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Ramon

@donramon · desde 2021

Meu vício literário são as lamúrias, pois eu não fico triste, eu escrevo poemas.

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Vida

Prece

Ás vezes sumo no suprassumo da tristeza, e apareço quando volta o meu apreço Eu me apresso mais do que deveria, e pago o preço por não ter as regalias Apodreço mais um tanto a todo tempo, e amadureço por não ter o que lamento Enlouqueço nesse mundo de euforia, mas nunca esqueço que é covardia ser isento E então cresço quando dou tudo que tenho, e me retenho por não receber um terço Do avesso, tento me recompor, sem rancor para guardar, pois não mereço.

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Vida

Carrasco

Releve os meus vícios, eles também são teus Neles moram minha sobrevida, a carcaça, o que sobrou Ainda não me dê como morto Não por falta de anseio, mas por excesso de lucidez Várias vezes fui acertado por ti E eu decidi sangrar até a última gota para fazer uma tintura do mais puro vermelho Queria eu desfazer todas as telas, todos os quadros e pinturas que criei de você, porque até diria que são irreais Não são! Porque são defeituosos, assim como tudo que o ser humano pensa ou faz Se você não merece o meu amor, também não merece a minha queda E, por isso, estou em guerra, sempre estive em guerra Mas nunca criei inimigos além de mim, pois nada sou senão o meu carrasco, e nada serei além da minha carranca

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Vida

Desconjuro

A palavra dita, emerge solta; evoca, invoca, satisfaz! É tudo palavra, afinal. Ao final de cada frase, em cada fase, em cada fim. O contínuo tem um enfim... E a finitude é o elixir: o existir, exigir, hesitar com H! De hoje, hora, haverá. Hão de vir; dias que não voltam! Na volta, as flores brotam em protesto. Profetizo o que é vindouro e desconjuro todo o resto sem planejar o que farei. Se o pensamento é ímã e a palavra é lei, onde está você, que não aqui?

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Água-viva

Nunca quis te afogar em minhas águas, mas, mergulhar em ti. As profundezas são crueis, lá se deixa marcas de evolução. Viver livre é um ato de rebeldia que requer coragem e a coragem é uma ode a vida. Sei que submergirá em outras margens, mais quentes e límpidas E não tardarás em esquecer os teus algozes. Água-viva, eu te venero; assim como à toda natureza, que é bela em seu âmago; Tu feres os meus pés e me impede de pisar em terra firme; E por isso, talvez eu nunca te entenda, pois é da tua natureza fazer mal a quem te toca.

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Vida

Eu, a Morte e Belchior

Me pergunto o que será da morte sem mim, quando, no fim, a vida me levar Do alto da ignorância, morro todos os dias e só consigo viver porque faleço Levanto por teimosia, osmose ou força divina. E do meu pior momento, sigo melhor. Depois torno a morrer, sem surpresa, como já conhecida; senta-se à mesa Eu, a morte e Belchior Vistosas são as manhãs em que acordo e certa é a abjuração da noite A madrugada não é somente uma palavra bonita que conjugo Me pergunto o que será de mim sem o sol, pois dantes ele fosse eterno como no sertão Eu morro, morro porque sou humano, morro como Deus um dia morreu  Morro porque espero sempre o que jamais me pertenceu em vida; tampouco na morte E se um dia fui eu um sujeito de sorte, não lembro, porque morri de duvidar.

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Amor

Transe

Avassaladoras são as paixões. Tantas boas, tantas más, oriundas da juventude, da serenidade dos dias de rebeldia que findaram. Saudades do sentir-se louco, da ansiedade e do desprazer da rejeição. De estripar o cérebro ao imaginar que noutro dia haveria contemplação. A veria, de modos, jeitos, simpatias, descrente de que o fim de tudo tardaria. Implacável é o tempo. Miríade de reminiscências: deixa ver, deixar ser, deixa ausência. Deixa-se enganar. As paixões se foram, quietas, acreditando que um dia, por certo, saberiam amar.

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Vida

À Vista

Há quem caia bem sozinho. Eu levanto; já me levantei. Não me cai bem, não me cabe, já me coube. Terra à vista após afogamento; À vista, se paga todos os lamentos. Vista só o que lhe cabe; e a solidão... não me cabe mais. Forma e força são flexíveis. Traçado a raiz é estar livre. A liberdade mora no ori. Hoje, aqui. De ontem, já se sabe: um dia me servirá. E o amanhã? Já não me cabe. Não me cabe...

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A Sete Palmos do Céu

Pensei, busquei, indaguei; e nada como um dia após o outro. Meus cabelos brancos são primos do meu coração acinzentado. Cada gesto é enigmático; cada verso, liberdade; o amanhecer uma vitória. No encanto de ser plural, o singular virou memória. E de fato, seja dito: aqui jazem os meus sonhos, a sete palmos do céu. Voaram tão alto que se perderam no espaço, nas poeiras de um anel. Bateu asas, sem beijar flor; voou pra trás, um colibri.

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