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isa

@isappedrosa · desde 2023

42 poemas 16 seguidores 8 seguindo

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umami

amargor na ponta da língua  ditados insolentes dançando na saliva formando pares com sonetos adocicados num disse-que-me-disse líquido de sabor umami  que escorre entre as frestas dos dentes e invade o âmago da garganta de maneira indecente ditos que viram mãos salientes golpeando a boca do estômago provocando um vômito súbito expulsando as palavras não-vivas de lembrança resta na língua um sabor meio-doce meio-salgado em forma de farpas aguçadas

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O pescador

Pelos verdes mares navegava o pescador Velejava mar adentro solitário Adentrava nas ondas do oceano imaginário Buscando o acalento azulado Retornava a terra firme anti náutico Seguia a luz do farol amarelado E repousava nas pedras do mar, alado Ficava nas rochas sentado Mas uma parte sua continuava em náufrago Com o coração feito vela ao vento rasgado

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A ilha

Me exile em uma ilha Uma ilha banhada pelas águas azulinas Rodeada pela areia dourada Com vitrais de flores e cavalos-marinhos Uma ilha que pareça com as ilusões da mente Recheada pelos devaneios excessivos E pelos desejos não-mortos Uma ilha que eu possa desbravar Sem nunca me perder Que seja forrada por um céu que desça às minhas mãos E por um chão que eu consiga andar Uma ilha que tenha a água salgada Tão salgada quanto aquilo que já provei Ou tão doce quanto aquilo que nunca degustei

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O Novo

Sento na cafeteria e não peço o de sempre. Desprezo o pão de queijo com café que eu pedira todas as vezes. Atravesso meu olhar pela vitrine de doces e salgados e me atraio. Peço uma torta de mirtilos com limão e me derramo sobre ela. Troco o café sem açúcar por um capuccino e o bebo. Não quero muito mais que o mesmo. Eu quero o novo.

Vazio

O vácuo do meu corpo me preenche De lá vem um barulho estranho A decoração de lá é exótica Tento o tampar, mas ele se esvai Quando o olho de perto Enxergo uma constelação variada Como se o vazio não fosse tão vazio assim Como se ele guardasse segredos e magias Continuo o observando Percebo que ele sempre vai estar comigo E se ao invés de preenchê-lo e fugir Eu simplesmente o abraçasse?

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Amor é cruzamento

O amor é uma esquina, com entrada e saída. É uma esquina porque não sabemos o que nos espera ao virar à esquerda ou à direita. Se será bom ou ruim, conhecido ou inesperado. O amor é uma esquina porque nos faz enxergar novas casas, novos carros, novos cenários. Porque nesse trecho podemos caminhar sozinhos ou acompanhados, sem garantia do que encontraremos pelo caminho. Se nos amparará ou nos prenderá. Mas, caso seja a segunda opção, temos o poder de mudar a rota, dobrar outra esquina, traçar outro destino. O amor não é um beco sem saída. É um cruzamento.

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Sessenta anos

Em uma casinha de palha, Feita com chão batido, Ornamentada pelos raios solares, E vigiada pelas andorinhas Vivia um homem de sessenta anos, Perseguido pelo cantar dos pássaros, E atraído pelo reflexo do rio sereno, Aos pores do sol corria para margem Enxergava na correnteza da água, Sua versão mais juvenil, Seus amores passados, E suas alegrias realizadas O homem de sessenta anos, Mergulhava nas águas, Desejando outra vez, Ser banhado pela juventude Voltava para a superfície, E em seu reflexo, Reconhecia as rugas e o cabelo branco, E pensava: ser velho é ser rio também.

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Maria

Na singularidade de seu olhar acastanhado, Maria carregava aquilo que era incapaz de ser compreendido, Quem fitava seus olhos, Não sabia se ela padecia, Ou se vivia em alegria Em seus cabelos encaracolados, Maria guardava em cada curva, Memórias passadas e anseios pelo futuro Fios que haviam sido tocados por pessoas que já se foram E que serão amaciados por quem virá Em seus pés descalços, Rachados por percorrem a dura estrada da vida, Maria tem decorado o caminho da solidão Que a fazia voejar Em seu coração, Que uma vez fora desabrochado, Maria guardava suas dores e alegrias, Penava a agonia e o regozijo alheio Em sua serene vida, Maria flutuava entre o céu e a terra, Provava do doce e do amargo, Mas sempre sendo inteiramente sua

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Vida

Oásis

A nuvem negra que vinha dando às caras depois de dias de sol saliente parecia bela, macia, aconchegante. O oásis que eu tanto buscava na Terra se confundiu e começou a ter duplo sentido. Antes era azul, calmo e ventilado, mas passou a ser cinza, barulhento e abafado. O oásis azul era de uma calmaria que incomodava, dava raiva, nele eu ficava calma, mas calma com nojo. Uma estranheza sem fim, nada acontecia, um tédio de dar desgosto. O oásis cinza era feio, vivia escuro, bagunçado, empoeirado. Mas o barulho de lá me enfeitiçava, a poeira não irritava minhas narinas, a escuridão não me atrapalhava na vista. Nele ficava confortável, um conforto de arrepiar, um caos gostoso de ficar. Me remexia entre os dois lugares. Ia pro azul e depois voltava pro cinza, era uma locomoção sem fim. Mas um dia fiquei atônita e refleti. Qual será a bagunça do oásis cinza que me mantém por lá?

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Miragem

Tu me deu a vida, e depois me deixou em prantos. Me deu água, e depois me deixou com sede. Me ofereceu abrigo, e depois me deixou sem teto. Me amou, e depois me abandonou. Durante tempos acreditei que dois caminhos não se cruzam por um acaso. Bordava na minha imaginação retratos nossos. Escrevia em cartas diálogos imaginários. Sonhava com o teu toque. Fantasiava idealizações falsas. Criava um roteiro perfeito, com início, meio e fim. Com a urgência de sentir sabores adocicados na ponta da língua, mergulhava no mel que me era oferecido, e comia, comia, e comia mais. Quando o mel acabou, senti o amargo na boca. A boca que antes era doce, se tornou travada pela acidez. Me deparei sem nada, como se tudo que tivesse vivido tivesse sido uma miragem. E eu, errante, faminta, solitária, me alimentei somente com o que restou de mim.

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