já alerto que essa poesia não é sobre carinho.
não é sobre a doçura de um abraço ou da sensação duvidosa que é estar sozinho.
não é sobre estrelas, inverno, sol, paixão.
essa poesia é sobre indignação.
é a constante busca por justiça, respeito e igualdade.
é a ausência de segurança nas esquinas da cidade.
e nessa busca eu insisto em usar desses versos
pra começar, é fácil, quando se é branco, acreditar em racismo reverso.
ou falar mal de cotas e dizer que é vitimização, quando se tem carro, comida, educação de graça na mão.
é fácil limitar a mente e odiar a diversidade, quando estamos dentro de um padrão limitado de "normatividade".
padrão que ensina que o normal é o branco, hetero, cis.
a cinturinha da moça
ou o crente que passa empinando o nariz.
é fácil fazer piadas enxarcadas de transfobia
quando não é a nossa vida que corre risco todo dia.
é fácil olhar pra si mesmo e se aceitar, quando não te ensinaram desde a infância a se odiar
é fácil levantar a voz pra defender esse sistema
quando ele não te enche de problema.
ou gritar mito e apoiar o atual presidente.
quando você se iguala essa sociedade doente.
doente de preconceito, com sangue na mão
a mesma que levanta na hora da adoração
e diz na igreja que somos todos irmãos
se Deus abomina hipocrisia
muitos não chegarão ao céu.
se você se declara irmão daqueles que impulsiona a matar
qual a diferença entre você e caim que matou abel?
Seu conservadorismo é mais conhecido como doença, vive de ódio, preconceito, falta de respeito, ofensas.
Se o sangue de Jesus já bastava e era suficiente, porque ainda continuam derramando sangue de gente inocente.
Gente que é gente como a gente, independente de cor, gênero e sexualidade.
gente que só quer viver em paz, com sua essencia e verdade, aceitando sua raizes e ancestralidades.
mas pra isso precisam continuar resistindo a essa sociedade.
precisamos fazer a diferença, precisamos respeitá-las.
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como explicar
o inexplicável fogo da paixão?
é a força do universo que te leva até alguém
são aqueles tremores de emoção
é a insegurança que te faz refém.
é o medo de entregar-se por inteiro
e que te faz ficar com um pé atrás
é aquele abraço demorado
que não te satisfaz
você quer mais, mais e mais.
como se tudo fosse um vício
daqueles que desconhece o início
mas teme que seja finito.
que acabe rápido demais.
é o frio na barriga
que te faz querer correr
mas também
é o calor do coração
que te faz querer arriscar
é uma bifurcação no seu caminho
e agora não sabes pra que lado caminhar.
é querer se declarar de madrugada
é achar perfeita aquela voz desafinada
é pensar na cor do quarto dos seus
futuros filhos
é querer fazer daquele peito
a leveza de um abrigo.
é se sentir tonto
bobo, idiota
como se tudo que você tivesse
planejado explodisse
e não restasse nenhuma rota
só a tolice
em apaixonar-se.
é difícil lidar com quedas
principalmente as da paixão como autoria
é uma tortura quando as expectativas são criadas
e você pensa nelas todo dia.
ser vulnerável
depois de ter se machucado
não é pra qualquer hora
tem que aceitar viver a intensidade
de focar no presente
que sussura baixinho agora
"vale a pena o risco de tentar
novamente."
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não sei explicar
quão grande é a força do universo
que me leva até você.
uma força que desconheço origem
pois você é boa,
boa demais pra mim.
é que esses dias tá foda
toda hora vem a lembrança de você indo embora.
fazendo descer goela abaixo uma dose de fragilidade.
me deixando vulnerável, mesmo com tão pouca idade.
só mais um jovem ameaçando enforca-se com cortinas rasgadas
à espera da pessoa amada, ansiando desesperadamente sua chegada
sem saber que ali dentro ela já faz morada e se reflete no espelho sempre que o olha.
essa solidão no lugar da solitude gera confusão, lembrar que estar sozinho é privilégio e não opção. na escola não nos ensinaram que o melhor guia que existe é a nossa intuição, que sem ela estamos no escuro, sem qualquer direção, como um ser totalmente desatento.
que nem percebeu os panos secos no varal sendo levados pelo vento.
o mesmo vento que é um vai e volta de memórias disfarçadas, que por aí vagam, sempre é melhor deixar ir, se permanecer mata.
o sono agora só vem depois da madrugada, quando a luz do sol invade em detalhes minha cama que a saudade deixou desarumada.
a saudade de mim, por culpa de você.
bobo é quem se deposita tanto em seu barco, ao ponto de esquecer como nadar.
quando tu partiu, eu só fiz me afundar, até estendi a mão pra fora, esperando você voltar pra me puxar, esquecendo-me que eu sou o meu própio bote salva-vidas, e dessa queda só eu pra me levantar.
