Na aurora fria do sepulcro mudo,
Rompeu-se a pedra do silêncio antigo,
E o Verbo, outrora semeado em trigo,
Brotou da morte, superando tudo.
Despiu-se a sombra do pesado escudo
Que ao coração servia de castigo,
E o homem, que da treva foi mendigo,
Em luz vestiu-se, de esplendor sanhudo.
Assim também, quando a alma fenecida
Jaz sob a cinza de um inverno imenso,
Desperta em flor a primavera erguida.
Ressuscitar é mais que um gesto tenso:
É renascer da própria despedida,
E ver, no fim, princípio vasto e denso.
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Almas resistem a sós,
Em meio à escuridão.
Luzes se apagam, nós,
No silêncio da solidão.
Buscam-se caminhos frágeis,
Entre os ressentimentos.
Voláteis de coração,
Emoções em movimentos.
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A coragem nasce
no instante em que
abraçamos nossas
vulnerabilidades.
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O sal estraga a ferida
e salva a comida.
Depende de onde cai,
a dor vira tempero.
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A saudade não avisa,
ela chega e puxa a cadeira que ninguém sentou.
Serve-se do prato,
come, se entrega,repete o gosto
de quem já passou.
Ela sabe a receita de memória,
conhece o sal, o ponto,
a proporção.
Cozinha em fogo brando
cada história
e serve tudo dentro do coração.
Não adianta trancar porta ou janela,
fingir que a mesa está completa e basta.
A saudade entra, senta, se revela
no tempero que o tempo nunca gasta.
E quando enfim levanta e vai embora,
deixa a toalha úmida, um resto de pão.
A gente limpa a mesa,
mas demora pra limpar
o que ficou na mão.
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Eu conjugo o amor no mais-que-perfeito,
mas ele insiste em ser irregular.
não cabe em tempo, modo, nem em leito,
e quando penso em flexi-lo, vai quebrar.
O sujeito sou eu, mas quem dá jeito
é o predicado que vem me complementar.
Sou oração sem verbo: um pobre efeito
de frase que se esquece de acabar.
A vírgula entre nós pede uma pausa,
mas o ponto final não vem jamais.
Meu coração é crase: existe a causa,
porém ninguém entende os meus sinais.
E assim me perco nesta eterna cláusula:
te amo em todas as pessoas,
e nos plurais.
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Subo degrau
por degrau, mas
o topo parece
distante.
Cada passo é
mais pesado que
o anterior, como
se o ar ficasse
mais denso.
Olho para
baixo e vejo
o caminho que já
percorri se
desfazer.
No fim,
talvez
não haja
chegada,
apenas
subida.
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Aprendi cedo
que a força nem sempre faz barulho.
Às vezes ela tem voz mansa,
mãos firmes
e um coração que não desiste.
Aprendi com mulheres
que coragem também é cuidado,
que firmeza pode ser ternura,
e que recomeçar
é uma arte silenciosa.
Vocês carregam mundos:
nos braços,
nas ideias,
nos sonhos que muitas vezes
seguram pelos outros.
E se hoje escrevo,
é porque reconheço:
muito do que sou
nasceu da presença de uma mulher.
Por isso, neste dia,
não ofereço apenas flores.
Ofereço respeito,
admiração e gratidão!
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Não é medo de cair.
É medo de não controlar.
De estar a dez mil metros
E depender de alguém
Que eu nunca vi.
No fundo,
O medo de avião
É o medo de confiar.
E confiar
É o vôo mais turbulento
Que existe.
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Amor não é certeza:
é repetição de coragem.
a gente briga,
se perde no tom,
se encontra no cuidado.
às vezes é só isso:
um café sem pressa,
um pedido de desculpa
que engole o orgulho,
um “tô aqui” dito sem espetáculo.
não é perfeito —
é possível.
e quando o mundo pesa,
a gente aprende:
ficar também é verbo,
e recomeçar
é a forma mais humilde
de amar.
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