amargor na ponta da língua
ditados insolentes dançando na saliva
formando pares com sonetos adocicados
num disse-que-me-disse
líquido de sabor umami
que escorre entre as frestas dos dentes
e invade o âmago da garganta
de maneira indecente
ditos que viram mãos salientes
golpeando a boca do estômago
provocando um vômito súbito
expulsando as palavras não-vivas
de lembrança resta na língua
um sabor meio-doce meio-salgado
em forma de farpas aguçadas
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Pelos verdes mares navegava o pescador
Velejava mar adentro solitário
Adentrava nas ondas do oceano imaginário
Buscando o acalento azulado
Retornava a terra firme anti náutico
Seguia a luz do farol amarelado
E repousava nas pedras do mar, alado
Ficava nas rochas sentado
Mas uma parte sua continuava em náufrago
Com o coração feito vela ao vento rasgado
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Me exile em uma ilha
Uma ilha banhada pelas águas azulinas
Rodeada pela areia dourada
Com vitrais de flores e cavalos-marinhos
Uma ilha que pareça com as ilusões da mente
Recheada pelos devaneios excessivos
E pelos desejos não-mortos
Uma ilha que eu possa desbravar
Sem nunca me perder
Que seja forrada por um céu que desça às minhas mãos
E por um chão que eu consiga andar
Uma ilha que tenha a água salgada
Tão salgada quanto aquilo que já provei
Ou tão doce quanto aquilo que nunca degustei
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Sento na cafeteria e não peço o de sempre. Desprezo o pão de queijo com café que eu pedira todas as vezes.
Atravesso meu olhar pela vitrine de doces e salgados e me atraio. Peço uma torta de mirtilos com limão e me derramo sobre ela. Troco o café sem açúcar por um capuccino e o bebo.
Não quero muito mais que o mesmo. Eu quero o novo.
O vácuo do meu corpo me preenche
De lá vem um barulho estranho
A decoração de lá é exótica
Tento o tampar, mas ele se esvai
Quando o olho de perto
Enxergo uma constelação variada
Como se o vazio não fosse tão vazio assim
Como se ele guardasse segredos e magias
Continuo o observando
Percebo que ele sempre vai estar comigo
E se ao invés de preenchê-lo e fugir
Eu simplesmente o abraçasse?
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O amor é uma esquina, com entrada e saída.
É uma esquina porque não sabemos o que nos espera ao virar à esquerda ou à direita. Se será bom ou ruim, conhecido ou inesperado.
O amor é uma esquina porque nos faz enxergar novas casas, novos carros, novos cenários.
Porque nesse trecho podemos caminhar sozinhos ou acompanhados, sem garantia do que encontraremos pelo caminho. Se nos amparará ou nos prenderá.
Mas, caso seja a segunda opção, temos o poder de mudar a rota,
dobrar outra esquina, traçar outro destino.
O amor não é um beco sem saída.
É um cruzamento.
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Em uma casinha de palha,
Feita com chão batido,
Ornamentada pelos raios solares,
E vigiada pelas andorinhas
Vivia um homem de sessenta anos,
Perseguido pelo cantar dos pássaros,
E atraído pelo reflexo do rio sereno,
Aos pores do sol corria para margem
Enxergava na correnteza da água,
Sua versão mais juvenil,
Seus amores passados,
E suas alegrias realizadas
O homem de sessenta anos,
Mergulhava nas águas,
Desejando outra vez,
Ser banhado pela juventude
Voltava para a superfície,
E em seu reflexo,
Reconhecia as rugas e o cabelo branco,
E pensava: ser velho é ser rio também.
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Na singularidade de seu olhar acastanhado,
Maria carregava aquilo que era incapaz de ser compreendido,
Quem fitava seus olhos,
Não sabia se ela padecia,
Ou se vivia em alegria
Em seus cabelos encaracolados,
Maria guardava em cada curva,
Memórias passadas e anseios pelo futuro
Fios que haviam sido tocados por pessoas que já se foram
E que serão amaciados por quem virá
Em seus pés descalços,
Rachados por percorrem a dura estrada da vida,
Maria tem decorado o caminho da solidão
Que a fazia voejar
Em seu coração,
Que uma vez fora desabrochado,
Maria guardava suas dores e alegrias,
Penava a agonia e o regozijo alheio
Em sua serene vida,
Maria flutuava entre o céu e a terra,
Provava do doce e do amargo,
Mas sempre sendo inteiramente sua
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A nuvem negra que vinha dando às caras depois de dias de sol saliente parecia bela, macia, aconchegante.
O oásis que eu tanto buscava na Terra se confundiu e começou a ter duplo sentido. Antes era azul, calmo e ventilado, mas passou a ser cinza, barulhento e abafado.
O oásis azul era de uma calmaria que incomodava, dava raiva, nele eu ficava calma, mas calma com nojo. Uma estranheza sem fim, nada acontecia, um tédio de dar desgosto.
O oásis cinza era feio, vivia escuro, bagunçado, empoeirado. Mas o barulho de lá me enfeitiçava, a poeira não irritava minhas narinas, a escuridão não me atrapalhava na vista. Nele ficava confortável, um conforto de arrepiar, um caos gostoso de ficar.
Me remexia entre os dois lugares. Ia pro azul e depois voltava pro cinza, era uma locomoção sem fim. Mas um dia fiquei atônita e refleti. Qual será a bagunça do oásis cinza que me mantém por lá?
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Tu me deu a vida, e depois me deixou em prantos.
Me deu água, e depois me deixou com sede.
Me ofereceu abrigo, e depois me deixou sem teto.
Me amou, e depois me abandonou.
Durante tempos acreditei que dois caminhos não se cruzam por um acaso. Bordava na minha imaginação retratos nossos. Escrevia em cartas diálogos imaginários. Sonhava com o teu toque. Fantasiava idealizações falsas. Criava um roteiro perfeito, com início, meio e fim.
Com a urgência de sentir sabores adocicados na ponta da língua, mergulhava no mel que me era oferecido, e comia, comia, e comia mais. Quando o mel acabou, senti o amargo na boca. A boca que antes era doce, se tornou travada pela acidez.
Me deparei sem nada, como se tudo que tivesse vivido tivesse sido uma miragem. E eu, errante, faminta, solitária, me alimentei somente com o que restou de mim.
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