha insignificância
e me tome o sopro.
Ele me perguntou
se eu queria uma vida eterna.
Eu disse que só queria
uma casa no campo.
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Quando tua palavra atravessar a minha,
não haverá ruína suficiente
para prender meus pés.
A manhã abrirá sua pálida Janela,
e tua Ausência, tão disciplinada,
saberá o caminho melhor que eu.
O retrato persistirá na parede,
como persistem certas estrelas
depois que o céu as esquece.
Não discutirei com a porta.
Ela conhece o ofício de partir
mais do que qualquer morador.
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Outro dia, numa rodoviária,
sentada em um banco de espera,
olhei em volta.
E percebi:
todos que passavam
cabiam dentro de si.
Andavam como se as pernas
não se esfregassem,
como se os pés
não doessem de sustentar o próprio peso,
como se o tecido das roupas
não pressionasse as costelas,
como se o vento nos cabelos
não exigisse contenção.
E aceitavam.
E eram.
Dentro de mim,
Agonia.
Agonia na ausência,
na língua presa ao céu da boca,
nas dobras do joelho,
no tecido das roupas,
no cabelo ao vento,
Na falta,
no excesso,
Agonia
no ser
Agonia
em todos os meus gestos.
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Não sejas tão cruel,
não me despertes o desejo
dos teus lábios
e depois o apartes de mim.
Não me soe tua voz,
nem esse riso que me desconserta,
dando-me o desprazer
de não tê-lo por mais uma noite.
Não sejas tão exata —
é difícil desaprender o que cabe.
Não tomes o meu vazio para si,
pois não haverá refúgio
em mim, quando partires.
Então, não sejas tão egoísta:
deixa-me,
ainda que pouco,
um pouco de amor,
para que eu não recorra ao teu.
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Neste estado deliberado
onde certezas não se negociam,
permaneço atenta
para que as dúvidas
não antecipem a queda.
Essa precisão de amar
inteira —
até tornar-me inteiramente vazia
faz-me perecer,
quebrando os dedos
até que não reste
a mínima sobra
de esperança,
podendo, então,
calar o coração.
Utopia de promessas
que se quebram —
estalam,
rangem,
e então,
silêncio.
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Se hoje eu me for,
amanhã o dia amanhecerá azul.
Alguém lembrará de mim
sem saber o meu nome.
Alguém saberá o meu nome
e não se lembrará de mim.
A cama em que durmo
repousará outro corpo.
O coração que diz me amar
baterá por outro.
A coragem me olhará com desprezo
e o medo chorará no sepulcro.
Hoje o dia amanheceu cinzento,
e alguém me chamou na névoa densa.
Em seu pulso havia um relógio
e em seu peito um colar dourado
com um nome cravado —
sentença.
🕰
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portas largas
caminhos estreitos
não caibo em caixas vazias
teu dito
não dita o meu viver
não sou Maria,
e se eu a encontrar lhe direi
com todas as letras de uma vida
Maria, vai sozinha.
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