Miragem
Tu me deu a vida, e depois me deixou em prantos. Me deu água, e depois me deixou com sede. Me ofereceu abrigo, e depois me deixou sem teto. Me amou, e depois me abandonou. Durante tempos acreditei que dois caminhos não se cruzam por um acaso. Bordava na minha imaginação retratos nossos. Escrevia em cartas diálogos imaginários. Sonhava com o teu toque. Fantasiava idealizações falsas. Criava um roteiro perfeito, com início, meio e fim. Com a urgência de sentir sabores adocicados na ponta da língua, mergulhava no mel que me era oferecido, e comia, comia, e comia mais. Quando o mel acabou, senti o amargo na boca. A boca que antes era doce, se tornou travada pela acidez. Me deparei sem nada, como se tudo que tivesse vivido tivesse sido uma miragem. E eu, errante, faminta, solitária, me alimentei somente com o que restou de mim.
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