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naquele dia eu parei
pra pensar nela
e depois nunca parei
de pensar.
eu errei em me apaixonar por você
o momento não era o certo
mas qual seria?
te culpo, culpo seu sorriso, o jeito que alisava minhas costas e deitava em meu colo.
me culpo, por te admirar tanto, por não saber me controlar ou até me expressar quando chegavas.
mas de que serve a culpa?
além de criar barreiras
barreiras que nunca poderão ser revertidas.
tu longe e ainda perto, pois aqui restaram pedaços seus, pedaços que não consigo arrancar.
tu se foi do lado de fora e esqueceu de te levar de dentro.
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a loucura e a verdade
em ser você
e se permitir viver
nem todos vão entender.
Segundos antes do meu primeiro beijo, brincávamos fantasiando um casamento improvisado.
na cabeça, meu cabelo solto ao vento, lembrando um véu castanho-claro.
no chão, pétalas de flores espalhadas, flores que arranquei sem deixar que respirassem, sem ao menos recitar o bem me quer, fazendo-as de tapete para os pés descalços e sujos de areia.
De lado, o menino que fazia meu coração arder, de um jeito singular, e segundo minha mãe, proibido para minha idade.
o mesmo menino que eu desenhava nas paredes da escola, e que foi autor de várias poesias minhas, guardadas na mente, proibidas de sair.
De frente, um padre falso, que tinha quase meio metro de altura, e foi quase que obrigado a entrar na brincadeira.
em fantasia, nos levou a explorar uma parte estranha e desconhecida, uma etapa que seria brevemente concluída, apenas falando a simples e famosa frase
"pode beijar a noiva"
tudo permaneceu lento rapidamente.
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não podemos escolher com quem compartilhar o mesmo sangue e o lar onde vamos crescer, não escolhemos o nome que vão nos registrar, ou quem será nossos parentes.
e não é sobre ser parente, é sobre ser presente, é sobre escolher ser família.
porquê não é o sangue que nos liga, é o cuidado em forma de afeto.
ser família é estar disposto, a conversar, a escutar, disposto a amar, e amar de verdade.
o amor não julga, não invade, o amor não persegue, não bate.
amar é ser plural respeitando cada singularidade.
é ser metade, de alguém que já é inteiro.
é também sentir a dor do outro, é sorrir junto, é viver na empatia de partilhar sentimentos que não te afetam e os tornarem seus também.
ser família não é ser tradicional e inserir-se em um padrão, é sobre respeitar as diferenças, as mesmas que nos une e nos tornam um.
é o gato que encontrei na rua, com fome e frio.
a amiga que conheci online e agora faz parte do meu dia a dia.
aquele menino que conheci na escola e que agora vem me visitar.
a minha vó que mesmo de longe manda a sua maravilhosa comida em potes.
aquela pessoa que nem converso tanto, mas sei que se ligasse ela me atenderia.
ou a outra que me chama pra sair quando não to bem e me faz rir por horas.
família é quem tem um lugar guardado em você, e mais que isso, é quem valoriza esse lugar.
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eu era feliz e não sabia
quando sujava os pés na terra da rua.
descalça, enquanto corria de braços abertos, quase não sentia quando pisava em pedras afiadas.
eu era feliz e não sabia
quando descia ladeiras de bicicleta e soltava as mãos do guidon, deixando-me ir livremente, arriscando uma queda, caindo as vezes, e mesmo assim, valia a pena sentir o vento na cara junto com a sensação de liberdade.
eu era feliz e não sabia
quando brincava de barra bandeira
e me achava forte demais quando puxava alguém ou quando conseguia pegar o chinelo que colacávamos como troféu.
eu era feliz e não sabia
quando pegava esse mesmo chinelo pra fazer trave no futebol, jogávamos como se fôssemos ganhar algo a mais do que dedos rasgados.
eu era feliz e não sabia
quando sentava na calçada com os amigos
comentando sobre a vida, sobre o futuro, sobre tudo.
dando risada de cada um desses momentos
onde eu era feliz
e não sabia.
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